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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
30/08/2026
6 min

Entre Hilux, barracas e R$ 1 bilhão: por que a Festa de Barretos ficou pequena

Evento atrai público de mais de 2.700 municípios e já prepara mudanças para receber mais gente em 2027

Entre Hilux, barracas e R$ 1 bilhão: por que a Festa de Barretos ficou pequena

BARRETOS (SP)* — Botas texanas, chapéus e camisas xadrez dividem a cena com, Hilux, Dodge Ram, motorhomes colossais e barracas no camping da Festa do Peão de Barretos. Em uma área de cerca de 20 alqueires, o equivalente a 68 estádios de futebol, milhares de pessoas montam um endereço temporário dentro do Parque do Peão para atravessar os 11 dias de festa.

A escala exige infraestrutura. O Parque do Peão, onde acontece a festa, tem mais de 2 milhões de metros quadrados, seis bairros e 210 transformadores. O movimento ajuda a dimensionar o tamanho do negócio.

Na reta final desta edição, o faturamento de Os Independentes, associação que organiza a festa desde 1956, está 50% acima do registrado no ano passado. A expectativa é de que a movimentação econômica da festa alcance R$ 1 bilhão, um crescimento de 66% em comparação com 2025, segundo Jerônimo Luiz Muzetti, o Jerominho, como é conhecido, presidente da entidade.

Os Independentes são uma associação sem fins lucrativos fundada em 1955. Um ano depois da criação, o grupo realizou seu primeiro evento para arrecadar recursos destinados a entidades de Barretos.

Desde então, a associação está por trás da organização daFesta do Peão, que cresceu de um evento realizado na cidade para ocupar o atual Parque do Peão.

A cifra bilionária chama atenção em um momento de maior pressão financeira sobre parte do agronegócio, que convive com margens apertadas e alta nos custos desde a safra 2022/2023. Dentro do Parque do Peão, porém, os sinais são de consumo e casa cheia.

A expectativa é de quase 20 mil pessoas apenas no camping neste ano, enquanto a festa deve se aproximar de 990 mil visitas ao longo da edição. O valor do camping varia entre R$ 2,5 e R$ 3,5 mil.

O sucesso criou até um problema. “Nesta edição, a festa teve bastante problema com muito carro dentro do camping e as pessoas ficaram muito apertadas”, diz Muzetti em entrevista à EXAME, enquanto a dupla César Menotti & Fabiano se preparava para entrar no palco.

É uma mudança que Jerominho acompanha há quase quatro décadas de dentro de Os Independentes. Ele frequentava aFesta do Peão ainda criança, entrou para a associação em 1987 e assumiu a presidência pela primeira vez em 1995.

Para 2027, Os Independentes estudam deixar os veículos em uma área separada depois que os visitantes descarregarem seus pertences. A intenção é liberar terreno para barracas e aumentar a capacidade do camping.

Os compradores de ingressos já vêm de mais de 2.700 municípios brasileiros, o equivalente a quase metade das cidades do país, que conta com 5.570 municípios, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A capilaridade é especialmente forte no Sudeste. Segundo Muzetti, apenas seis ou sete municípios paulistas ainda não apareciam entre os compradores de ingressos. No Rio de Janeiro, o alcance também se aproximava da totalidade das cidades. Em Minas Gerais, havia visitantes de 674 dos 863 municípios.

Outro número ajuda a explicar por que uma festa com sete décadas de história continua crescendo. Neste ano, cerca de 29% do público está em Barretos pela primeira vez.

Atrair gente nova sem perder quem já transformou a viagem em tradição faz parte da estratégia. Jerominho chama esse processo de “oxigenar” o evento. Na visão do presidente, o intervalo entre o fim de uma edição e o início do planejamento da próxima é curto.

“Termina um evento e, uma semana ou dez dias depois, a gente já está falando do próximo evento”, afirma.

A organização costuma avaliar o que funcionou, os problemas que precisam ser corrigidos e os novos investimentos necessários. Neste ano, foram cerca de R$ 30 milhões investidos para ampliar o espaço e trazer novidades, diz o presidente.

Até os telhados fazem parte da experiência. As coberturas dos prédios dentro do Parque do Peão são iluminadas nas mesmas cores da arena. Quando o estádio fica vermelho, por exemplo, os telhados acompanham.

O cuidado foi pensado para as imagens aéreas captadas por drones e exibidas nas transmissões e nas redes sociais. “Isso para quem está em casa, que nunca veio aqui, vai ficar doido para vir conhecer”, diz.

E, no ambiente digital, a festa também continua. As transmissões no formato IRL, sigla para in real life, abriram uma nova frente de visibilidade para o evento. Influenciadores como JhonVlogs, César Rincon, que soma 9 milhões de seguidores, Miguel Mendes, com mais de 370 mil, e Kelly Fazendeira, conhecida como “Diva do Pantanal” e com mais de 300 mil seguidores, transmitiram a rotina da festa ao vivo, com conteúdos que chegaram a se estender por 24 horas.

As lives também criaram novas possibilidades de receita. Além de exibirem seus próprios patrocinadores, os criadores receberam doações dos espectadores em plataformas como YouTube, Twitch e TikTok, onde também realizaram desafios durante a festa.

Camping em Barretos

Quem escolhe dormir no camping pode encontrar mais do que barracas, caminhonetes e vizinhos de acampamento. Nos últimos anos, alguns dos principais nomes do sertanejo passaram a aparecer no meio do público, transformando o espaço em uma extensão dos palcos da Festa do Peão.

A ideia começou a ganhar forma anos atrás, quando Cristiano Araújo fez uma apresentação surpresa no camping. Nesta edição, a experiência se repetiu com nomes como Ana Castela, Nattan e Gusttavo Lima.

Para Jerominho, levar os artistas até onde o público está responde a uma mudança na relação dos fãs com seus ídolos.

“Hoje, com as mídias sociais, o artista está dentro da casa de todo mundo, mas no virtual. O público quer ver o artista de perto, bem de perto”, afirma.

A aposta deu resultado. O camping, antes pensado principalmente como lugar para ficar durante a festa, passou a ser tratado por Os Independentes como parte da própria experiência de Barretos. “Hoje, um dos principais produtos da Festa de Barretos vai ser no camping”, diz.

A intenção é aumentar o público do espaço em 2027. Para isso, a organização estuda retirar parte dos veículos da área das barracas e ganhar capacidade para receber mais campistas.

O sertanejo continua sendo o principal elo entre essa expansão e a identidade da festa. Segundo Jerominho, aproximadamente 96% da programação musical é dedicada ao gênero. Pagode e outros ritmos entram como complemento, mas sem disputar o protagonismo de um evento construído ao redor do rodeio e da cultura do campo.

*O repórter viajou a convite do Grupo DVT.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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