Este ex-jogador do Flamengo vai faturar R$ 78 milhões com 400 escolas de futebol pelo Brasil
Depois de 23 anos trabalhando de forma exclusiva com o Flamengo, a Time Forte passou a poder operar outras bandeiras e times para crescer

José Martins passou parte da adolescência tentando fazer carreira dentro de campo. Jogou no Flamengo, passou pelo Fluminense, quebrou a perna e chegou a atuar nos Estados Unidos. O futebol profissional acabou cedo. O negócio que ele construiria em volta dele, não.
Em 1994, Martins começou a dar aulas de futebol na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. A escola tinha patrocínio do McDonald’s e alunos treinando na areia.
Mais de 30 anos depois, aquela operação virou a Time Forte, empresa que administra escolas esportivas ligadas a clubes como Flamengo, Internacional e Sport e participa de projetos com Chelsea e Real Madrid.
A virada mais recente aconteceu em 2023.
Depois de 23 anos trabalhando de forma exclusiva com o Flamengo, a Time Forte passou a poder operar outras bandeiras. O movimento abriu uma nova etapa de expansão: a empresa encerrou 2025 com 285 unidades e faturamento de 51 milhões de reais e projeta chegar a cerca de 400 operações e 78 milhões de reais em receita em 2026.
“Eu acho que um dos nossos desafios é treinar cada vez melhor as pessoas que operam na ponta para a gente. Nosso investimento não é tão alto, portanto você vai encontrar uma variedade maior de investidores. Você precisa dedicar mais tempo para treinar e tornar esses investidores grandes gestores”, diz Martins.
Agora, a Time Forte tenta provar que o modelo desenvolvido durante mais de duas décadas com o Flamengo consegue funcionar com torcidas, regiões e clubes diferentes. A expansão passa por cidades menores, pelo Centro-Oeste e até por shopping centers, onde a empresa começa a testar unidades esportivas em espaços de maior circulação.
Qual é a história da Time Forte
Martins cresceu no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Filho de um advogado e de uma professora universitária, passava parte do tempo jogando futebol em praças da região até que um colega de escola o levou para fazer um teste no futsal do Flamengo. Ele passou. Depois, durante uma partida, chamou a atenção de um treinador do futebol de campo e foi convidado para mudar de modalidade.
A trajetória sofreu uma interrupção quando Martins quebrou a perna ainda na adolescência. Depois do período afastado, foi morar nos Estados Unidos. Na volta ao Brasil, fez um novo teste e entrou para o juvenil do Flamengo.
“Eu quebrei a perna, fui morar nos Estados Unidos com 15 anos. Voltei, fiz teste para o juvenil do Flamengo, passei e acabei virando jogador de futebol assim, de uma forma inusitada”, diz.
A carreira durou menos do que ele imaginava. Martins passou pelo Flamengo e pelo Fluminense e jogou também nos Estados Unidos. Depois deixou os gramados e foi trabalhar no mercado de publicidade.
Essa experiência seria usada no negócio que viria depois.
Em 1994, Martins abriu uma escola de futebol na praia de Ipanema. O projeto tinha patrocínio do McDonald’s, em um ano de Copa do Mundo, e combinava treinamento esportivo com ferramentas de comunicação e marca. A unidade existe até hoje.
“Eu inicio essa escola na praia com muito sucesso, com patrocínio do McDonald’s. A gente está falando de 1994. Ipanema era o coração dos lançamentos do Rio de Janeiro. E aí a gente lota a escola”, diz Martins.
O projeto também misturava alunos de diferentes faixas de renda. Parte das mensalidades pagas pelas famílias de maior poder aquisitivo ajudava a abrir espaço para crianças com menos recursos.
Para Martins, essa convivência acabou se tornando parte do produto oferecido pelas escolas.
“Você tinha a garotada rica, com dinheiro, que de certa forma subsidiava a garotada com um poder aquisitivo menor. A escola de futebol é muito boa para quebrar preconceito, quebrar barreiras de convivência e democratizar mais a prática esportiva”, diz.
Como foi a virada para franquias
Nos primeiros anos, Martins abriu outras escolas próprias no Rio de Janeiro. Foi aí que percebeu um problema: quando não estava presente em determinada unidade, a operação perdia parte do acompanhamento do dono.
A solução encontrada foi buscar um modelo no qual o operador local também tivesse capital e interesse direto no desempenho da escola.
Em 1999, Martins procurou o Flamengo e apresentou um projeto para franquear escolas de futebol com a marca do clube. A operação começou efetivamente em 2000.
Pelo modelo, a Time Forte se tornou master franqueada, empresa responsável por desenvolver e administrar uma rede de franquias em nome da marca. O franqueado paga taxa de franquia e royalties, recebe treinamento e segue os padrões definidos pela operação. Parte da receita é repassada ao clube pelo uso da marca.
“A escola de futebol era uma coisa do tio Felipe, do tio Zé que dava aula ali. A gente trouxe um olhar mais profissional, mais adequado com uma indústria que a gente percebia que crescia”, diz Martins.
A parceria com o Flamengo durou 23 anos nesse formato.
Além das mensalidades, as escolas passaram a gerar receitas com inscrições, uniformes e torneios. Para os clubes, existe ainda uma segunda possibilidade: encontrar jogadores para suas categorias de base.
