Escola de futebol de Ronaldo Fenômeno fatura R$ 18 milhões ao ano e começa expansão nos EUA
Roberto Joaquim, que começou como franqueado da rede, hoje é CEO da Ronaldo Academy e assinou 75 contratos com franqueados

Poucos meses depois de o mundo parar em 2020, o empresário Roberto Joaquim decidiu investir em um negócio cuja atividade dependia justamente de crianças reunidas em um campo de futebol. Comprou uma franquiada Ronaldo Academy, rede de escolas que leva o nome de Ronaldo Nazário, o Fenômeno, e começou a matricular alunos na unidade da Freguesia do Ó, na zona norte de São Paulo.
As aulas começaram em agosto daquele ano, com 98 crianças. Depois de 60 dias, a escola tinha 250 alunos. O resultado abriu caminho para uma segunda unidade, em Campinas, aproximou Joaquim dos controladores da marca e transformou o franqueado em sócio e CEO da companhia.
Agora, a Ronaldo Academy prepara uma nova etapa. A rede chegou a 75 contratos comercializados, dos quais mais de 40 estão em operação, e fatura R$ 1,5 milhão por mês, o que representa uma receita anualizada de R$ 18 milhões.
A expectativa é superar R$ 3 milhões mensais conforme as unidades contratadas forem abertas e amadurecerem. A empresa também pretende acelerar a presença nos Estados Unidos, onde mantém uma escola em Tampa, na Flórida, desde 2018 e negocia novas operações.
“Quando assumi, tínhamos 15 unidades. Hoje, estamos indo para 75. Nossa meta é nos tornar a maior rede de escolas de futebol do Brasil", almeja Joaquim.
Fundada em 2015, a rede de escolas está com mais de 6 mil alunos ativos.
Como Joaquim foi de franqueado a CEO
A chegada de Joaquim ao comando da companhia começou com uma conversa informal em sua unidade de Campinas. O espaço havia sido alugado para um encontro da família do empresário Carlos Wizard, que já conhecia Joaquim de sua passagem pela Microlins.
Ao falar sobre o desempenho das escolas e os processos que havia adotado, Joaquim chamou a atenção de Charles Martins, filho de Wizard. Segundo o executivo, foi Charles quem perguntou se ele gostaria de se tornar sócio da família e de Ronaldo na empresa.
“Ele disse que era um negócio grande e que precisava pensar grande. Eu respondi: ‘Eu não sei nem pensar pequeno’”, diz Joaquim.
As negociações se estenderam durante a pandemiae foram retomadas no início de 2022. A entrada dependia da aprovação de Ronaldo, que naquele momento concentrava a atenção na aquisição da SAF do Cruzeiro. Joaquim assumiu o comando da Ronaldo Academy em maio daquele ano, quando a rede tinha 15 unidades.
Mesmo como CEO e sócio da marca, ele continuou na outra ponta do balcão. Joaquim ainda atua como franqueado e possui nove unidades. Uma décima escola deve ser inaugurada por ele até o fim de 2026, enquanto outra, com estrutura maior e investimento estimado entre R$ 2 milhões e R$ 2,5 milhões, está prevista para o próximo ano.
A própria franqueadora, segundo ele, não opera escolas diretamente. As unidades de Joaquim pertencem ao empresário na condição de franqueado, e não à companhia que administra a marca.
“Continuei com as minhas unidades e continuo em expansão. Mesmo como sócio da marca e CEO, sigo abrindo unidades como franqueado”, afirma.
A combinação oferece a Joaquim um laboratório para testar as decisões que depois serão apresentadas ao restante da rede. Também o coloca na posição de sentir os custos, dificuldades e riscos enfrentados pelos franqueados que dirige.
Quanto custa abrir uma escola da Ronaldo Academy
A Ronaldo Academy trabalha com dois formatos principais. O mais enxuto ocupa campos já existentes em clubes, escolas, condomínios ou complexos esportivos. Nesse modelo, o franqueado subloca o espaço e investe entre R$ 120 mil e R$ 150 mil, incluindo a taxa de franquia, atualmente em R$ 60 mil.
O prazo de retorno do investimento fica entre 18 e 24 meses, embora Joaquim diga que algumas operações recuperaram o investimento em menos de seis meses. Trata-se de um desempenho de unidades específicas, e não de uma garantia oferecida aos novos investidores.
No segundo formato, chamado pela companhia de flagship, o empreendedor constrói o complexo esportivo. O investimento pode variar de R$ 2 milhões a R$ 6 milhões, dependendo do terreno, da cidade e do número de campos.
Além das mensalidades, as unidades podem obter receita com aluguel de quadras, estacionamento, lanchonetes, torneios e festas infantis. O valor médio pago pelos alunos varia de R$ 250 a R$ 300 por mês, mas pode alcançar de R$ 350 a R$ 400 em bairros com custos imobiliários mais elevados.
