Escócia, Gales e Irlanda do Norte se unem por independência do Reino Unido
Lideranças devem assinar, nesta segunda-feira, 14, acordo histórico de cooperação entre as três regiões

Um documento inédito na história do Reino Unido será assinado nesta segunda-feira, 14, em Cardiff, pelos primeiros-ministros da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte.
A declaração conjunta reivindica o direito de cada nação realizar referendos sobre independência e marca o primeiro movimento formal de cooperação entre as três regiões rumo a uma eventual dissolução do Reino Unido, segundo apurou o jornal The Telegraph.
O que o documento propõe
O acordo, que será formalizado como um memorando de entendimento, compromete os três governos a cooperar em quatro frentes: economia, energia, relações com a Europa e autodeterminação.
Entre os pontos previstos está o entendimento de que os três países deveriam integrar a União Europeia — Escócia e País de Gales como novos membros, e a Irlanda do Norte como parte da República da Irlanda. Vale lembrar que a ilha da Irlanda é dividida entre a República da Irlanda, país independente ao sul, e a Irlanda do Norte, que integra o Reino Unido desde 1921.
O texto também deve argumentar que o modelo econômico atual do Reino Unido "não está funcionando" para os cidadãos das três nações. Após a assinatura, os líderes concederão entrevista coletiva.
Por que esse cenário é possível agora
O encontro só é viável porque, pela primeira vez, partidos pró-independência estão no poder simultaneamente nas três nações com autonomia administrativa do Reino Unido.
No País de Gales, o Plaid Cymru se tornou o maior partido do Senedd (Parlamento Galês) após a derrota do Partido Trabalhista nas eleições de maio, com Rhun ap Iowerth assumindo o cargo de primeiro-ministro.
Na Escócia, o SNP (Partido Nacional Escocês) segue como força dominante, apesar de ter perdido seis cadeiras no Parlamento para o Partido Reformista e os Verdes. Já na Irlanda do Norte, o Sinn Féin, vencedor das eleições de 2022, governa desde 2024 sob Michelle O'Neill e é favorito para se manter no poder na votação do próximo ano.
O 'gatilho' da cúpula
A reunião acontece dias depois de o premiê britânico, Andy Burnham, sinalizar na Câmara dos Comuns (câmara baixa do Parlamento do Reino Unido) que poderia autorizar um novo referendo sobre a independência escocesa caso houvesse "consenso claro" da população a favor.
Segundo fontes ouvidas pelo Telegraph, o objetivo dos três líderes é justamente aumentar a pressão sobre Burnham após essa declaração.
O encontro também acontece dois dias depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que "adoraria" ver uma Irlanda unificada durante visita a Dublin no sábado, 12.
"Do meu ponto de vista, isso acabará acontecendo. Pode muito bem acontecer agora", disse a jornalistas.O que dizem os líderes envolvidos
John Swinney, primeiro-ministro da Escócia e líder do SNP, classificou o momento como sinal de que "o status quo não é sustentável".
"Pela primeira vez na história, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte são liderados por primeiros-ministros pró-independência [...] Westminster precisa se preparar para um futuro pós-Reino Unido", disse neste domingo, 13.
Segundo ele, Burnham "precisa encarar a ideia de que entrará para a história como o último primeiro-ministro do Reino Unido".
Uma fonte próxima a Swinney foi mais direta: "Burnham não leu o relatório e parece desconhecer os pontos básicos da posição do governo do Reino Unido sobre a União. Se eu fosse unionista, estaria muito preocupado."
Do lado galês, uma fonte do Plaid Cymru defendeu a cooperação entre os três países: "Nossos partidos têm muito a ganhar trabalhando juntos, como parceiros e em igualdade de condições, onde compartilhamos interesses comuns."
Já uma fonte do Sinn Féin afirmou que "a unificação da Irlanda não é uma aspiração distante" e que "o trabalho de construção da nova Irlanda deve começar agora", com base no direito à autodeterminação previsto no Acordo da Sexta-Feira Santa.
A resposta do governo britânico
Em carta enviada a Swinney na quinta-feira, 10, Burnham classificou um novo referendo sobre a independência escocesa como "fora de questão" antes das próximas eleições gerais, afirmando não haver "consenso" para isso nem "base clara" de que a maioria da população da Irlanda do Norte deseje se separar do Reino Unido.
Ele também citou o manifesto de 2024 do Partido Trabalhista, que rejeita apoio à independência ou a um novo referendo, e disse que o tema desviaria o foco do governo do crescimento econômico e do auxílio às famílias diante do custo de vida.
