Este físico do Pará vai faturar R$ 18 milhões com uma IA que ajuda gigantes do varejo
Após fracassar com um primeiro negócio, Rodrigo Murta criou com o irmão uma empresa de tecnologia que atende Casas Bahia e Magalu e mira crescer 67% em 2026

RESUMO +
A empresa de tecnologia Looqbox, fundada pelos irmãos Rodrigo e Daniel Murta, projeta faturar R$ 18 milhões em 2026, alta de 67% sobre os R$ 10,8 milhões de 2025. A plataforma usa inteligência artificial para recomendar ações a vendedores e gestores do varejo. Em teste de 28 dias, a varejista Casas Bahia obteve incremento estimado de R$ 6,4 milhões em vendas.
O físico paraense Rodrigo Murta tinha planos de seguir carreira acadêmica como neurocientista. Queria estudar a consciência humana, mas uma greve na universidade, no início dos anos 2000, mudou seus planos. Mais de duas décadas depois, ele está à frente de uma empresa de tecnologiaque usa inteligência artificial para ajudar vendedores de grandes redes varejistas a aumentar suas vendas.
A empresa é a Looqbox, fundada em 2013 ao lado do irmão Daniel Murta. Com clientes como Casas Bahia, Magazine Luiza e Grupo Fleury, a companhia faturou R$ 10,8 milhões em 2025 e projeta alcançar R$ 18 milhões em 2026, crescimento de 67%.
A tecnologia transforma dados comerciais em recomendações para vendedores e gestores. Em um experimento recente com as Casas Bahia, a solução gerou um incremento estimado de R$ 6,4 milhões em vendas em apenas 28 dias.
"O que a gente tem que a IA não consegue copiar são os experimentos que a gente faz com os nossos vendedores", afirma Murta, CEO e cofundador da Looqbox.
A estratégia atual é ampliar esses resultados, conquistar novos clientes e reduzir a dependência do próprio fundador na expansão do negócio.
Como um físico foi parar no varejo
A trajetória de Murta começou longe das lojas e dos algoritmos de vendas. Formado em Física pela Universidade Federal do Pará, ele também concluiu um mestrado na área, mas teve seu primeiro contato com o mundo empresarial ao trabalhar na transportadora de um tio, em 2002.
Foi ali que começou a explorar bancos de dados e percebeu como o raciocínio científico poderia ser aplicado à gestão de empresas. A experiência também trouxe uma lição: o negócio familiar acabou quebrando.
Em 2009, Murta tentou empreender por conta própria e abriu uma pizzaria delivery em Guarulhos, na Grande São Paulo. A ideia era criar uma rede padronizada de entregas, mas o negócio também não prosperou.
"Deu super errado, quebrou a minha pizzaria", relembra. Depois de trabalhar em uma empresa de educação, Murta ingressou, em 2011, na rede de supermercados St. Marche. Sua missão não estava definida, mas ele encontrou um problema: a empresa precisava organizar melhor os dados utilizados nas decisões de compra e reposição de mercadorias.
Desenvolveu um algoritmo de reabastecimento e, posteriormente, uma ferramenta que permitia aos funcionários consultar informações comerciais por meio de perguntas escritas em linguagem natural, sem precisar dominar sistemas complexos de análise de dados.
A primeira versão da Looqbox entrou em operação no St. Marche em dezembro de 2013. No ano seguinte, a ferramenta recebeu 1 milhão de consultas.
O resultado convenceu Murta a transformar o projeto em uma empresa independente. Com a entrada do irmão Daniel, responsável pela área tecnológica, os dois começaram a desenvolver o negócio.
O início foi difícil. Os irmãos receberam R$ 200 mil da família, mas passaram meses sem conseguir vender uma licença. Murta precisou vender o próprio carro para manter a operação.
A virada veio com as Casas Bahia, que se tornaram o primeiro grande cliente pagante. A tecnologia passou a atender cerca de mil lojas da rede, abrindo caminho para contratos com outros grandes grupos.
