Esta empresa de entregas vai faturar R$ 200 milhões ao parar de disputar entregadores por preço

Durante anos, a lógica da logística urbana foi simples. Quem pagasse mais, levava o entregador.
A conta começou a ficar mais difícil quando o comércio eletrônico acelerou e empresas de todos os tamanhos passaram a disputar os mesmos profissionais. Em vez de entrar nessa guerra, a mineira Shippify decidiu testar outra estratégia: transformar o entregador em um ativo do negócio.
A empresa criou um marketplace de produtos e serviços, lançou programas de recompensa, benefícios e uma carteira digital. Tudo para sua base de entregadores.
A mudança ajuda a explicar por que a companhia cresceu 156% em 2025 e agora projeta ultrapassar 200 milhões de reais em faturamento neste ano.
"Ao invés de entrar nessa briga de preço, pensamos no que poderíamos fazer para trazer essas pessoas para mais perto da empresa de uma forma mais engajada", afirma Lucas Grossi, CEO da Shippify.
A estratégia marca mais uma transformação na trajetória da companhia. Fundada em 2015 por dois empreendedores equatorianos que vieram ao Brasil por meio do programa Startup Brasil, a Shippify passou a última década ajustando seu modelo de negócios até encontrar uma fórmula que combinasse crescimento acelerado e rentabilidade.
Hoje, realiza mais de 1 milhão de entregas por mês, opera em mais de 400 cidades e mantém uma rede de cerca de 250 mil entregadores.
Qual é a história da Shippify
A história da Shippify começou longe dos grandes centros de logística do país.
Os fundadores Miguel Torres e Luis Loaiza chegaram ao Brasil após serem selecionados pelo Startup Brasil, programa federal voltado para empresas de tecnologia. A operação foi montada em Belo Horizonte, cidade onde Grossi conheceu os empreendedores e se tornou o primeiro funcionário da empresa.
Naquele momento, o foco era conectar motoboys e motoristas autônomos a empresas que precisavam realizar entregas rápidas. A atuação começou pela entrega de refeições e pequenos volumes, mas a empresa logo percebeu que havia uma oportunidade maior no atendimento a grandes varejistas.
Ao longo dos anos, a companhia ampliou sua atuação para diferentes etapas da cadeia logística. Primeiro vieram as entregas urbanas de última milha. Depois, operações entre cidades, modelo conhecido como cross docking, sistema em que mercadorias são transferidas entre centros logísticos antes da entrega final.
Mais recentemente, a empresa passou a atuar também no transporte entre centros de distribuição e operações de food delivery.
O crescimento, porém, trouxe um desafio comum às startups de logística: escalar sem comprometer a rentabilidade.
Qual foi a virada que mudou o modelo de negócio
Depois da pandemia, a Shippify decidiu abandonar uma lógica bastante comum entre empresas do setor: construir infraestrutura antecipadamente para depois buscar volume suficiente para ocupá-la.
"A gente trabalhava naquele modelo tradicional de logística. Construir uma infraestrutura e depois encher isso de pacote. A gente percebeu que esse modelo é difícil de sustentar porque exige muito capital", afirma Grossi.
A partir de 2022, a empresa passou a operar de forma diferente. Em vez de investir antecipadamente em capacidade, passou a fechar contratos personalizados com grandes clientes e estruturar a operação a partir da demanda já contratada.
Hoje, a companhia atende empresas como Amazon, Boticário, Keeta e 99. O modelo permite precificar cada operação de acordo com a região, o prazo de entrega e o volume transportado, aumentando a previsibilidade da receita.
Segundo Grossi, a mudança ajudou a empresa a voltar a crescer sem abrir mão da disciplina financeira. Há cerca de três anos, a companhia mantém resultado operacional positivo de forma recorrente. "O que a gente busca é crescer de forma sustentável. Não faz sentido ter um faturamento maior se o negócio não para de pé", afirma.
A corrida pelos entregadores
Se a rentabilidade deixou de ser o principal problema, outro desafio ganhou espaço. O avanço do comércio eletrônico fez crescer a necessidade de entregadores em um ritmo superior à entrada de novos profissionais no mercado. O resultado é uma disputa crescente entre plataformas, varejistas e operadores logísticos.
"As vendas online estão crescendo mais rápido do que novas pessoas querendo se tornar entregadores", afirma Grossi.
Foi nesse contexto que a empresa decidiu investir em uma estratégia de fidelização. Além da remuneração pelas entregas, a Shippify passou a oferecer programas de pontuação, benefícios, acesso a produtos e serviços, além de uma conta digital voltada para os profissionais da plataforma.
Segundo a empresa, a estratégia ajuda a sustentar uma rede de cerca de 250 mil entregadores espalhados pelo país, um dos principais ativos da operação.
Quais são as próximas apostas da empresa
A próxima aposta da companhia está na tecnologia.
Ao longo dos últimos anos, a Shippify desenvolveu internamente os sistemas utilizados para gerenciar entregadores, roteirização, monitoramento, rastreamento e atendimento aos clientes. Agora, a empresa começou a comercializar essa estrutura para terceiros.
A plataforma, chamada Shippify OS, reúne ferramentas de gestão de frota, onboarding digital de entregadores, monitoramento em tempo real e indicadores operacionais em um único ambiente.
A empresa também incorporou ao software os programas de relacionamento desenvolvidos para sua própria base de entregadores, incluindo marketplace de benefícios, sistema de pontuação e conta digital.
"Existe uma demanda crescente por soluções que deem mais controle e visibilidade à operação logística. Estamos estruturando essa frente como uma nova vertical de receita", afirma Grossi.
O movimento acompanha uma tendência observada em diferentes segmentos da logística, em que operadores passam a monetizar a tecnologia desenvolvida para suas próprias operações.
Para a Shippify, a aposta é que o software represente uma nova fonte de crescimento em um mercado que deve movimentar mais de US$ 10 bilhões no Brasil até 2027, segundo estimativas da Statista.
Com contratos de longo prazo, uma operação presente em mais de 400 cidades e uma nova frente de SaaS, software como serviço, a empresa quer encerrar 2026 com mais de 200 milhões de reais em faturamento.
O desafio agora é repetir a velocidade de crescimento dos últimos anos sem perder o controle de uma operação que ganha escala em todo o país.
