Essa vietnamita sofria com inglês em Stanford. Hoje, tem um app de idioma que captou US$ 60 milhões
A economista Vu Van criou o aplicativo ELSA com a IA e chegou a 100 milhões de alunos em 120 países. Neste ano, a empresária investe no Brasil para ser a sede do negócio nas Américas

No Vietnã, o idioma oficial é o vietnamita. Mas, para quem quer atravessar fronteiras para estudar ou fazer negócios, é o inglês que costuma abrir portas no mundo.
A economista Vu Van aprendeu isso cedo. Quando chegou aos Estados Unidos já dominava o inglês na teoria.
Nascida no Vietnã, ela havia construído uma carreira internacional, passado pela Dinamarca e trabalhado como chefe de gabinete do CEO da Maersk (uma gigante de logística) antes de se mudar para os Estados Unidos para fazer um MBA em Stanford. Também cursou mestrado em Educação na universidade.
Foram exatamente nesses cursos internacionais nos Estados Unidos que Van identificou uma fragilidade no idioma que começou a incomodá-la.
“Embora eu tivesse aprendido inglês durante toda a minha vida e fosse muito boa em leitura, escrita e provas, a comunicação em inglês se tornou um desafio muito grande. Eu tinha dificuldade para ser compreendida e comecei a perder a confiança”, afirma Van, em entrevista exclusiva à EXAME.
Ela logo percebeu que não estava sozinha. Outros estudantes internacionais ao seu redor haviam passado anos estudando o idioma, mas continuavam inseguros na hora de falar.
O problema pessoal acabaria se transformando em um negócio global.
Escola de Graduação em Negócios de Stanford: foi neste complexo que surgiu a ideia de criar a ELSA (Stanford Graduate School of Business/Divulgação)
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A criação do app ELSA
Em 2015, Van fundou a ELSA, sigla para English Language Speech Assistant, uma plataforma de aprendizado de inglês baseada em inteligência artificial.
Dez anos depois, a empresária afirma ter ultrapassado 100 milhões de usuários em 120 mercados, captou cerca de US$ 60 milhões e já trabalhou com mais de 1.300 organizações.
“Existem bilhões de pessoas aprendendo inglês, mas é extremamente difícil praticar conversação com seres humanos, porque o acesso é limitado. Então, o que a IA poderia fazer para oferecer a cada aluno um coach de conversação particular, disponível a qualquer hora?”, afirma Van.
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Brasil: o país estratégico para a ELSA avançar
Agora, a empresa escolheu um novo território para acelerar sua expansão: o Brasil.
A companhia instalou em São Paulo seu escritório regional para as Américas e colocou o país entre seus mercados prioritários.
O objetivo é aproveitar uma combinação que a empresa considera especialmente atraente: uma população de mais de 200 milhões de habitantes, uma grande força de trabalho e um nível ainda limitado de domínio do inglês.
“Já tínhamos uma base muito forte de usuários no Brasil e percebemos que havia uma oportunidade de levar essa presença para o mercado corporativo. Por isso, São Paulo se tornou uma escolha natural para sediar nossa operação regional nas Américas.”
O acesso ao inglês ainda é um grande desafio para muitos brasileiros. Segundo um estudo da Pearson com a Opinion Box, realizada com mais de 7 mil brasileiros entre fevereiro e abril de 2025, entre os brasileiros que dizem ter algum conhecimento de inglês:
- 13% se consideram fluentes,
- 38% intermediários e
- 49% básicos.
A pesquisa também aponta que 29% dos entrevistados não têm contato com nenhum idioma além do português.
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A empresa que apostou em IA antes do mundo conhecer essa potência
Quando a economista Van começou a construir a ELSA, a inteligência artificial estava longe de provocar a corrida de investimentos vista atualmente.
A empreendedora conheceu o cientista Xavier Anguera, que se tornaria cofundador da companhia, durante uma conferência na Alemanha. Ela procurava um especialista em reconhecimento de fala capaz de desenvolver a tecnologia que imaginava.
