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26/06/2026
8 min

Esta influencer vendia roupas para pagar a faculdade. Agora, vai faturar R$ 30 mi com IA para PMEs

Esta influencer vendia roupas para pagar a faculdade. Agora, vai faturar R$ 30 mi com IA para PMEs

Em 2015, a empresária e influenciadora Letícia Vaz tinha 17 anos quando pegou R$ 500 emprestados com o pai e foi ao Brás, em São Paulo, comprar roupas para revender. Na época, o objetivo era pagar a faculdade de jornalismo na capital e evitar o retorno para Bragança Paulista, no interior. Seus pais, segundo ela, não tinham condições de bancar os custos de seu estudo. A mãe era dona de uma loja de enxoval e o pai fazia transporte escolar. 

A atitude desesperada virou carreira. Ela passou a vender peças dentro da faculdade, depois em grupos de Facebook de universidades como Mackenzie e ESPM, até transformar a revenda em uma operação própria. Em 2016, um salto aconteceu quando identificou uma tendência de croppeds no exterior, não encontrou o produto no mercado brasileiro e decidiu produzir ela mesma, usando o maquinário da mãe, que trabalhava com costura.

A peça testada em uma festa universitária virou pedido recorrente. Em pouco tempo, a operação deixou de ser revenda e se transformou na LV Store, marca que combinava curadoria de moda, produção própria e uma comunicação digital que, na prática, antecipava o que depois se consolidaria como marketing de influência.

Hoje, a LV Store é a principal empresa da LV Holding e fatura mais de R$ 20 milhões por ano. A operação registra cerca de 2.500 pedidos mensais, com ticket médio de R$ 400 e taxa de recompra de 45%. A produção é feita em Bragança Paulista, em uma fábrica própria com cerca de 55 funcionários, com modelo sob demanda e ausência de estoque.

A partir desse núcleo, em 2020, Letícia expandiu a operação para educação e tecnologia. Primeiro com cursos e mentorias voltados a e-commerce e marketing digital, depois com a criação de uma estrutura formal de educação dentro da holding, que passou a atender pequenos e médios empreendedores. Hoje, ela soma mais de 620 mil seguidores no Instagram.

Agora, esse ecossistema chega a uma nova fase com o lançamento da Letícia Vaz Tech, empresa de martech focada em inteligência artificial, automação e integração de dados. A proposta é transformar a forma como empresas organizam informações, tomam decisões e convertem vendas no ambiente digital.

A projeção da holding é encerrar 2026 com faturamento de R$ 30 milhões, impulsionada pela expansão dos produtos digitais, pela escalada das mentorias e pela nova frente de tecnologia.

“Existe uma percepção de que criar sistemas, automatizar processos ou utilizar inteligência artificial exige investimentos milionários. A evolução da tecnologia mudou essa realidade. Hoje, é possível desenvolver soluções robustas, gerar ganhos de produtividade e tomar decisões mais inteligentes com investimentos muito mais acessíveis”, afirma Letícia.

Como o modelo de fábrica própria moldou a lógica da empresa

A LV Store opera com um modelo pouco comum no varejo de moda: produção própria e sob demanda. Todas as peças são fabricadas em uma estrutura da empresa, o que elimina intermediários e reduz a dependência de terceiros.

A decisão, segundo Letícia, nasceu mais de restrições do que de estratégia inicial de escala. Sem capital para terceirizar produção e com desconfiança em relação à cadeia de fornecedores, ela optou por internalizar toda a operação.

O modelo traz ganhos de controle e velocidade. A empresa consegue lançar peças em poucos dias e ajustar produção de acordo com demanda real. Em contrapartida, limita a escalabilidade imediata da operação.

“Eu não conseguia confiar em auditoria ou terceirização. O setor de moda é o segundo que mais explora pessoas no mundo”, afirma.

Além da produção, a estrutura permite personalização das peças. Clientes podem solicitar ajustes de barra e comprimento, algo incomum no varejo digital. Durante a pandemia, a operação digital da LV Store se tornou uma vantagem competitiva. Enquanto o varejo físico enfrentava restrições, a marca já operava com e-commerce estruturado e comunicação ativa nas redes sociais.

Nesse período, Letícia lançou um curso ensinando estratégias de vendas online. Em um mês, o produto ultrapassou R$ 1 milhão em faturamento, abrindo espaço para a criação da ModaLab, empresa de educação da holding.

O movimento consolidou uma nova frente de receita e marcou a transição da empreendedora para o mercado de educação e mentorias. A demanda cresceu principalmente entre pequenos negócios buscando digitalização rápida.

