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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
02/09/2026
7 min

Esta ex-enfermeira fará R$ 50 milhões criando marcas de cosméticos para empresas

Com 4 mil clientes cadastrados e 1.200 produtos previstos até março, empresária aposta em uma operação que vai da formulação ao varejo para crescer mais de 60% em 2026

Esta ex-enfermeira fará R$ 50 milhões criando marcas de cosméticos para empresas

Quando mineira Amanda Coelho começou a vender cosméticos, parte do estoque cabia dentro do carro. Era 2012, a distribuidora de seu pai enfrentava uma grave crise financeira e ela percorria clientes levando os produtos que ainda restavam. Recebia em cheque ou dinheiro e separava o suficiente para colocar gasolina e seguir viagem.

Dois anos depois, a situação piorou. A empresa da família faliu. Amanda, que havia começado a carreira como enfermeira do SUS, viu oficiais de Justiça chegarem à casa dos pais para recolher bens.

Hoje, a empresária está do outro lado dessa história. À frente da Assinatura Marca Própria e como sócia de outros negóciosligados ao mercado de beleza, construiu um ecossistema que atende desde quem chega com uma ideia de cosmético até marcas que precisam desenvolver produtos, embalagens, identidade visual, encontrar fabricantes, importar componentes ou ampliar as vendas.

Os negócios ligados à empresária faturaram R$ 30 milhões em 2025. Para 2026, a expectativa é superar R$ 50 milhões — avanço de pelo menos 67% em um ano.

A Assinatura tem 4 mil clientes cadastrados e trabalha com 14 parceiros homologados. A carteira vai de pequenos empreendedores que encomendam algumas centenas de unidades a empresas mais estruturadas.

A quantidade de lançamentos em preparação ajuda a explicar a expectativa de crescimento. Até o fim de novembro, são 449 novos produtos em desenvolvimento. Considerando aqueles previstos para chegar ao mercado até março de 2027, o número sobe para 1.200.

Como Amanda foi de enfermeira a empresária

A entrada de Amanda no setor de beleza não fazia parte dos planos.

Formada em enfermagem, ela trabalhou no SUS, inclusive em urgência e emergência, e depois passou pela Unimed. A mudança começou entre 2006 e 2007, quando seu pai, dono de uma distribuidora de cosméticos em Minas Gerais, descobriu um tumor no intestino.

Como Amanda trabalhava principalmente à noite, a mãe sugeriu que ela ajudasse o pai durante o dia.

Começou como demonstradora. Ia às lojas apresentar cosméticos, conversar com consumidores e aplicar os produtos. Para melhorar o trabalho, estudou maquiagem e passou a oferecer cursos. A iniciativa ganhou espaço entre os clientes da distribuidora e a levou a viajar pelo país.

A enfermagem foi ficando para trás. O problema é que Amanda conhecia os clientes muito melhor do que as contas da empresa da família. Em 2012, descobriu que a situação financeira era crítica. 

“Hoje, com o conhecimento que eu tenho, em 2012 meu pai já estava falido”, afirma.

Amanda passou a colocar o estoque restante no carro e visitar pessoalmente os clientes. Na época, ainda mantinha um plantão semanal como enfermeira e admite que pouco entendia sobre administração.

“Eu não tinha conhecimento nenhum naquela época de empreendedorismo. Eu era uma enfermeira e sabia maquiar.”

Em 2014, a falência se tornou definitiva. Mas os anos trabalhando diretamente com lojistas e consumidores haviam deixado um ativo: uma rede de relacionamentos no setor.

Foi por meio dela que apareceu a oportunidade que mudaria sua trajetória.

Uma aposta nas marcas dos outros

No fim de 2014, Alexandre Mata, da Farmácia Indiana, convidou Amanda para trabalhar com marca própria. O grupo Cifarma começava a desenvolver produtos desse tipo e a avançar em skincare.

Amanda foi estudar o segmento na Suíça, onde a irmã vivia, voltou ao Brasil e criou a Assinatura Marca Própria.

O momento ajudou. O mercado brasileiro começava a ver a multiplicação de marcas de maquiagem associadas a maquiadores e influenciadores. Amanda conhecia os dois lados.

“Eu já fazia marca própria, já estava habilitada, já era maquiadora e já tinha esse contato com essas pessoas”, diz.

Segundo ela, a empresa chegou aos primeiros mil clientes rapidamente. Além do Brasil, passou a desenvolver projetos para profissionais da Colômbia, Argentina e Equador.

