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Sacre Investimentos
Mundo
24/09/2026
7 min

Entre soja, chips e terras raras: o que Trump e Xi podem (e não podem) resolver

Especialistas enfatizam possibilidade de desenvolvimentos nos âmbitos comerciais e econômicos, mas que questões importantes seguem às margens da cúpula

Entre soja, chips e terras raras: o que Trump e Xi podem (e não podem) resolver

O presidente chinês Xi Jinping chega a Washington para uma importante e aguardada cúpula com seu homólogo americano, Donald Trump, nesta quinta-feira, 24, em um encontro marcado por expectativas em diversos setores e pela tentativa dos dois governos de preservar a relativa estabilidade da relação bilateral.

Assim como no encontro anterior, haverá uma programação de Estado e uma delegação de empresários chineses, enquanto os dois países enfrentam dificuldades econômicas e evitam acrescentar uma nova crise à disputa estratégica.

Desde o início do segundo mandato de Trump, a relação entre os Estados Unidos e a China tem seguido um ciclo de provocações, retaliações e negociações presidenciais que tanto provocam quanto limitam guerras comerciais, com análises de think tanks destacando pontos de discussão e resultados prováveis do encontro.

Possibilidades do encontro: o que dizem os especialistas?

US President Donald Trump (R) shakes hands with China’s President Xi Jinping as he leaves after a visit to Zhongnanhai Garden in Beijing on May 15, 2026. (Photo by Evan Vucci / POOL / AFP)

Um ponto de consenso entre analistas é decepcionante: os grandes assuntos, como modelos econômicos, a questão de Taiwan e os controles de exportação, provavelmente não estarão sob os holofotes. Em vez disso, as pautas devem ser majoritariamente comerciais.

Atualmente, as relações comerciais entre os países vivem um raro período de trégua, costurada na cúpula de Busan, em outubro do ano passado, que permanece em vigor. Todavia, o pacto expira em 10 de novembro, poucos dias após as importantes eleições americanas de meio de mandato.

Segundo estudo do think tank Council on Foreign Relations (CFR), Washington quer estender o acordo, mas ainda não há definição quanto à duração.

A China sinaliza interesse em mantê-lo até o fim do mandato de Trump, enquanto o representante comercial americano Jamieson Greer indicou que três a seis meses poderiam ser suficientes para avaliar o cumprimento dos compromissos de Pequim, sobretudo em relação às exportações de terras raras.

O impasse sobre os minerais críticos também permanece como um dos principais pontos de pressão na negociação.

Segundo o CFR, o governo americano avalia que Pequim cumpriu somente cerca de dois terços doscompromissos assumidos sobre terras raras — commodity sobre a qual a China detém um monopólio de fato e controla com punho de ferro —, enquanto o think tank Center for Strategic and International Studies (CSIS) observa que os Estados Unidos priorizam evitar uma interrupção no fornecimento desses materiais, que poderia atingir a indústria americana no curto prazo.

A disputa tarifária também deve ficar sobre a mesa. Washington adiou um relatório de uma investigação comercial baseada na infame Seção 301, também aplicada ao Brasil, que pode resultar em uma tarifa adicional de 7,5% sobre produtos chineses devido à sobrecapacidade industrial, ao mesmo tempo em que mantém outras medidas em reserva.

Para Pequim, qualquer aumento adicional pode representar uma quebra do entendimento firmado no ano passado.

Outro instrumento potencialmente mais agressivo, destacado pelo CSIS, é uma lei assinada por Trump em 18 de setembro que autoriza a imposição de tarifas de até 100% sobre grandes compradores russos de petróleo e gás, entre eles, a China.

O governo americano ainda não esclareceu até que ponto pretende aplicar essa medida a Pequim, o que cria uma fonte adicional de incerteza justamente quando ambos os lados tentam preservar a trégua.

No comércio, os resultados mais concretos podem vir de compromissos de compra. Trump anunciou, no encontro de maio, a intenção da China de adquirir 200 aeronaves da Boeing e de ampliar as compras agrícolas, mas Pequim não confirmou publicamente todos os anúncios.

Agora, novas compras de produtos agrícolas, energia e outros bens americanos podem surgir como parte de um acordo voltado a mostrar resultados rápidos.