Como a IA ajuda os varejistas a vender mais
A proposta inicial da Looqbox era simplificar o acesso a dados corporativos. Em vez de navegar por relatórios e planilhas, gestores e vendedores poderiam fazer perguntas diretamente ao sistema.
A chegada da inteligência artificial generativa, porém, ameaçou esse diferencial. Após receber um aporte de R$ 15 milhões em 2022, liderado pela gestora DGF, a empresa viu o lançamento do ChatGPT transformar o mercado.
A Looqbox tentou evoluir sua tecnologia, mas enfrentou dificuldades. Em maio de 2024, precisou realizar demissões e rever sua estratégia.
"Se é uma solução que você pergunta e responde dados mais básicos da empresa, a gente vai ser engolido fácil", afirma Murta.
A saída foi deixar de apenas responder perguntas e começar a recomendar ações comerciais.
Na prática, o sistema analisa o desempenho de cada vendedor, identifica oportunidades e envia orientações personalizadas. Pode, por exemplo, alertar um funcionário de que ele está abaixo da meta ou sugerir que ofereça um produto com bom desempenho na loja.
Um teste realizado com o Magazine Luiza apontou aumento de 3,9% no resultado comercial acompanhado pela empresa, segundo Murta.
O exemplo mais recente ocorreu nas Casas Bahia. Entre 3 e 30 de setembro de 2026, a Looqbox realizou um experimento com mais de 8 mil vendedores em 738 lojas, dividindo 43 regionais entre grupos que receberam recomendações e grupos de controle.
Os profissionais que receberam orientações registraram, em média, vendas 2,3% maiores por cliente atendido, equivalentes a aproximadamente R$ 28 adicionais por atendimento. O ganho incremental estimado foi de R$ 6,4 milhões em vendas de produtos.
Para Murta, o diferencial não está apenas nos algoritmos, mas na capacidade de testar continuamente quais recomendações produzem resultados concretos. É esse conhecimento acumulado que a empresa pretende transformar em vantagem competitiva.
Qual é o plano para crescer 67% em 2026
Depois de faturar R$ 10,8 milhões em 2025, a Looqbox estabeleceu uma meta de R$ 18 milhões para este ano. A empresa ainda não divulgou um resultado consolidado que confirme o cumprimento da projeção.
A companhia havia alcançado 40 mil usuários e monitorava mais de R$ 68 bilhões em vendas anuais de seus clientes, segundo dados divulgados anteriormente.
Para sustentar a expansão, Murta está reorganizando a estrutura comercial. Até recentemente, a conquista de grandes contratos dependia diretamente de sua participação nas negociações.
Agora, a empresa contratou uma nova liderança de vendas e está reforçando o marketing. Também negocia parcerias com grandes fornecedores de software, que poderiam ajudar a distribuir a tecnologia e simplificar sua implantação nos clientes.
O objetivo é aumentar a escala sem elevar os custos na mesma proporção. A Looqbox já chegou a ter 80 funcionários e hoje opera com 40 profissionais. Segundo Murta, a companhia conseguiu dobrar o faturamento com metade da equipe, resultado que ele atribui aos ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia.
O executivo também reconhece que vender soluções para grandes empresas exige mais do que um produto eficiente. É necessário construir confiança com os clientes, um processo que ainda depende bastante de seus relacionamentos no setor.
"A empresa tem que crescer sem que o Murta tenha que estar ali em todos os lugares", afirma.
O próximo passo é ampliar os experimentos que comprovam o retorno financeiro da tecnologia para os varejistas. Para o fundador, o futuro do negócio não depende necessariamente de desenvolver a inteligência artificial mais sofisticada, mas de encontrar maneiras consistentes de melhorar as vendas dos clientes.
"A gente não é preso à IA aqui, a gente é preso ao que faz o nosso cliente ter um resultado melhor", diz.
