Este casal paulistano transformou 9 chalés em um negócio de R$ 16 milhões nos Lençóis Maranhenses
Sem experiência anterior com hotelaria, eles criaram grupo que reúne três pousadas, cinco operações gastronômicas e cerca de 160 funcionários em Atins, no Maranhão

RESUMO +
O Grupo Charme Atins, empresa de turismo fundada por Anna Teresa Ramus e Alexandre do Prado, projeta faturar R$ 16 milhões em 2026, alta de cerca de 33% sobre a estimativa de 2025. Com três meios de hospedagem, cinco operações gastronômicas e 44 acomodações nos Lençóis Maranhenses, o grupo pretende reduzir a sazonalidade e triplicar a receita em três anos.
Uma viagem de férias aos Lençóis Maranhenses, em 2017, mudou os planos dos empresários paulistanos Anna Teresa Ramus e Alexandre do Prado. Acostumados a construir imóveis de alto padrão no litoral de São Paulo, os dois conheceram Atins, um povoado de pescadores no Maranhão, e decidiram investir em uma casa de praia.
A intenção inicial era ter um espaço para receber amigos e familiares. O projeto, no entanto, cresceu antes mesmo de ficar pronto e acabou dando origem a uma pousada de nove chalés.
Quase uma década depois daquela primeira visita, o casal está à frente de um grupo de turismo que reúne três meios de hospedagem, cinco operações gastronômicas e espaços para eventos e experiências nos Lençóis Maranhenses. O Grupo Charme Atins projeta faturar R$ 16 milhões em 2026, mantendo uma estrutura com cerca de 160 funcionários e um portfólio de 44 acomodações.
A expansão aconteceu em etapas, acompanhando a demanda dos visitantes e a identificação de oportunidades no próprio destino. O negócio, iniciado às vésperas da pandemia, ganhou força com os turistas brasileiros que passaram a viajar pelo país quando as restrições sanitárias limitaram as viagens internacionais. Desde então, os empresários ampliaram a oferta de hospedagem, abriram restaurantes e passaram a explorar segmentos como eventos e turismo de bem-estar.
A estratégia agora é aumentar o tempo de permanência dos hóspedes e reduzir a dependência dos meses de alta temporada. A ambição de Anna Teresa é triplicar o faturamento do grupo nos próximos três anos, principalmente com uma ocupação mais equilibrada ao longo do calendário.
"Meu calcanhar de Aquiles é a sazonalidade", afirma a empresária. "Eu vendo 100% julho e agosto, aí derivou um pouco para junho e um pouco para setembro e os outros meses caem vertiginosamente."
Hospitalidade nos Lençóis: primeira pousada do grupo começou com nove chalés e hoje reúne 20 acomodações em Atins. (Grupo Charme Atins/Divulgação)
Como uma viagem de férias deu origem ao negócio
Antes de empreender no turismo, Anna Teresa construiu uma carreira de duas décadas no mercado editorial e no varejo. Trabalhou em empresas como Saraiva, Carrefour e Playcenter, experiências que ajudaram a formar seu conhecimento sobre atendimento, gestão, abastecimento e operações comerciais.
Posteriormente, ela e Alexandre decidiram sair da capital paulista e se estabelecer em Bertioga, no litoral norte de São Paulo. Ali, abriram uma construtora especializada em residências de alto padrão na Riviera de São Lourenço.
A mudança de rumo começou em 2017, quando o casal viajou com amigos para conhecer os Lençóis Maranhenses. O passeio passou por Atins, um destino de ruas de areia, paisagens naturais e turismo ainda em desenvolvimento.
Alexandre se interessou pela região e sugeriu a construção de uma casa de praia. Anna, por outro lado, não estava convencida de que fazia sentido começar um novo empreendimento tão longe de São Paulo.
A decisão acabou sendo tomada no ano seguinte, com a compra de uma área em Atins, em 2018. Em 2019, o projeto inicial havia se transformado em nove chalés, que deram origem à Atins Charme Chalés, primeira operação do grupo.