“Foi quando eu entendi que o ativo principal não era a roupa, era a minha imagem e o conhecimento que eu tinha construído”, afirma.

Como dados passaram a orientar as decisões da LV Store

A evolução da operação também levou à adoção de ferramentas de análise de comportamento de consumo. Um dos exemplos citados por Letícia é o sistema de “look do dia”, que cruza dados de compras, comportamento de navegação e variáveis externas como clima e dia da semana para sugerir combinações e produtos com maior probabilidade de conversão.

O sistema substitui decisões manuais de curadoria por recomendações baseadas em dados. Segundo a empreendedora, a mudança aumentou em cerca de 25% as taxas de conversão da estratégia.

O modelo reforça uma lógica que passou a ser central na holding: decisões comerciais guiadas por dados e não apenas por intuição.

A criação da LV Tech surgiu dentro da operação de mentorias e educação da própria holding. Ao atender pequenas e médias empresas, Letícia identificou um padrão recorrente: baixa adoção de sistemas integrados e uso limitado de automação.

Empresas em fase de crescimento, segundo ela, operavam com ferramentas desconectadas e processos manuais em áreas como vendas, financeiro e operação.

“Percebemos que muitas empresas utilizam diversas ferramentas para administrar áreas diferentes do negócio, mas poucas conseguem integrar tudo de forma simples e eficiente”, afirma.

A partir disso, a equipe passou a desenvolver soluções internas que evoluíram para uma empresa independente de tecnologia.

O que é o LinkCommerce e como ele muda o "link na bio"

O primeiro produto da LV Tech é o LinkCommerce, plataforma que transforma o tradicional link na bio em um ambiente inteligente de recomendação.

Em vez de uma página com botões estáticos, o sistema utiliza inteligência artificial para interpretar o comportamento do usuário e direcionar o acesso para produtos, serviços ou conteúdos mais relevantes.

O produto também integra agenda e pagamentos, permitindo que o usuário conclua a jornada sem sair da plataforma.

“Hoje os links na bio não têm nenhuma tecnologia. É só uma lista de opções. A ideia é transformar isso em uma experiência consultiva”, afirma.

O sistema atende influenciadores, marcas e prestadores de serviço, com modelos de assinatura mensal a partir de R$ 60.

Além do LinkCommerce, a LV Tech desenvolve duas frentes principais: soluções personalizadas e ferramentas para o mercado de educação. No modelo sob medida, a empresa cria sistemas de automação e gestão a partir de diagnóstico de operação. Já na frente de produto, foca em soluções escaláveis para dores comuns do mercado.

Entre elas estão dashboards de acompanhamento de desempenho para mentorias, sistemas de gestão de alunos e ferramentas de análise de resultados.

Os produtos combinam modelos de entrada de baixo custo com soluções de maior ticket, que podem chegar a R$ 12 mil de setup e mensalidades acima de R$ 1.500.

Qual é a estratégia da holding daqui para frente

O movimento da LV Tech ocorre em um mercado que vem ganhando tração com o avanço de plataformas de automação e inteligência artificial voltadas para negócios digitais. No segmento de “link na bio inteligente”, empresas como Linktree, Beacons e Stan Store já oferecem soluções que vão além da simples agregação de links, incorporando pagamentos, páginas personalizadas e ferramentas de conversão para criadores de conteúdo e pequenos empreendedores.

No Brasil, plataformas como Nuvemshop também vêm ampliando a oferta de recursos de automação e integração para e-commerces de menor porte.

Nesse contexto, a proposta da LV Tech se insere na tendência de verticalização dessas soluções, ao combinar recomendação baseada em dados, integração de agenda e ferramentas de IA em um único ambiente.

O modelo segue uma lógica semelhante à de outras empresas de software voltadas a pequenas e médias empresas, que buscam reduzir a fragmentação de sistemas e centralizar a operação digital em uma única plataforma, em um mercado ainda em consolidação no país.

A estratégia da LV Holding combina três frentes: moda, educação e tecnologia. A operação de moda sustenta receita recorrente e controle de marca. A educação amplia margem e alcance. A tecnologia adiciona escala e recorrência via software.

A expectativa é que a integração desses negócios permita crescimento simultâneo de base de clientes e ticket médio, com produtos voltados para diferentes estágios de maturidade de empreendedores digitais.

Com isso, a holding avança na construção de um ecossistema em que conteúdo, dados e tecnologia passam a operar de forma integrada dentro da mesma estrutura.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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