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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
08/07/2026
6 min

Esta empresa francesa capta quase US$ 1 bilhão para crescer no Brasil e resolver a maior dor do RH

Esta empresa francesa capta quase US$ 1 bilhão para crescer no Brasil e resolver a maior dor do RH

Folha de pagamento fechada na planilha. Sistema de ponto que não conversa com o de benefícios. Admissão que ainda depende de papel. A rotina de boa parte dos departamentos de RH no Brasil segue analógica.

Digitalizar essa operação virou um mercado bilionário, disputado por consultorias e empresas de tecnologia do mundo inteiro.

É nesse mercado que atua a HR Path, consultoria francesa fundada em Paris em 2001 e especializada em transformar áreas de recursos humanos. A empresa opera em três frentes: Advise, a consultoria de estratégia e gestão de mudanças; Implement, a implementação de sistemas de RH, como os da alemã SAP; e Outsource, a terceirização de processos como a folha de pagamento.

Hoje, o grupo tem 2.600 funcionários, atende mais de 3.000 clientes e está presente em 30 países, entre eles o Brasil, onde chegou em 2024.

Nesta quarta-feira, 8, a companhia anuncia uma captação de quase 1 bilhão de dólares, liderada pela gestora global Ardian.

Segundo a empresa, os recursos vão financiar a próxima fase de expansão internacional — e o Brasil está no centro do plano. A operação brasileira, montada a partir das aquisições da Intelligenza e da GDT Brasil, virou uma das principais plataformas de crescimento do grupo na América Latina.

"O Brasil é um dos mercados de tecnologia para recursos humanos mais dinâmicos da América Latina e ocupa um papel estratégico em nosso plano de crescimento internacional", afirma Ricardo Nóbrega, partner da HR Path no Brasil.

Os planos são de dobrar de tamanho. A meta do grupo é sair dos atuais 360 milhões de euros de faturamento anual para 700 milhões de euros em três anos, chegar a 40 países e a 5.000 funcionários. No Brasil, a meta alinhada com a matriz é crescer 30% neste ano, diz Nóbrega — um ritmo que depende de novas aquisições, de investimento em treinamento e da demanda das empresas por digitalização e inteligência artificial no RH.

Quem é a HR Path

A HR Path nasceu na França em 2001 e cresceu com uma estratégia agressiva de compras: foram 57 aquisições ao longo da trajetória, segundo Nóbrega. Nos últimos dois anos, a receita do grupo cresceu cerca de 70%, impulsionada pela combinação de crescimento orgânico e novas aquisições, segundo a empresa.

O modelo de negócio cobre o ciclo completo da gestão de pessoas.

Uma empresa em expansão pode primeiro contratar a terceirização da operação no formato de BPO, depois implementar um novo sistema de folha e até ter uma consultoria para redesenhar processos inteiros de RH.

"Pelo portfólio, conseguimos atender qualquer demanda que o RH tenha", diz Nóbrega. O grupo atende organizações que, somadas, representam mais de 20 milhões de trabalhadores no mundo.

Como é a operação brasileira

A porta de entrada no Brasil foi a compra da Intelligenza, consultoria paulistana criada em 2008 e especializada em implementação de soluções SAP para RH, com cerca de 250 funcionários e grandes empresas na carteira.

A aquisição, em 2024, marcou a chegada do grupo ao país.

De lá para cá, a operação local ganhou musculatura. A HR Path montou no Brasil a frente de consultoria estratégica e passou a oferecer também a terceirização de processos, completando o portfólio. Em 2026, veio a segunda aquisição: a GDT Brasil, consultoria reconhecida em liderança, gestão de mudanças e educação corporativa.

Os resultados surpreenderam a matriz, diz Nóbrega, e reforçaram a decisão de investir mais na região.

Entre os serviços com maior tração está o EOR, sigla em inglês para employer of record — o "empregador registrado", modelo em que a HR Path assume a gestão de contratação e pagamento de funcionários em outros países.

Na prática, uma empresa brasileira que queira testar o mercado americano contrata o serviço e recebe a fatura em reais, sem precisar montar estrutura própria fora. O caminho inverso também vale: empresas estrangeiras usam o serviço para contratar no Brasil sem abrir operação local.

"A complexidade de pagar em regiões diferentes, ou fazer contratação, a gente elimina, porque fazemos a gestão desse pagamento, e a empresa brasileira recebe a fatura em reais", afirma Nóbrega.

A próxima fronteira: IA — e o problema da confiança

A digitalização de processos é a base do negócio, mas a nova onda de demanda vem da inteligência artificial.

E aqui, diz Nóbrega, mora um problema que a maioria das empresas ainda não resolveu: a governança — o conjunto de regras, processos e controles que garante que a tecnologia funcione de forma segura e gere resultado.

"Muita gente tem visão de que governança é burocrática. Mas, no longo prazo, quando você tem governança, consegue gerar resultado de forma real", afirma.

Para ele, a falta de governança explica por que tantos projetos de IA nas empresas não entregam retorno confiável.

O tema é sensível para a própria HR Path. A terceirização de folha de pagamento lida com dados pessoais e salariais, informações extremamente críticas. A área global de cibersegurança do grupo responde diretamente ao CEO, e a empresa mantém uma estrutura de certificações para garantir o nível de segurança dos sistemas.

Foi ao estruturar o uso interno de IA que o grupo enxergou a oportunidade de vender esse serviço aos clientes, criando frentes de letramento em IA e de governança.

O desafio seguinte, na visão do executivo, é preparar as lideranças para gerenciar agentes de IA — sistemas capazes de tomar decisões com autonomia.

"Como você tem capacidade limitada humana para fazer gestão de agentes com capacidade ilimitada?", diz Nóbrega. A resposta, para ele, passa por transformar a estrutura operacional das empresas — exatamente o tipo de projeto que a consultoria quer vender.

O que está em jogo

O aporte da Ardian dá munição para a estratégia de aquisições, mas o crescimento projetado não é trivial.

Quase dobrar o faturamento em três anos, em um mercado disputado por consultorias globais e empresas de tecnologia, exige integrar dezenas de operações compradas, cada uma com cultura, sistemas e equipes próprias, sem perder clientes no caminho.

Com sede em São Paulo, a operação brasileira concentra hoje as três frentes do grupo e deve ser a base para a expansão pela América Latina. Se o plano der certo, o país deixa de ser apenas mais uma das 30 bandeiras no mapa da HR Path para virar o motor da região.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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