A abertura coincidiu com um dos períodos mais desafiadores da história recente do turismo. Em 2020, a pandemiainterrompeu viagens e obrigou os empresários a retornar temporariamente para Bertioga.
A recuperação, porém, veio com uma demanda inesperada. Com as viagens internacionais limitadas, moradores do próprio Maranhão passaram a descobrir destinos turísticos dentro do estado.
Segundo Anna, a pousada chegou a registrar ocupação entre 90% e 100% durante boa parte do período entre 2020 e 2021. A demanda foi suficiente para convencer o casal a investir na ampliação da estrutura.
Sem formação no setor hoteleiro, os empresários dividiram as responsabilidades conforme suas experiências. Anna assumiu principalmente atividades administrativas, como abastecimento, logística, treinamento e gestão. Alexandre ficou mais próximo das obras, da manutenção e do relacionamento com os hóspedes.
"Me ajudou muito o varejo, a escola do Carrefour, para eu conseguir fazer a infraestrutura da pousada", afirma Anna.
O crescimento também levou os dois a reduzir gradualmente a dedicação à construtora no litoral paulista. Desde 2025, passaram a permanecer a maior parte do tempo em São Luís, capital do Maranhão, de onde acompanham as operações em Atins.
O que existe hoje no complexo turístico
A primeira pousada foi apenas o começo. Atualmente, o Grupo Charme Atins reúne três empreendimentos de hospedagem com propostas diferentes, além de cinco espaços de gastronomiae entretenimento.
A Atins Charme Chalés, que deu origem ao negócio, passou das nove unidades iniciais para 20 acomodações, entre os chalés originais e 11 novas suítes. A pousada mantém um perfil voltado à hospitalidade e ao atendimento de famílias.
A segunda proposta é a Alma Charme Atins, empreendimento de perfil mais reservado, com oito bangalôs e piscinas privativas. A unidade foi concebida depois que os empresários perceberam uma demanda por hospedagens com maior privacidade e serviços de padrão mais elevado.
Já a Rancharia Charme Beach, incorporada à operação em 2023, reúne 16 quartos e uma ampla área à beira-rio. O espaço também funciona como uma estrutura para casamentos, aniversários, eventos corporativos e outras celebrações, com capacidade para receber até 1.500 convidados.
A diversificação não ficou restrita à hotelaria. O grupo abriu cinco operações gastronômicas e de entretenimento: Atins Charme Beach Bar, Ça Vá Charme Atins, Sushi Bar Charme Atins, Mirante Charme Atins e Nonna Marta Charme Atins.
Gastronomia em expansão: restaurantes e bares representam aproximadamente 40% do faturamento do grupo turístico. (Grupo Charme Atins/Divulgação)
O Ça Vá, por exemplo, está localizado na região central de Atins: combina referências da culinária mediterrânea com ingredientes e preparações maranhenses. Apesar do nome, não é a mesma marca comandada pelo chef francês Erick Jacquin.
Ao longo da expansão, o grupo também passou a oferecer experiências ligadas a eventos privados, celebrações, festas de Réveillon e atividades de bem-estar, como o Soma Wellness.
O objetivo é atender diferentes perfis de visitantes sem depender exclusivamente das diárias dos hotéis.
Como o grupo ganha dinheiro
A hotelaria continua sendo o principal negócio do Charme Atins, mas a gastronomia representa uma parcela relevante das receitas.
Segundo a empresa, 60% do faturamento vem da hospedagem, enquanto os outros 40% estão associados às operações gastronômicas.
A distribuição mostra como a expansão para atividades complementares ajudou a aumentar as fontes de receita. Um visitante pode se hospedar em uma das propriedades e consumir nos restaurantes ou participar de experiências oferecidas pelo grupo durante a mesma viagem.
O modelo também permite aproveitar oportunidades comerciais entre diferentes perfis de turistas. Enquanto a Atins Charme Chalés atende um público mais familiar, a Alma busca hóspedes interessados em exclusividade. A Rancharia, por sua vez, amplia a atuação no mercado de eventos e viagens em grupo.