Paralelamente, Amanda seguiu carreira dentro da indústria. Foi representante comercial, tornou-se sócia de uma fábrica, abriu outra e ocupou por anos posições executivas no setor. A experiência terminou no fim de 2023, quando deixou o cargo de diretora comercial para se dedicar aos próprios negócios.

Foi nesse período que a Assinatura deixou de funcionar apenas como uma ponte para fabricar cosméticos. Hoje, a empresa se apresenta como uma espécie de escritório terceirizado para a construção e gestão de marcas.

O trabalho pode começar na formulação de um cosmético e avançar pela escolha da embalagem, criação de nome, logotipo e branding. A empresa também homologa fábricas, acompanha questões regulatórias e de qualidade, negocia com terceiristas e organiza compras de insumos.

Na outra ponta, pode representar comercialmente o cliente e ajudá-lo a vender os produtos.

“Os nossos clientes chegam aqui com uma imagem da China e um sonho, e a gente estrutura tudo para eles”, diz Amanda.

De onde vêm os produtos

A estratégia de crescimento foi ocupar novos espaços conforme os clientes encontravam dificuldades para desenvolver seus negócios.

Em 2019, Amanda se juntou a Simone Sancho na criação da Belong Be, voltada às marcas independentes de beleza. O negócio nasceu diante de uma dificuldade recorrente: muitas dessas empresas conseguiam criar audiência na internet, mas tinham pouco espaço no varejo físico.

A companhia passou a reuni-las em marketplace, e-commerce e loja física. Na unidade, há também um laboratório no qual consumidores podem produzir itens como gloss e batom na hora.

Depois vieram outras frentes. Amanda, Simone e Saulo Henrique Figueiredo criaram o BEIN, Instituto de Beleza Independente, para apoiar empreendedores em temas como estruturação dos negócios e acesso a capital.

Na sequência surgiu a Beauty University, uma iniciativa educacional voltada ao mesmo público. O projeto caminha para a terceira turma e aborda assuntos como economia, tributação e gestão. Segundo Amanda, a iniciativa recebeu apoio do Grupo Boticário.

A Assinatura também ganhou uma agência própria, a Rubrica, responsável por serviços de design e branding.

A lógica é fazer com que um mesmo cliente possa contratar diferentes partes do ecossistema ao longo da vida da marca.

“Todos os nossos negócios derivam da mesma demanda, que é criar marcas saudáveis no Brasil e fazer com que as pessoas tenham negócios mais estruturados para performar”, afirma.

Como a China entrou na estratégia

Uma das novas avenidas de expansão está a mais de 16 mil quilômetros de Belo Horizonte.

Em 2024, Amanda abriu com Gabriela Portes uma operação na China. A sócia já vivia havia 14 anos no país, segundo a empresária, e possuía uma companhia que ainda não atendia especificamente o segmento de beleza.

A nova frente passou a buscar embalagens, acessórios e produtos para empresas brasileiras.

A estratégia responde a uma característica da indústria. Importar da China normalmente exige pedidos maiores para que custos de produção e logística façam sentido. Isso elevou também o tíquete de alguns projetos atendidos pelo grupo.

Hoje, a empresa desenvolve no país itens como linhas de pincéis, frascos e potes autorais, além de trabalhar com categorias que vão além dos cosméticos tradicionais, como nutracêuticos e chás.

Ao mesmo tempo, Amanda diz que mantém fornecedores brasileiros capazes de produzir lotes menores. Há projetos que começam com apenas 200 ou 300 unidades.

A rede de parceiros também alcança Itália, Estados Unidos e outros países da América Latina.

Quais os próximos passos da empresa

É a combinação dessas diferentes fontes de receita que sustenta a expectativa de ultrapassar R$ 50 milhões em 2026.

Só a Assinatura possui 449 produtos em desenvolvimento com previsão de lançamento até novembro. A carteira alcança 1.200 quando entram na conta os projetos previstos até março do próximo ano.

Parte dos novos clientes chega por indicação das próprias fábricas terceirizadas. Em alguns casos, segundo Amanda, os fabricantes recebem empreendedores ainda sem estrutura para produzir e os encaminham para que a Assinatura organize o projeto antes de devolvê-lo à indústria.

A empresa também criou serviços para marcas que já estão no mercado, mas enfrentam dificuldades. Um deles analisa pontos como margem, fornecedor e estrutura tributária. Outro funciona como diagnóstico do negócio para identificar onde uma operação deixou de funcionar como deveria.

A aposta é que o relacionamento com o cliente não termine quando o primeiro cosmético sai da fábrica.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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