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Sacre Investimentos
ESGESGACS
15/10/2026
7 min

Entre novos negócios e proteção financeira, Itaú olha para a longevidade e público 50+

Luciana Nicola explica como diagnósticos municipais e estudos sobre a população mais velha ajudam a orientar decisões do negócio

Entre novos negócios e proteção financeira, Itaú olha para a longevidade e público 50+

O Itaú testou a presença de profissionais com 60 anos ou mais para orientar clientes em suas agências. O grupo recebeu capacitação sobre produtos financeiros, e uma das expectativas era que correntistas da mesma faixa etária se sentissem acolhidos ao encontrar alguém de sua geração no atendimento. A procura, porém, não ficou restrita a eles.

“Começamos a perceber que não era só 60+: outros clientes mais novos também”, diz Luciana Nicola, diretora de relações institucionais e sustentabilidade do Itaú Unibanco, em entrevista à EXAME.

Nas conversas realizadas para avaliar a experiência, clientes associaram a idade dos profissionais a conhecimento e experiência, segundo a executiva. “Para nós, foi quebrar um paradigma também.” O banco estuda possibilidades de novos modelos de contratação a partir do piloto.

A experiência é um dos exemplos de como o trabalho do Itaú Viver Mais se conecta às decisões do negócio. Criado em 2004, o instituto começou com uma combinação de atividades diretamente com idosos, parcerias na área da saúde e iniciativas para manter esse público ativo.

Ao longo da trajetória, estruturou sua atuação em três frentes: apoio a políticas públicas, produção de estudos e pesquisas e orientação para a vida financeira.

O trabalho também colocou o banco diante de diferentes condições de envelhecimento. De um lado, há pessoas que chegam à aposentadoria com patrimônio, mantêm o consumo e procuram novas atividades. De outro, estão aquelas que precisam continuar sustentando familiares, enfrentam dificuldades para administrar o dinheiro ou dependem de uma estrutura de cuidados que nem sempre está disponível.

O envelhecimento começa a mudar as cidades

A discussão sobre políticas públicas já estava presente no início do Viver Mais, mas ganhou espaço à medida que o instituto buscou compreender as condições de vida da população idosa para além das atividades que oferecia.

“Entendemos que olhar para o público 60+ a partir da política pública era fundamental”, afirma Nicola.

Em parceria com a Fundação Getulio Vargas, o instituto desenvolveu uma plataforma para apoiar diagnósticos municipais. A proposta era ajudar cada cidade a conhecer o perfil de seus moradores, acompanhar as mudanças na estrutura etária e identificar necessidades em áreas como saúde, transporte e entretenimento.

Segundo a executiva, esses diagnósticos também ajudam a orientar o apoio a projetos locais, por meio de editais com recursos incentivados destinados à pessoa idosa. A intenção é relacionar os investimentos às necessidades de cada território, em vez de adotar uma resposta única para o envelhecimento.

Nicola cita diferenças de gênero, raça e renda que se tornam relevantes para o desenho dessas políticas. Entre elas estão mulheres que chegam à velhice sem autonomia sobre as próprias finanças e pessoas cujas condições de saúde refletem desigualdades acumuladas ao longo da vida.

A dependência familiar também pode produzir outras perdas de autonomia. A executiva relata situações de pessoas idosas LGBTQIAPN+ que, ao passar a morar com parentes, precisaram esconder sua orientação sexual ou se afastar de companheiros. Para ela, o planejamento dos serviços precisa considerar essas circunstâncias, além das demandas de saúde e de cuidados físicos.

A aposentadoria não encerra as responsabilidades financeiras

Entre os temas que aproximaram o trabalho do instituto da rotina do banco está a administração dodinheiro. “Autonomia financeira sempre gritou muito”, diz Nicola.

A executiva descreve pessoas com mais de 60 anos que não apenas pagam as próprias despesas, mas também ajudam a sustentar filhos e netos ou cuidam dos pais. Nesses casos, a preparação para a aposentadoria precisa considerar compromissos que ultrapassam o orçamento individual.

Ao mesmo tempo, a saída do trabalho pode alterar a relação entre receitas e gastos. “Normalmente tem queda de renda e aumento de despesa”, afirma. Nicola cita custos com plano de saúde e medicamentos entre os itens que podem ganhar peso nessa etapa.

