Esses advogados tomaram block por spam. Hoje, a empresa deles fatura R$ 50 mi com contratos digitais

Durante anos, Getúlio Santos ganhou a vida redigindo, revisando e negociando contratos. Como advogado societário, passava boa parte do tempo ajudando empresas a fechar negócios. O problema é que a etapa mais importante daquele processo continuava sendo uma das mais burocráticas: coletar assinaturas.
Foi dessa frustração que nasceu a ZapSign. Em 2020, Santos e Renato Haidamous Rampazzo, também advogado, decidiram criar uma ferramenta que permitisse assinar documentos pelo WhatsApp de forma simples e com validade jurídica.
O projeto começou como um trabalho paralelo. Hoje, transformou-se em uma empresa com receita anual de R$ 50,7 milhões, 57 mil clientes ativos, mais de 4 milhões de usuários, presença em 81 países e clientes como Itaú, OLX, Espaço Laser e 3corações.
A meta agora é dobrar de tamanho. A companhia quer chegar aos R$ 100 milhões em receita até o fim de 2026 apostando em certificados digitais, biometria e soluções de combate a fraudes.
O caminho até aqui, porém, foi menos organizado do que parece. Os fundadores compraram mailing, tiveram campanhas bloqueadas por spam e descobriram rapidamente que crescimento não viria daquela forma.
A tração apareceu em outro lugar: no boca a boca entre advogados que passaram a recomendar a plataforma para clientes e parceiros.
Como a ZapSign foi criada
Santos sempre teve interesse por negócios. Ainda na faculdade de Direito, começou a trabalhar em escritórios de advocacia e, depois de formado, criou sua própria banca especializada em direito societário. Ao longo da carreira, aproximou-se do ecossistema de tecnologia, primeiro como advogado de startups, depois como investidor e empreendedor.
Foi nesse ambiente que conheceu Renato Haidamous Rampazzo. Os dois compartilhavam uma percepção comum: as ferramentas de assinatura eletrônica disponíveis no mercado eram juridicamente robustas, mas pouco intuitivas para o usuário comum.
A ideia da ZapSign surgiu em uma conversa informal em São Paulo. Santos comentou que alguém deveria criar uma plataforma de assinatura eletrônica desenhada para funcionar em aplicativos de mensagem. Na mesma frase, sugeriu o nome.
"Eu mencionei muito de passagem: a gente tem que criar uma ferramenta de assinatura eletrônica que funciona no WhatsApp. Tem até o nome já: ZapSign", relembra.
Meses depois, Rampazzo ligou dizendo que queria construir o produto. O investimento inicial previsto era de apenas R$ 10 mil. Os dois continuaram tocando seus trabalhos enquanto desenvolviam a plataforma nas horas vagas.
A proposta era permitir que qualquer pessoa assinasse um documento com a mesma facilidade com que envia uma mensagem.
"Eu queria que meu pai assinasse um documento da mesma forma que encaminhava um vídeo de bom dia no grupo da família", afirma Santos.
O timing da pandemia
A ZapSign foi lançada em março de 2020. Poucos dias depois, a pandemia acelerou a digitalização de empresas em todo o mundo e transformou a assinatura eletrônica em uma necessidade urgente.
Sem planejar, os fundadores colocaram no mercado uma solução focada em simplicidade justamente quando empresas precisavam continuar fechando contratos sem contato presencial.
Enquanto muitas plataformas ainda operavam com fluxos centrados em e-mail, a ZapSign apostava em uma experiência adaptada aos aplicativos de mensagem.
"Não é possível que a gente vá continuar enviando token de autenticação e documento para assinar pelo e-mail. Ninguém fica no e-mail o dia inteiro", diz.
O crescimento inicial veio principalmente por indicação. Advogados, contadores e pequenas empresas passaram a recomendar a ferramenta, impulsionando uma expansão praticamente orgânica.
O setor jurídico virou o principal canal de crescimento
A origem dos fundadores acabou se transformando em uma vantagem competitiva.
Segundo Santos, a adoção de ferramentas de assinatura eletrônica costuma passar pela aprovação dos departamentos jurídicos, que precisam validar a segurança e a validade legal dos processos.
Por isso, a empresa investiu, desde o início, em conteúdo e educação sobre assinatura eletrônica, tema que ainda gera dúvidas mesmo após décadas de regulamentação no Brasil.
Hoje, cerca de 30% da base da ZapSign está ligada ao setor jurídico. A reputação construída nesse nicho ajudou a companhia a expandir sua presença para outros segmentos e consolidar sua marca nacionalmente.
O tamanho da ZapSign hoje
A ZapSign foi adquirida em 2021 pela colombiana Truora, movimento que acelerou sua expansão internacional. Hoje, a operação está presente em 81 países, com crescimento relevante em mercados como Colômbia, México e Estados Unidos.
Mesmo com a expansão, a companhia manteve uma característica dos primeiros anos: continua operando de forma remota. O grupo reúne cerca de 250 funcionários espalhados por diferentes países e utiliza espaços de coworking emSão Paulo e Belo Horizonte apenas de forma pontual.
"A gente não é remoto por opção. A gente é nativo remoto", afirma Santos.
A assinatura eletrônica continua sendo o principal produto da empresa, mas deixou de ser o único. Em 2026, a ZapSign passou a atuar como Autoridade Certificadora, habilitando-se a emitir certificados digitais próprios, como e-CPF e e-CNPJ. A iniciativa abriu uma nova frente de crescimento para uma base formada justamente por advogados, contadores e empresas que já utilizam esse tipo de solução.
"Isso abriu para a gente um novo canal de crescimento que é a venda de certificados digitais", afirma Santos.
A disputa com gigantes do mercado
A primeira fase da ZapSign foi dominada por pequenas e médias empresas, que ainda representam cerca de 70% da base de clientes. Agora, o foco está nas grandes corporações.
A companhia passou a disputar espaço com empresas consolidadas como DocuSign, Clicksign, D4Sign, Autentique e Certisign. Segundo Santos, a estratégia é se diferenciar pela combinação entre simplicidade de uso, validação jurídica e novas ferramentas de identidade digital.
"Estamos deixando de ser uma startup que nasceu numa aventura de final de semana de dois advogados e migrando para grandes clientes", afirma.
A companhia também vem ampliando sua oferta de serviços ligados à prevenção de fraudes, incluindo biometria facial, documentoscopia, prova de vida, verificação de antecedentes e autenticação de identidade.
Segundo a empresa, parte relevante do crescimento esperado para os próximos anos virá da venda desses serviços para clientes que já utilizam a plataforma.
"A gente está expandindo a base e aumentando o upsell da própria base", diz.