A divisão de papéis veio das próprias trajetórias. Anguera carregava experiência em pesquisa e tecnologia; Van, formação em negócios e educação.
A proposta parecia simples: usar inteligência artificial para ouvir uma pessoa falando inglês, identificar problemas e oferecer feedback em tempo real.
Convencer investidores, no entanto, exigia mais do que apresentar um pitch com a sigla IA.
“Há dez anos, quando você falava em IA, isso não despertava automaticamente o mesmo entusiasmo nos investidores que desperta hoje”, diz Van. “Precisávamos realmente demonstrar que a tecnologia funcionava, em vez de simplesmente usar uma palavra da moda.”
A primeira versão da tecnologia conseguia ouvir o aluno e dar feedback enquanto ele falava. A demonstração serviu para provar que seria possível transformar a ideia em produto.
A tese por trás da empresa era atacar um gargalo de escala. Bilhões de pessoas estudavam inglês, mas oferecer a todas elas conversação individual com professores seria difícil e caro.
“Então, o que a IA poderia fazer para oferecer a cada aluno um coach de conversação particular, disponível a qualquer hora?”, afirma.
A ELSA acabou captando aproximadamente US$ 60 milhões ao longo de sua trajetória.
A companhia não revela faturamento atual, divisão de receita nem se já atingiu o lucro. Segundo a empresa, uma estimativa pública apontava ARR global (receita recorrente anual) de US$ 32,5 milhões em 2023.
A estratégia financeira, porém, mudou. “Hoje, não se trata mais de crescer a qualquer custo”, diz Van. “Queremos construir uma empresa eficiente e sustentável, com crescimento atrativo, mas sem consumir todo o caixa nesse processo.”
Atualmente, os investimentos estão concentrados em três frentes: inteligência artificial e desenvolvimento de produtos, expansão no mercado corporativo e crescimento internacional (incluindo o Brasil).
Do celular do consumidor para dentro das empresas
A ELSA nasceu como um negócio voltado diretamente ao consumidor. O aplicativo segue um modelo freemium: qualquer usuário pode começar gratuitamente e contratar planos pagos para acessar recursos adicionais.
Mas, a partir deste ano, é outra frente que ganha peso dentro da estratégia da companhia: o B2B.
A empresa não revela quanto da receita já vem de contratos corporativos, mas Van afirma que esse segmento cresce mais rapidamente e ocupa uma parcela cada vez mais importante do negócio.
“O inglês não é apenas um benefício oferecido aos funcionários. Ele afeta vendas, atendimento ao cliente, liderança, colaboração global e produtividade”, afirma.
A ambição é fazer a ELSA deixar de ser vista apenas como um aplicativo para estudar inglês e transformá-la em uma plataforma de comunicação baseada em IA para empresas.
Entre os clientes globais citados pela companhia estão a TELUS Digital, que reúne cerca de 78 mil funcionários em 31 países, e a NashTech. Segundo a ELSA, nesta última o programa de inglês integra o desenvolvimento profissional e pode ser requisito para determinadas promoções.
É justamente essa avenida corporativa que a companhia pretende explorar no Brasil.
A ELSA não informa quantas empresas brasileiras já são clientes nem estabelece publicamente uma meta de faturamento ou contratos para o país. Diz apenas que já possui milhões de alunos brasileiros e atende um número crescente de clientes corporativos.
São Paulo recebe o escritório que será o hub das Américas
O estado de São Paulo foi escolhido para funcionar como o hub da ELSA nas Américas. A operação brasileira reúne profissionais capazes de trabalhar em português, espanhol e inglês e deve apoiar também outros países latino-americanos.
“Não encaramos o Brasil como uma iniciativa de curto prazo; estamos construindo as bases para uma presença regional de longo prazo”, afirma Danielle Alfieri, diretora-executiva para as Américas da ELSA.