O serviço é aberto a crianças em diferentes níveis de desenvolvimento. Não é necessário passar por uma peneira para se matricular. As turmas são organizadas entre iniciantes, intermediários e avançados, e os alunos com maior desempenho podem participar de treinamentos de alta performance e ser encaminhados a clubes parceiros.
A estratégia é ampliar o público para além das famílias que enxergam os filhos como futuros jogadores. A rede vende o futebol como atividade de formação e entretenimento, e não apenas como porta de entrada para a carreira profissional.
Como se dará a expansão para os Estados Unidos
A frente mais importante da expansão internacional está nos Estados Unidos. A Ronaldo Academy já mantém uma unidade em Tampa, na Flórida, aberta em 2018. Agora, a companhia negocia escolas em cidades como Austin, Fort Lauderdale, Orlando e Miami.
A companhia aproveitou a Copa do Mundo de 2026 para intensificar os contatos com potenciais investidores. Joaquim permaneceu 43 dias nos Estados Unidos durante o torneio e participou das ações da Casa Rede Ronaldo, em Miami. Segundo ele, a passagem pelo evento gerou reuniões com interessados e aproximou a empresa do consulado brasileiro na cidade.
“Vamos pisar no acelerador nos Estados Unidos”, afirma. “A Copa permitiu fazer muitas conexões e abriu novas conversas para a expansão.”
A expansão também testa até onde o nome de Ronaldo consegue funcionar como ativo comercial fora do Brasil. Se no mercado doméstico o Fenômeno é reconhecido por diferentes gerações, nos Estados Unidos a marca tenta se beneficiar do crescimento do futebol, da Copa de 2026 e da proximidade do país com o Mundial de Clubes e os Jogos Olímpicos de Los Angeles.
A marca de um jogador que virou empresário
A Ronaldo Academy ocupa apenas uma parte do portfólio construído pelo ex-atacante após a aposentadoria. Ronaldopassou a atuar em áreas como gestão esportiva, publicidade, entretenimento, produção de conteúdo e serviços financeiros.
Um de seus movimentos de maior visibilidade foi a compra de 90% da SAF do Cruzeiro, anunciada no fim de 2021. Durante sua administração, o clube deixou a Série B e retornou à primeira divisão. Em abril de 2024, Ronaldo vendeu sua participação ao empresário Pedro Lourenço, dono do Supermercados BH, em uma transação estimada em R$ 600 milhões.
Ele também foi controlador do Real Valladolid, da Espanha, desde 2018. Em maio de 2025, o clube anunciou um acordo para a venda do pacote majoritário a um grupo de investidores norte-americanos apoiado por um fundo europeu.
Na área financeira, Ronaldo é sócio da Galácticos Capital, empresa de gestão patrimonial desenvolvida em parceria com a Galapagos Capital. O atacante Gabriel Jesus também integra a sociedade.
Na Ronaldo Academy, seu papel está mais ligado à marca, à metodologia e às decisões estratégicas do que à administração cotidiana. Joaquim responde pela operação e acompanha os indicadores da rede, mas diz que apresenta periodicamente os resultados a Ronaldo.
Na primeira reunião entre os dois, o CEO havia sido orientado a preparar três slides e uma conversa de 20 minutos. A apresentação, segundo ele, se estendeu por cerca de uma hora e meia, à medida que Ronaldo fazia perguntas sobre faturamento, unidades e processos.
“A Ronaldo Academy carrega o legado dele”, afirma Joaquim. “Deixei muito claro o cuidado que tenho com o nome, a história e a imagem do Ronaldo.”
A reviravolta na vida de Joaquim
Antes de entrar no futebol, Joaquim passou mais de duas décadas no setor de educação profissionalizante. Trabalhou na Microcamp e depois na Microlins, onde começou na área comercial, tornou-se gerente, comprou franquias e chegou à presidência do conselho de franqueados.
A trajetória incluiu uma crise financeira entre 2007 e 2008. Depois de assumir uma unidade contando com um financiamento que não foi liberado, ele recorreu a empréstimos mais caros e acumulou uma dívida superior a R$ 1 milhão. Vendeu bens e uma das escolas, renegociou compromissos e reorganizou o negócio.
Anos depois, voltou a investir em franquias. Chegou a ter quatro unidades da Microlins e abriu uma escola de futebol independente antes de procurar uma marca que pudesse dar escala à operação.
A Ronaldo Academy apareceu nesse processo. Joaquim comprou a primeira franquia em maio de 2020, quando não havia previsão segura para a retomada das atividades presenciais.
“Pensei que, se o mundo não acabasse, eu estaria à frente de muita gente quando tudo voltasse”, afirma.
A aposta colocou o empresário dentro de uma rede ainda pequena. Seis anos depois, seu desafio é diferente: abrir as unidades já vendidas, sustentar o crescimento dos franqueados e mostrar que a força comercial de um sobrenome conhecido no futebol pode ser convertida em um negócio internacional.
