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NegóciosMPOL
31/10/2026
9 min

Esta família do Nordeste é dona de 12 mil imóveis, fatura R$ 1,5 bilhão e vai chegar em SP

Com 50 anos de história, o Grupo CNS cresceu no Norte e Nordeste com apartamentos populares, shopping e galpões logísticos

Esta família do Nordeste é dona de 12 mil imóveis, fatura R$ 1,5 bilhão e vai chegar em SP
RESUMO +

A construtora familiar Canopus completa 50 anos em 2026 com projeção de faturar R$ 1,5 bilhão e entregar 5.557 imóveis, alta de 25% na receita e de 77% nas entregas ante 2025. Com sede em São Luís, a empresa do Grupo CNS já entregou mais de 50 mil moradias e prepara a entrada em Pernambuco e no interior paulista.

Em 2021, Kleiber Fontes recebeu um convite para deixar Belo Horizonte e assumir um cargo numa construtora familiar de São Luís, no Maranhão.

Antes de aceitar, tentou entender o tamanho da empresa. Encontrou pouca informação. Foi só quando visitou a operação que descobriu o tamanho do negócio que estava prestes a encontrar.

A companhia era muito maior do que imaginava.

A empresa era a Canopus, construtora que completa 50 anos em 2026 e deu origem ao Grupo CNS. O negócio, que começou com pequenas obras em 1976, já entregou mais de 50 mil unidades habitacionais e tem outras 12.243 em construção.

Hoje, o grupo também controla um shopping, galpões logísticos e uma carteira de imóveis comerciais.

Para 2026, a projeção é faturar 1,5 bilhão de reais, alta de 25% sobre os 1,2 bilhão de reais registrados em 2025.

O aniversário chega num momento de aceleração.

A Canopus entregou 3.131 imóveis em 2025 e pretende entregar 5.557 neste ano, um salto de 77%.

Depois de ganhar espaço no Maranhão, Piauí, Ceará e Pará, a construtora prepara sua entrada em Pernambuco. O próximo destino pode ser ainda mais ambicioso: o interior de São Paulo, onde pretende disputar compradores com empresas que já conhecem o mercado.

"A gente não entra para fazer uma obra", diz Kleiber Fontes, diretor administrativo e financeiro do Grupo CNS.

A estratégia é chegar a novos mercados com planos de permanecer, ampliar os lançamentos e construir uma operação regional.

O cuidado tem uma explicação: a empresa cresceu em cidades onde conhece o comportamento dos compradores e sabe que essa vantagem não estará garantida quando chegar ao Sudeste.

O plano é começar a comprar terrenos no interior paulista a partir de 2027. A empresa já constituiu uma estrutura local e estuda cidades, concorrentes, legislação e demanda por imóveis.

Também observa o interior de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Por enquanto, porém, o avanço será gradual. O temor é entrar num mercado com muitos apartamentos à venda e precisar mudar uma fórmula que funcionou durante décadas.

Como uma construtora familiar virou um grupo bilionário

A história da Canopus começa em 1976, com uma pequena construtora comandada por Parmênio Mesquita de Carvalho. Nos primeiros anos, a empresa executava obras de menor porte. Pouco depois, estabeleceu-se em São Luís, que se tornaria sua principal base de operações.

Ao longo das décadas, a companhia passou a construir e incorporar empreendimentos residenciais, ou seja, desenvolver projetos imobiliários para vender as unidades. Também trabalhou com obras contratadas pelo governo federal e investiu em imóveis comerciais.

A mudança mais importante veio em 2018. Naquele ano, a Canopus decidiu abandonar os empreendimentos de médio e alto padrão e concentrar a operação residencial no Minha Casa, Minha Vida, programa federal de habitação. Também deixou de executar obras da faixa 1, modalidade em que atuava como contratada para construir moradias.

A aposta passou a ser a construção e venda direta de apartamentos para famílias de menor renda, principalmente nas faixas 2 e 3 do programa.

A escolha definiu os anos seguintes. Em vez de atender diferentes públicos, a empresa passou a repetir projetos, concentrar compras de materiais e construir condomínios maiores.

Mas a mudança de produto foi apenas uma parte da história.

Durante a pandemia, a família passou por uma transição de comando. O fundador, hoje com cerca de 80 anos, reduziu sua participação na operação e os filhos, que já trabalhavam na empresa, assumiram maior autonomia nas decisões.

A troca de comando também abriu caminho para a profissionalização. A partir de 2021, a família começou a trazer executivos de fora, entre eles o próprio Kleiber, que construiu boa parte da carreira em empresas de engenharia e construção.

O crescimento aparece nos números. Segundo o CFO, o grupo tinha cerca de 1.600 funcionários em 2021 e chegou a aproximadamente 4.000 em 2026. No mesmo intervalo, o faturamento saiu da casa dos 500 milhões de reais para a projeção de 1,5 bilhão de reais.

A segunda geração encontrou, portanto, uma empresa com cinco décadas de experiência regional e passou a buscar escala.

Como a Canopus constrói mais apartamentos em menos tempo

Para entregar mais de 5.500 imóveis em um ano, a Canopus precisou mudar também a maneira de construir.

Nos canteiros, a empresa passou a usar paredes de concreto moldadas com formas de alumínio, técnica que permite repetir a estrutura dos apartamentos e reduzir etapas da construção.

O processo substituiu parte do trabalho tradicional de alvenaria. Em vez de erguer paredes com blocos, as equipes montam formas, preenchem as estruturas com concreto e repetem o procedimento nos pavimentos seguintes.

