Esta IA reduz em 70% o tempo para criar documentos jurídicos — e virou aposta milionária
A doc9 adquiriu empresas de logística jurídica, reincorporou a fintech JusCash e prepara plataforma de inteligência artificial para automatizar processos de escritórios de advocacia

Os escritórios de advocacia enfrentam uma pressão crescente para reduzir custos e processar um volume maior de ações. Com ainteligência artificial, empresas de tecnologia jurídica tentam automatizar tarefas que consomem horas de trabalho, mas ainda precisam convencer os clientes de que os ganhos compensam o investimento.
A doc9, lawtech gaúcha especializada em serviços e tecnologia para o setor jurídico, tenta ampliar sua atuação nesse setor. A empresa adquiriu a Paim, de logística jurídica, incorporou a JusCash, especializada em antecipação de créditos e despesas judiciais, e realizou a fusão com a BL&A Logística Jurídica. Ao mesmo tempo, lança a Iuria.doc9, plataforma de inteligência artificial voltada à automação de rotinas de escritórios de advocacia.
A doc9 começou com serviços de apoio operacional a escritórios e avançou para softwares de gestão e segurança digital. Agora, quer combinar essas frentes para ampliar a receita por cliente e disputar uma fatia maior do orçamento de grandes bancas e departamentos jurídicos. A empresa projeta crescer 70% em 2026 e superar R$ 100 milhões de reais em faturamento em 2027. A meta considera a operação atual, sem incluir eventuais aquisições futuras.
Aquisições ampliam a operação da Doc9
A trajetória da doc9 começou com um problema operacional. Advogado de formação, Klaus Riffel trabalhava em uma grande instituição financeira e precisava coordenar serviços jurídicos em diferentes cidades. Na época, muitos processos ainda eram físicos, e os escritórios dependiam de profissionais locais para tirar cópias, acompanhar audiências e cumprir diligências.
A solução foi criar uma rede de prestadores que pudesse atender diferentes escritórios por meio de uma mesma plataforma. A empresa cresceu com recursos próprios e chegou a reunir cerca de 180 colaboradores em Porto Alegre.
A pandemia interrompeu esse modelo. Com o fechamento dos fóruns, parte relevante dos serviços deixou de ser executada, e o faturamento da operação foi praticamente zero. A crise levou a empresa a desenvolver novas soluções digitais, entre elas o Whom.doc9, plataforma de gestão de certificados digitais e controle de acessos a sistemas judiciais e administrativos.
O produto responde a um problema de segurança. Grandes escritórios e empresas precisam acessar diferentes sistemas, muitas vezes com certificados vinculados a sócios ou representantes legais. Compartilhar credenciais com vários funcionários pode ampliar o risco de uso indevido. O Whom permite gerenciar permissões e registrar os acessos realizados.
A plataforma ultrapassou 2,2 mil clientes e tem mais de 100 mil usuários. A Doc9 passou a usar essa base como ponto de partida para ampliar a oferta de produtos digitais.
A estratégia de crescimento também inclui aquisições e fusões no mercado de logística jurídica. A empresa incorporou a Paim, com sede em Aracaju (SE), e realizou a fusão com a BL&A Logística Jurídica. Os movimentos buscam ampliar a presença regional, aumentar a capacidade de atendimento e reduzir custos operacionais.
A integração da Paim adiciona 26 colaboradores e deve ampliar em 11 mil o número de audiências atendidas por mês, com incremento mensal superior a R$ 650 mil em faturamento.
“Um dos principais objetivos estratégicos é fortalecer a presença da doc9 nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste, ampliando nossa capilaridade e representatividade nesses mercados”, afirma Klaus.
A lógica é aproveitar a estrutura e a carteira de clientes das operações adquiridas para vender mais de uma solução. Um escritório que contrata serviços de logística pode passar a usar ferramentas de gestão de certificados digitais e automação. A empresa espera, assim, ampliar o faturamento por cliente e diluir custos operacionais.
Já a JusCash, fintech que nasceu dentro da própria doc9 durante a pandemia e depois foi incorporada novamente à operação, acrescenta serviços financeiros ao negócio. “A JusCash nasceu como um spin-off, com gestão e estrutura próprias, mas voltou a integrar a Doc9 como braço financeiro para oferecer uma solução mais completa, integrada à nossa esteira de tecnologia e proteção”, diz.
A empresa antecipa créditos judiciais e recursos para despesas de processos, ajudando escritórios de advocacia a lidar com a diferença entre o momento em que precisam pagar suas contas e a data em que recebem honorários.“Nosso objetivo é que a gente tenha uma esteira completa, desde o uso de pessoas físicas para saber o que elas estão fazendo, passando pelas automações de sistemas, até a inteligência artificial”, afirma Riffel.
A aposta na inteligência artificial jurídica
A próxima frente é a Iuria.doc9, plataforma de inteligência artificial voltada à automação de rotinas de escritórios de advocacia. A ferramenta reúne recursos como pesquisa de jurisprudência, elaboração de documentos, análise de processos e automação de tarefas.A proposta é diferente da de um assistente genérico de IA. A doc9 pretende adaptar a solução aos procedimentos de cada cliente, considerando modelos de documentos, fluxos de trabalho e formas de administrar processos. O foco inicial são grandes escritórios, que lidam com um volume elevado de casos e podem justificar o custo de implantação.
“Cada escritório tem seu próprio tom de voz nas petições e nos documentos, além de uma forma particular de gerir os processos”, afirma Riffel.
A empresa afirma ter iniciado o trabalho com dois grandes clientes e estar em negociação com outros três entre as maiores bancas do país. A expectativa é usar esse volume de processos para aperfeiçoar os modelos e ampliar a aplicação da ferramenta.
O potencial de mercado está na automação de tarefas repetitivas, como organizar documentos, classificar informações e preparar peças processuais. Segundo dados divulgados pela própria doc9, clientes que já usam a Iuria registraram redução de 70% no tempo de elaboração de peças, de 81% no processamento e identificação de fraudes e riscos e de 60% na higienização e classificação de bases de dados.
O desafio de integrar crescimento e rentabilidade
A doc9 afirma que perdeu menos de 3% dos clientes nas integrações recentes e que a satisfação dos clientes aumentou mais de 20%. A empresa atribui os resultados à integração das equipes e à manutenção de uma cultura comum.
A companhia tem ainda o desafio de transformar o uso de seus produtos digitais em novas fontes de receita. Embora o Whom.doc9 já tenha uma base relevante, a expansão depende de convencer clientes atuais a contratar outras soluções e de demonstrar que os ganhos com automação justificam o investimento.
A doc9 projeta faturar R$75 milhões em 2026 e superar R$ 100 milhões em 2027. O plano pode incluir novas aquisições, o que pode impulsionar os valores projetados.
“Queremos fortalecer nossos parceiros de longa data e dar a eles ferramentas para crescer. Estimamos que esses escritórios possam movimentar, juntos, mais de 2 milhões de processos pela nossa plataforma. Estamos bastante animados com as oportunidades que podem surgir em 2027”, afirma Riffel.
O desafio da doc9 é transformar a expansão por aquisições em vendas recorrentes de tecnologia e ampliar o uso de seus produtos digitais entre os clientes atuais. A aposta passa pela inteligência artificial, que pode abrir novas frentes de receita, mas exige que a empresa adapte suas ferramentas às necessidades de grandes escritórios e empresas.“E agora o desafio é a gente usar essa base enorme de usuários do Whom para gerar mais valor com inteligência artificial, novos produtos adjacentes complementares”, diz.