O crescimento das receitas reflete tanto a operação das estruturas existentes quanto a entrada de novos empreendimentos no portfólio.
Em 2025, o grupo faturou cerca de R$ 12 milhões, o que representa um avanço de 33% para 2026.
"Não foi só o próprio faturamento em cima do ativo que eu já tinha. Acabou que a gente abriu o ativo", explica a empresária.
A Alma Charme Atins é apontada por ela como uma das operações que contribuem para elevar as receitas, em razão do valor mais alto das diárias.
Apesar do avanço, a próxima fase deverá depender menos da abertura de acomodações e mais da capacidade comercial de atrair turistas em períodos tradicionalmente menos movimentados.
Por que a sazonalidade é o principal desafio
Os Lençóis Maranhenses têm uma dinâmica turística concentrada em determinados meses, especialmente quando as lagoas estão mais cheias e atraem visitantes interessados nas paisagens do parque nacional.
Para o Charme Atins, julho e agosto representam os períodos de maior demanda. Junho e setembro também registram movimento relevante, mas a ocupação cai acentuadamente nos demais meses, segundo Anna.
Essa concentração impõe um limite ao crescimento das receitas, mesmo com a estrutura já instalada e a equipe preparada para atender os visitantes.
A empresária afirma que, atualmente, a companhia consegue explorar de maneira mais intensa cerca de três meses equivalentes de alta temporada. A estratégia é ampliar essa janela por meio de novos perfis de clientes e motivos para viajar.
Entre as iniciativas estão a atração de eventos corporativos, casamentos, retiros de bem-estar e competições esportivas.
A Rancharia, por exemplo, começou a ser trabalhada como um destino para torneios de beach tennis, com possibilidade de reunir os jogos e passeios turísticos em uma mesma viagem.
Atins também tem potencial para atrair praticantes de kitesurf, modalidade favorecida pelas condições de vento da região.
A intenção é transformar o destino em um lugar para estadias mais longas, e não apenas em uma parada de uma ou duas noites durante um roteiro pelos Lençóis Maranhenses.
Para Anna, parte desse trabalho depende de mudar a percepção dos visitantes sobre o que há para fazer na região além dos passeios tradicionais pelas lagoas.
"Eu costumo dizer que a melhor época de você ir para os Lençóis Maranhenses é a época que você tem tempo. Porque o importante é ter tempo para desacelerar", afirma.
Luxo e privacidade: Alma Charme Atins reúne oito bangalôs com piscinas privativas e atende hóspedes em busca de exclusividade. (Grupo Charme Atins/Divulgação)
Quais são os próximos planos do casal
Com a estrutura de hospedagem e gastronomia consolidada em Atins, Anna e Alexandre passaram a estudar novas oportunidades também em outras partes do Maranhão.
Entre os projetos citados pela empresária estão um empreendimento em um casarão no Centro Histórico de São Luís, uma estrutura flutuante em Barreirinhas e uma nova operação gastronômica em um hotel.
As iniciativas fazem parte de um movimento de ampliação das atividades do grupo para além do núcleo original de Atins, embora a região dos Lençóis Maranhenses continue sendo o principal eixo dos negócios.
O maior objetivo, no entanto, está ligado ao desempenho das operações existentes.
Anna pretende fortalecer a área comercial, ampliar a realização de eventos e atrair públicos que possam viajar fora dos meses tradicionais de férias. Caso consiga executar a estratégia, a empresária acredita que será possível triplicar o faturamento no prazo de três anos.
A trajetória representa uma mudança significativa para o casal, que iniciou a operação em uma fase mais madura da vida profissional e precisou aprender um mercado diferente daquele em que havia construído sua carreira.
"Eu costumo dizer que nasci de novo aos 50 anos", afirma Anna. "Porque, com 50 anos, se você for pensar em tudo que pode dar errado, você não faz nada."
