Especialistas veem ‘guerra política’ com EUA e não creem em grande ajuste fiscal devido a ‘populismo de direita e de esquerda’

Entrou em vigor nesta semana a sobretaxa de 25% dos Estados Unidos sobre uma série de produtos importados do Brasil. Na visão do chefe de macroeconomia do ASA e ex-secretário do Tesouro, Jeferson Bittencourt, trata-se não de uma guerra comercial, mas, sim, política.
As falas foram feitas durante o painel “Macroeconomia em transição: Os vetores que guiam o mercados em 2026”, na Expert XP, evento do mercado financeiro que acontece até sábado (25) em São Paulo.
Na avaliação de Bittencourt, os Estados Unidos não querem se prejudicar no âmbito comercial e o Brasil está relativamente protegido contra o novo tarifaço dos EUA, uma vez que o país é mais fechado no comércio global.
Guerra no Oriente Médio
Outro ponto destacado por Bittencourt, do ASA, como um “desafio enorme” é a tentativa de projetar as variáveis macroeconômicas diante da volatilidade gigante de curto prazo dos preços do petróleo, uma vez que não dá para acreditar de fato que os players envolvidos na guerra querem encerrá-la em breve, fora a recente entrada de novos países no conflito.
“É preciso olhar mais à frente para tirar um pouco da instabilidade e volatilidade do petróleo. Ainda acreditamos em um arrefecimento da tensão geopolítica”, afirma.
Na mesma linha, Luiz Parreiras, gestor de estratégia multimercado e previdência da Verde Asset, afirma que há incertezas na hora de olhar para as projeções de petróleo, uma vez que a entrada dos houthis do Iêmen, aliados do Irã, na guerra traz novas variáveis para as estimativas da commodity.
Para Parreiras, a previsão hoje para o petróleo é de US$ 85 o barril ao final de 2026 e US$ 75 para 2027, considerando a precificação de um estresse localizado.
Ajuste fiscal em xeque
Para Bittencourt, do ASA, com a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições para a Presidência em 2026, há pouco espaço para discutir um ajuste fiscal. “Ninguém ousa falar sobre isso porque sabe que vai ser penalizado pela campanha adversária. Não vai ter discussão de campanha sobre fiscal”, afirma.
“Em que cenário vamos fazer uma reforma fiscal? Quando tiver uma crise”, complementa. “Tinha um ex-secretário do Tesouro que falava que o Brasil não troca o telhado quando tem sol; troca quando tem tempestade.”
Na avaliação de Bittencourt, o Brasil está mais frágil diante de um contexto de juros mais elevados no mundo e caso os demais países realizem um ajuste fiscal.
Já Parreiras, da Verde Asset, avalia que o mercado pode ficar menos pessimista quanto a um ajuste fiscal caso a direita ganhe as eleições, com a implementação de ações como a desindexação da saúde e educação.
“Não acho que vai ser um ajuste necessário ou profundo que destrave os juros, porque temos populismo de direita e de esquerda, são tons da mesma coisa, e não temos um governo comprometido com disciplina fiscal”, diz.
O gestor da Verde Asset considera que o Brasil deverá passar por uma “ressaca” no fiscal em 2027, após a “orgia de estímulos fiscais” com a atual gestão Lula.