A orientação financeira desenvolvida pelo instituto procura abordar tanto a preparação para os anos seguintes quanto problemas já presentes no cotidiano. Entram nessa conta a organização do orçamento, o endividamento e os riscos de assumir dívidas para ajudar familiares.

Segundo Nicola, parte das pessoas atendidas tinha dificuldade para conversar sobre dinheiro dentro de casa. O receio de expor problemas financeiros contribuía para que dívidas crescessem sem que a família soubesse. O trabalho passou a incluir orientação para que esses assuntos fossem discutidos antes de se tornarem mais difíceis de resolver.

Outra frente é a prevenção a fraudes. O instituto desenvolveu conteúdos sobre proteção de dados, compartilhamento de informações e cuidados no ambiente digital, inclusive pelo WhatsApp.

“O mundo de fraudes está cada vez mais sofisticado. O golpe vem em um e-mail, um link ou uma chamada”, diz a executiva.

Nicola relaciona a necessidade de orientação à trajetória de um público que passou grande parte da vida em um ambiente analógico. A proposta, segundo ela, é inserir os cuidados com segurança nos canais que essas pessoas já utilizam, em vez de tratar a digitalização apenas como uma mudança de ferramenta.

Os aprendizados também passaram a orientar o atendimento bancário. “Veio do Viver Mais para o banco”, afirma. A executiva cita informações mais claras, linguagem acessível, atenção ao tamanho das letras e acolhimento nos canais de atendimento como aspectos necessários para apoiar decisões financeiras.

Um mercado que não se resume à vulnerabilidade

O interesse pela longevidade também tem uma dimensão comercial. A chamada economia prateada, o mercado de produtos e serviços voltados à população mais velha, reúne demandas que, na avaliação de Nicola, ainda recebem menos atenção do que aquelas associadas à juventude.

“Olham para o jovem nos serviços, mas, quando inverte a pirâmide, o principal cliente não é mais jovem”, diz.

A executiva cita produtos para a pele madura, cuidados relacionados à menopausa, entretenimento, cursos e espaços de convivência como exemplos de negócios que podem atender a diferentes necessidades dessa população. A procura por uma nova formação ou por outra atividade profissional também entra nessa discussão.

O argumento é que o envelhecimento não representa apenas uma demanda por assistência. Há pessoas com renda, patrimônio e disposição para consumir, estudar e trabalhar, mas que nem sempre encontram produtos ou serviços pensados para sua etapa de vida.

Essa oportunidade, contudo, não descreve toda a população mais velha. Em entrevista, Nicola contrapõe quem chega à aposentadoria com recursos para comprar uma casa na praia a quem permanece sem segurança financeira.

“Não podemos perder de vista a parcela vulnerável, que não conta com toda essa segurança”, afirma.

Para o banco, segundo ela, as duas situações coexistem. Entender novas demandas de consumo não elimina a necessidade de mecanismos de proteção contra fraudes, orientação financeira e atendimento adequado para quem tem mais dificuldade de acesso.

O espaço dos mais velhos no trabalho

A possibilidade de continuar trabalhando é outra parte dessa discussão. Nicola inclui atividades como consultoria e o empreendedorismoentre os caminhos para utilizar a experiência acumulada em uma carreira, seja por meio de um negócio próprio, seja em parceria com profissionais de outras gerações.

Na avaliação dela, o conhecimento de quem já enfrentou diferentes situações profissionais pode contribuir para decisões em um empreendimento. Isso não elimina, porém, a necessidade de discutir planejamento financeiro e alternativas para pessoas de baixa renda, que também fazem parte do público acompanhado pelo instituto.

Ao projetar a própria trajetória depois dos 60 anos, a executiva não associa essa idade ao encerramento da vida profissional. “Vou contribuir muito ainda”, diz.

Para as empresas, a questão também envolve as oportunidades oferecidas a quem deseja ou precisa permanecer empregado. A especialista questiona a concentração de programas de contratação nas gerações mais jovens, enquanto muitos profissionais mais velhos encontram barreiras para continuar suas carreiras.

“Cada vez profissionais demitem mais cedo”, afirma. Ao falar das iniciativas voltadas aos jovens, pergunta: “O que resta para a outra fase da vida?”

AutorLetícia Ozório
FonteExame
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