O caso mais conhecido ocorreu em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Vinícius Júnior começou a jogar em uma escola do Flamengo operada pela rede antes de entrar nas categorias de base do clube.
“O que você oferece para a marca? Você oferece abrangência da marca no país inteiro e recursos financeiros advindos dessa abrangência. E, paralelo a isso, você acaba também descobrindo jogadores de futebol para o clube, que são importantes para futuras comercializações”, diz Martins.
O fim da exclusividade mudou o negócio
A principal mudança na história recente da Time Forte aconteceu em 2023.
Naquele ano, a empresa assinou um novo contrato com o Flamengo e deixou de atuar de forma exclusiva para o clube. A mudança permitiu que Martins buscasse outras bandeiras.
Foi o teste mais importante do modelo. Até então, parte do tamanho da operação poderia ser atribuída à força nacional da torcida do Flamengo. A dúvida era se a mesma estrutura funcionaria com clubes de alcance mais regional.
O Internacional foi um dos primeiros testes. Depois de uma apresentação da Time Forte em um evento do setor, representantes do clube procuraram a empresa. Seguiram-se de seis meses a um ano de negociações e viagens a Porto Alegre.
Segundo Martins, nos primeiros seis a sete meses de operação, mais de 30 franquias da marca Internacional haviam sido comercializadas.
“O Internacional vem mostrar para a gente que esse modelo é possível de ser replicado com outras marcas. É um modelo em que eu tenho um percentual do negócio, o Internacional tem um percentual e o clube recebe de todas as linhas de receita”, diz.
Essas receitas incluem taxa de franquia, mensalidades, inscrições, torneios e venda de uniformes.
A Time Forte mantém ainda operações com o Sport e escolas esportivas ligadas ao Flamengo. Segundo material fornecido pela companhia, também participa de projetos no Brasil relacionados ao Chelsea e ao Real Madrid.
Por que os shoppings entraram no plano
Uma das apostas de Martins para aumentar a receita das unidades está fora dos campos tradicionais.
A empresa começou a testar escolas e centros esportivos dentro de shopping centers. Em uma operação no Rio de Janeiro, instalou campo e quadra de areia em um empreendimento comercial. A tese acompanha uma mudança dos próprios shoppings, que tentam reduzir a dependência de lojas e levar mais serviços, alimentação e entretenimento para seus espaços.
Para a Time Forte, há outra vantagem: famílias permanecem mais tempo no local enquanto as crianças praticam esporte.
“A gente vem trazendo para os shopping centers uma unidade de negócio diferente. É uma coisa em que estamos investindo muito. Você tem a oportunidade de elevar o ticket médio porque é um lugar seguro e torna a vida dos pais mais confortável. Eles deixam o filho e vão dar uma passeada no shopping”, diz Martins.
A localização também pode mudar a economia de uma unidade. Espaços com mais circulação permitem oferecer outros serviços e cobrar mais do que em instalações tradicionais.
Ao mesmo tempo, a expansão geográfica varia de acordo com cada clube. Para o Flamengo, que já possui presença nas grandes capitais, Martins vê mais espaço em cidades menores.
No caso do Internacional, a estratégia começa pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e avança para regiões que receberam migração de gaúchos. Já o Sport tem uma concentração maior em Pernambuco e no Nordeste.
“Nosso momento de expansão é pensar em pontos que valorizem um pouco mais as escolas de futebol, levando o ticket médio para cima, e em pequenas cidades para marcas como o Flamengo. Com as outras marcas, precisamos entender onde está o torcedor que quer consumir aquela bandeira”, diz Martins.
Quais são os desafios
O crescimento traz um problema que acompanha Martins desde as primeiras escolas próprias: como garantir que centenas de unidades entreguem o mesmo serviço quando são operadas por pessoas diferentes.
A barreira de entrada relativamente baixa das escolas esportivas amplia essa dificuldade. O perfil dos investidores varia, e muitos chegam ao negócio com experiência no esporte, mas sem formação em gestão. Por isso, Martins coloca o treinamento dos franqueados entre os principais entraves para a expansão.
O segundo está na contratação e formação de professores e funcionários. “O grande desafio é mão de obra de uma forma geral, para que você sempre mantenha o padrão. É trazer uma ideia de profissionalismo para essa indústria”, diz.
Há ainda um problema do lado do consumidor. Escolas de futebol têm alta rotatividade de alunos. Quando a agenda das crianças aperta, a atividade esportiva costuma ser uma das primeiras despesas cortadas pelas famílias.
“Escola de futebol tem um turnover muito alto, a rotatividade de clientes. O garoto tem que fazer prova, sai da escola. A primeira coisa que os pais tiram é a escola de futebol. Então a gente tem o desafio da fidelização e de mostrar para o pai a importância desse trabalho na formação da criança”, diz Martins.
Esse ponto será ainda mais relevante se a Time Forte alcançar a escala que planeja. Depois de construir a empresa durante mais de duas décadas sob uma única bandeira, o próximo teste será provar que a estrutura funciona com diferentes clubes, torcidas e regiões — e que uma atividade que nasceu na praia de Ipanema consegue manter o mesmo padrão em centenas de campos espalhados pelo país.