O chamado Board of Trade, anunciado em maio, deve ser o principal mecanismo para transformar essas promessas em medidas práticas.

Os dois governos discutem listas de produtos para ampliar o comércio, potencialmente envolvendo, de um lado, bens de consumo chineses de baixa tecnologia e, de outro, energia, produtos agrícolas, dispositivos médicos e, eventualmente, gás natural liquefeito dos Estados Unidos.

Apesar das discussões sobre investimentos, um acordo amplo para a instalação de montadoras chinesas nos Estados Unidos parece menos provável.

Trump já disse estar disposto a aceitar a possibilidade, desde que as empresas empreguem trabalhadores americanos, mas integrantes do próprio governo, sindicatos e representantes do setor automotivo demonstram resistência, enquanto empresas e reguladores chineses também não sinalizaram disposição clara para avançar.

Tecnologia e IA

Ilustração conceitual das bandeiras dos Estados Unidos e da China sobrepostas a circuitos integrados e uma infraestrutura urbana digital, simbolizando a disputa e a interdependência entre os dois países na corrida da inteligência artificial.

Representação da disputa tecnológica e interdependência entre os Estados Unidos e a China na corrida da inteligência artificial. (Imagem gerada por IA/Exame)

A inteligência artificial será mais um teste para o alcance da cúpula. Os dois países disputam a liderança tecnológica, mas, ao mesmo tempo, enfrentam preocupações com a segurança e os impactos econômicos da tecnologia. A expectativa é de avanço no diálogo bilateral e, eventualmente, de uma linha de comunicação para crises envolvendo IA, mas não de um acordo abrangente sobre regras ou limites.

O principal desafio será transformar o diálogo em negociação, com a participação efetiva dos órgãos responsáveis pela segurança e pela regulação de IA. O CFR chama a atenção para o risco de um mecanismo meramente formal, sem a presença de instituições chinesas e americanas capazes de implementar medidas, enquanto o CSIS considera mais provável uma ampliação das conversas do que um acordo sobre salvaguardas concretas.

A disputa tecnológica continuará, ainda, nos semicondutores. Washington autorizou a venda de chips H200 para algumas empresas chinesas, mas poucos equipamentos parecem ter sido enviados, enquanto Pequim incentiva compradores a recorrer a fornecedores domésticos.

Também pesa a acusação americana de que empresas chinesas vêm utilizando técnicas de “destilação” para reproduzir as capacidades de modelos de IA desenvolvidos nos Estados Unidos.

Taiwan permanece como uma das questões mais sensíveis da reunião. Pequim deve pressionar Trump a endurecer a posição americana contra a independência da ilha e a limitar o espaço para novas vendas de armas.

O governo americano, porém, não dá sinais claros de que pretenda alterar formalmente sua política, embora declarações improvisadas de Trump possam afetar a percepção de segurança em Taiwan.

A questão iraniana adiciona outra camada de tensão. Washington elevou a pressão econômica sobre Pequim por meio de sanções relacionadas ao comércio de petróleo e gás do Irã, enquanto relatos de que entidades chinesas teriam fornecido imagens de satélite usadas contra forças americanas provocaram preocupação no Congresso.

Trump, contudo, tratou o episódio com relativa indiferença, reforçando a percepção de que a Casa Branca prioriza a manutenção da estabilidade bilateral.

Diante desse cenário, os dois estudos apontam para uma cúpula de resultados limitados, mas potencialmente relevante para evitar uma nova escalada.

A extensão temporária da trégua tarifária, novos compromissos comerciais e a criação de um diálogo mais consistente sobre IA seriam sinais de continuidade da atual distensão, enquanto impasses sobre terras raras, tarifas, semicondutores, Taiwan e Irã mostrariam que as questões estruturais da disputa permanecem abertas.

O principal resultado, portanto, pode residir menos em um grande acordo do que na capacidade de Xi e Trump de manterem um relacionamento controlado em meio à interdependência econômica e à competição tecnológica.

Como resume o CSIS, trata-se de uma rivalidade entre grandes potências limitada pela necessidade de enfrentar problemas internos, o que torna uma cúpula de pequenos acordos e compromissos vagos um resultado plausível.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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