A empresa não revela quanto investiu na instalação da operação brasileira. Segundo Alfieri, os aportes envolvem não apenas o escritório físico, mas contratação de liderança, desenvolvimento comercial, parcerias, localização do produto, implementação e suporte aos clientes.
“Como fundadora, você nunca deve pensar pequeno”, diz. “Se pudéssemos alcançar todos os 200 milhões de brasileiros e ajudá-los a se comunicar melhor em inglês, ampliar sua mobilidade profissional e conquistar melhores oportunidades e renda, certamente gostaríamos de estar presentes para atendê-los.”
Vu Van, fundadora da ELSA: “Não encaramos o Brasil como uma iniciativa de curto prazo; estamos construindo as bases para uma presença regional de longo prazo” (Vu Van/Arquivo Pessoal)
E por que pagar por um app se o ChatGPT fala inglês?
O avanço da inteligência artificial também criou um paradoxo para empresas como a ELSA.
A mesma tecnologia que ajudou a companhia a construir seu negócio agora permite que qualquer pessoa converse em inglês com ferramentas generalistas de IA generativa.
Para Van, a barreira competitiva da empresa não está simplesmente em ter inteligência artificial. Está nos dados acumulados ao longo de uma década.
“Hoje, qualquer pessoa pode construir praticamente qualquer coisa com IA. Mas, dentro desse universo, existe um elemento que considero uma verdadeira arma secreta: dados”, afirma.
Segundo a fundadora, a companhia acumulou uma década de informações geradas por alunos de diferentes países, sotaques, níveis de conhecimento e objetivos de aprendizado. É essa base que, na visão da executiva, permite personalizar o feedback e identificar erros de forma mais precisa.
“Sem dados, você acaba tendo uma tecnologia de IA genérica, à qual qualquer pessoa pode ter acesso. Com dados, conseguimos ser muito mais precisos na identificação dos erros cometidos pelos alunos.”
A resposta da empresa ao avanço das IAs generalistas, portanto, é tentar aprofundar a especialização.
Van chama essa estratégia de hiperpersonalização: usar o histórico de interação dos alunos para adaptar exercícios, feedbacks e a experiência de aprendizado às dificuldades individuais.
É também uma forma de defender o negócio em um mercado no qual as barreiras tecnológicas ficaram menores.
O maior dos desafios: romper com seu próprio produto”
A ameaça não passa despercebida pela fundadora.
Questionada sobre qual foi o maior desafio de construir a ELSA (desenvolver a tecnologia, levantar capital ou transformar a ideia em negócio) Van aponta outro: continuar reinventando a empresa.
“O produto que fez você ter sucesso cinco anos atrás pode não ser o produto que fará você ter sucesso daqui a cinco anos”, afirma.
Para uma empresa que nasceu apostando em inteligência artificial muito antes da explosão da IA generativa, isso significa aceitar que a própria tecnologia pode tornar antigas vantagens obsoletas.
“A IA generativa surgiu há apenas três ou quatro anos e acelerou tudo de uma maneira que nunca imaginamos”, diz Van.
A companhia não descarta voltar ao mercado para captar recursos. Van afirma que uma nova rodada pode acontecer caso surja uma oportunidade que justifique acelerar os investimentos.
IPO ou venda da empresa também permanecem no radar como possibilidades futuras, embora não exista, segundo ela, uma decisão tomada.
“Meu papel como fundadora é fazer com que a ELSA seja estrategicamente importante, continue crescendo e seja financeiramente forte. Se construirmos algo suficientemente valioso, criaremos opções para o futuro.”
Para Van, existe ainda uma ligação pessoal entre o negócio criado há uma década e a estudante internacional que chegava a Stanford sem conseguir se fazer entender como gostaria.
“O inglês me deu acesso a uma vida diferente”, afirma. “É poder falar em uma reunião, conseguir o emprego dos sonhos, negociar o salário que você merece, fazer uma apresentação e ser ouvida, liderar uma equipe ou mudar a trajetória da sua carreira.”