Segundo Kleiber, em determinados empreendimentos, a mudança permitiu reduzir o prazo de construção de quase três anos para cerca de 20 meses.

A padronização também chegou às plantas. A companhia passou a trabalhar com três tipologias principais de apartamentos, fazendo adaptações quando encontra necessidades diferentes em cada região.

Portas, janelas e parte das instalações elétricas e hidráulicas chegam prontas ou pré-montadas aos canteiros. Isso reduz desperdícios, retrabalho e dependência de determinadas funções da construção civil.

A escala, no entanto, não depende apenas de construir mais rápido. É preciso vender os imóveis antes que as obras terminem. É aí que a Canopus acredita ter uma de suas principais vantagens nos mercados onde já atua.

"A gente não termina uma obra com estoque", diz Kleiber.

Segundo o executivo, a velocidade das vendas permite à companhia concluir os empreendimentos com praticamente todas as unidades comercializadas. A dinâmica ajuda a reduzir o dinheiro que fica parado em apartamentos prontos à espera de compradores.

Agora, o desafio é repetir essa operação fora de seus mercados tradicionais.

Por que a construtora quer chegar a São Paulo

O Sudeste representa uma oportunidade de expansão para a Canopus, mas também um teste para o modelo de negócios da família.

A companhia está acostumada a trabalhar em mercados nos quais já possui rede comercial, conhecimento dos terrenos e histórico de vendas. São vantagens que levam tempo para ser construídas.

No interior paulista, terá de começar praticamente do zero.

"A gente quer começar pelo interior", diz Kleiber. A ideia é evitar, num primeiro momento, a concorrência direta com as maiores incorporadoras nas capitais.

Mesmo assim, a empresa vê obstáculos. O CFO afirma que acompanha um aumento do estoque de imóveis em parte do mercado paulista, inclusive em cidades do interior. Isso significa que a Canopus pode levar mais tempo para vender os apartamentos e precisar financiar uma parcela maior da construção.

A situação é diferente daquela que encontra hoje nos seus principais mercados.

O desafio fica maior porque a companhia cresceu com uma política financeira conservadora. Segundo Kleiber, a construtora financia suas operações com recursos próprios, sem recorrer habitualmente a empréstimos para a produção.

Em São Paulo, essa estratégia pode precisar mudar. Se os apartamentos demorarem mais para ser vendidos, a empresa terá de sustentar os custos da obra por mais tempo.

A Canopus também pretende estudar o perfil dos compradores, a legislação de cada município e os tipos de apartamento com maior demanda antes de adquirir terrenos.

Por isso, embora a estrutura da operação paulista já esteja em preparação, a companhia ainda não anunciou lançamentos no estado.

Além dos apartamentos, um shopping e uma carteira de imóveis comerciais

Embora a construção residencial seja o principal motor de crescimento, a família também montou uma operação de imóveis destinados à geração de renda.

O Grupo CNS reúne a Canopus Construções, a Parmênio Empreendimentos Imobiliários, a CNS LOG e o Pátio Norte Shopping.

Em São Luís e na região metropolitana, o grupo administra uma carteira de mais de 180 imóveis comerciais, segundo Kleiber. Entre os inquilinos estão redes de farmácias, supermercados, academias e instituições financeiras.

O grupo também opera um complexo de galpões logísticos com 112 mil metros quadrados de área locável, utilizado por empresas de varejo e distribuição.

Outra frente é o Pátio Norte Shopping, inaugurado em 2015, com cerca de 26 mil metros quadrados de área bruta locável, a soma dos espaços disponíveis para lojas e serviços.

Segundo o CFO, o empreendimento recebe mais de 7 milhões de visitas por ano. Um dos caminhos adotados para atrair público foi reunir serviços públicos, clínicas e outros estabelecimentos que levam consumidores ao shopping além das compras tradicionais.

A família agora estuda ampliar o centro comercial em aproximadamente 9.000 a 10 mil metros quadrados, com planejamento voltado para 2027 e 2028.

No segmento de locação, o grupo prevê investimentos de 150 milhões a 200 milhões de reais em novos projetos, entre galpões, supermercados, farmácias e outros imóveis comerciais.

Esses ativos têm uma função importante na estratégia familiar: gerar receitas recorrentes com aluguéis, enquanto a construtora depende do ciclo de aquisição de terrenos, lançamento, vendas e entrega dos apartamentos.

O grupo também estuda a possibilidade de estruturar um fundo de investimento imobiliário, veículo que reúne recursos de investidores para aplicar em imóveis e outros ativos do setor. A iniciativa ainda está em avaliação.

O que vem pela frente para a Canopus

A prioridade de crescimento continua sendo a construção de moradias populares.

Em Pernambuco, a Canopus já trabalha no desenvolvimento de projetos, mas a expectativa é que o novo mercado comece a contribuir para a receita em 2027.

No Pará, onde iniciou operações no fim de 2025, a companhia pretende ampliar a presença e já adquiriu novas áreas. No Ceará, também avança para municípios do interior, como Juazeiro do Norte, além de estudar outras cidades.

A empresa acompanha ainda oportunidades no Rio Grande do Norte, embora não tenha anunciado um cronograma de entrada.

O crescimento exige planejamento antecipado. Segundo Kleiber, o ciclo entre comprar um terreno, obter licenças, lançar um empreendimento, construir e entregar as unidades pode chegar a cinco anos.

Por isso, a empresa mantém uma carteira de terrenos para sustentar novos lançamentos. No Ceará, por exemplo, afirma já ter áreas suficientes para aproximadamente três anos de projetos.

O objetivo é preservar o ritmo de expansão sem comprometer o caixa.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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