Essa marca de roupa carioca nasceu em casa e hoje fatura R$ 300 milhões e avança nos EUA

Além da Farm Rio, outra marca carioca está transformando a brasilidade em um negócio global. Criada por Rodrigo e Tatiana Braga dentro de casa, em Niterói, a Dress começou com peças vendidas para amigas, passou por um crescimento acelerado de lojas próprias e franquias e hoje se tornou uma empresa de R$ 300 milhões. Agora, a companhia aposta nos Estados Unidos para levar estampas, cores e referências brasileiras a um público cada vez mais internacional.
A marca já conta com quase 1.000 funcionários, 62 lojas entre unidades próprias e franquias no Brasil e presença em mais de 300 pontos de venda em 38 estados americanos. A operação internacional representa quase 8% da receita da companhia e a meta é chegar a US$ 30 milhões em faturamento nos Estados Unidos até 2030.
Mas, para chegar a esse patamar, a régua começou baixa.
Do jiu-jitsu para a moda
Antes de se dedicar ao varejo, Rodrigo trabalhava com esportes e dava aulas de jiu-jitsu. Paralelamente, construía uma carreira em uma empresa de tecnologia. Já Tatiana começou a trabalhar aos 14 anos em lojas de roupas e fez parte da primeira turma do curso de moda da Universidade Cândido Mendes. Aos poucos, começou a criar peças para vender às amigas.
Quando o casal se conheceu, Rodrigo percebeu o potencial do trabalho da esposa. Nos fins de semana, os dois participavam do Mercado Mundo Mix, feira que revelou diversas marcas brasileiras. Em 2003, assumiram a operação da então Dress To Kill e transformaram a própria casa em escritório, estoque e centro de distribuição.
"Eu carregava mercadoria, pegava caixa, levava produto para as lojas. A gente fazia tudo", afirma Rodrigo.
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Crescimento acelerado e os erros do início
O crescimento foi rápido. Entre 2005 e 2008, a companhia saltou de 4 lojas para 70 unidades, sendo a maioria franquias. O problema é que o avanço veio sem planejamento.
"Eu não tinha a mínima noção do que estava fazendo. Nunca tinha experiência de administração, planejamento ou contabilidade", diz.
A falta de estrutura fez a empresa crescer e recuar algumas vezes. A profissionalização começou em 2017, com a chegada de um diretor financeiro e a implantação do primeiro orçamento anual da companhia. Sistemas de gestão, processos e uma estrutura mais robusta passaram a ser prioridade.
Hoje, Braga considera justamente essa a principal lição para quem está começando.
"O que mais me arrependo é de não ter tido um olhar financeiro e administrativo melhor no início. Você precisa saber quanto vai gastar, quanto precisa vender e se planejar", afirma.
A pandemia mudou a empresa
Em 2019, a Dress faturou quase R$ 140 milhões. Quando a pandemia fechou o varejo, a receita caiu para R$ 112 milhões. Mas a companhia havia acabado de concluir um processo de rebranding e já tinha preparado a estrutura digital, o que permitiu acelerar o e-commerce e as vendas online.
A empresa também encontrou uma forma de manter a operação ativa produzindo máscaras e aventais hospitalares, que chegaram a ser exportados para os Estados Unidos.
"A pandemia serviu para criar maturidade dentro da empresa", diz Braga.
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A aposta nos Estados Unidos
A relação da Dress com o mercado americano começou em 2017, quando o filho do casal foi estudar nos Estados Unidos. Aproveitando a temporada, Braga decidiu testar pequenas exportações para ajudar a pagar os custos da faculdade.
A internacionalização ganhou tração em 2024. A marca participou da Coterie, uma das principais feiras de moda dos Estados Unidos, em um estande de apenas quatro metros quadrados. Mesmo assim, saiu do evento com cerca de 60 pedidos e clientes como Shopbop.
Pouco depois, montou uma estrutura própria em Miami e trouxe o filho de volta, após uma temporada em Portugal, para comandar a operação americana.
Em 2025, inaugurou sua primeira loja no país. Hoje, a operação conta com cerca de 20 funcionários e atende clientes como Nordstrom, Shopbop e Hampden, além de estar presente em mais de 300 pontos de venda em 38 estados americanos.
A "brasilidade" como diferencial
Assim como a Farm Rio, a Dress acredita que a identidade brasileira é um ativo competitivo. Segundo Braga, o consumidor americano busca justamente o que a marca tem de mais característico.
"Hoje, a gente está entregando brasilidade. O americano identifica isso na nossa marca. Vê que é um produto autoral, diferente, e isso está sendo muito valorizado", afirma.
A companhia já está presente também em países como Canadá, Portugal, Espanha, Itália, Líbano, Chile, Argentina e México, por meio de multimarcas.
Crescimento mais moderado em 2026
Depois de anos de expansão mais acelerada, a Dress adotou uma postura mais conservadora em 2026. A expectativa é fechar o ano com faturamento de cerca de R$ 330 milhões, crescimento de 10% em relação aos R$ 300 milhões registrados em 2025. A margem líquida deve subir de 14,7% para 15,5%.
A decisão veio diante de um cenário considerado mais desafiador, marcado por eleições, Copa do Mundo e incertezas econômicas.
"Foi um ano em que decidimos ser mais austeros. Crescer menos, mas melhorar a rentabilidade", afirma.
Hoje, a operação internacional da Dress responde por quase 8% do faturamento da companhia. Em 2026, a expectativa é que a receita fora do Brasil chegue a cerca de R$ 30 milhões (US$ 6 milhões), impulsionada principalmente pelos Estados Unidos. A meta é multiplicar esse valor por cinco e alcançar US$ 30 milhões em faturamento no mercado americano até 2030.
Mais de duas décadas depois de começar dentro de casa, a Dress quer seguir os passos das marcas brasileiras que conseguiram transformar a moda tropical em um negócio global. E, assim como aconteceu no início da trajetória do casal, a aposta continua sendo a mesma: crescer aos poucos, mas sem perder a identidade.
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