Estilo McDonald's: EUA se inspiram em fast food para fabricar mísseis

Empresas americanas de defesa, que estão por trás da produção de armamentos nos EUA, alugam armazéns para a fabricação em massa de mísseis, em operações semelhantes às de restaurantes de fast food, como o McDonald's, aponta reportagem do jornal Financial Times.
O sistema não é complexo. Sem máquinas complicadas, todo míssil é simples o bastante para ser construído seguindo instruções básicas, e novos mecânicos podem ser treinados para montá-los em um mês, com impressoras 3D produzindo peças novas constantemente.
A abordagem é concebida para resolver um problema central das forças armadas americanas: os EUA não produzem mísseis suficientes, e os que o país tem em seu arsenal são extremamente caros. Aprendendo com a guerra no Irã, em que os estoques de munições avançadas foram rapidamente esgotados, o país agora se concentra na produção barata, rápida e em larga escala de novos mísseis.
Operando em capacidade máxima de produção, o Pentágono levaria, atualmente, anos, e não meses, para repor os mísseis disparados contra o Irã. Os Estados Unidos produzem apenas 600 mísseis Tomahawk por ano, a um custo de cerca de US$ 2,6 milhões cada. O PrSM e o JASSM, outros dois pilares do arsenal, ambos da Lockheed Martin, custam cerca de US$ 1,6 milhão e US$ 1,9 milhão, respectivamente.
"O arsenal americano baseia-se exclusivamente em sistemas de armas caros, sofisticados e de difícil produção", afirmou ao Financial Times Michael Horowitz, ex-membro do Pentágono responsável pela inovação em defesa. "Entramos em uma nova era de conflitos e agora os EUA precisam mudar."
Nova era de produção de armamentos
Drone da Força Aérea americana: a produção de drones também aumentará com a de mísseis (AFP/USAF/James Lee Harper Jr.)
Quem realmente brilha nesse novo modelo de produção, cada vez mais favorecido pelo Pentágono, são as startups e empresas de tecnologia, em oposição às usuais gigantes da indústria de defesa, como a Lockheed Martin — empresas menores têm mais margem de inovação para atender às novas demandas das Forças Armadas.
A demanda por mísseis não para de crescer: A Força Aérea dos EUAsolicitou cerca de US$ 12 bilhões ao longo dos próximos cinco anos para a aquisição de 28.000 mísseis. Outro programa do Pentágono, divulgado no mês passado, prevê a compra de 10.000 mísseis lançados do solo nos próximos três anos.
O Pentágono também manifestou a intenção de adquirir mais de 12.000 mísseis hipersônicos da Castelion — uma startup com três anos de existência — assim que o novo sistema Blackbeard da empresa atingir determinados marcos de testes.
Quando suas instalações no Novo México estiverem operando em capacidade máxima, a Castelion prevê produzir 6.000 unidades por ano, a um custo de cerca de 400.000 dólares cada, o que representa uma fração do custo dos mísseis tradicionais americanos. A empresa já planeja construir novas instalações de produção em outros locais.
A necessidade de ampliar a capacidade de produção militar deixou de ser uma questão teórica no Pentágono e passou a ocupar o centro do planejamento estratégico dos Estados Unidos. Antes mesmo da guerra no Irã, simulações de cenários de conflito realizadas por analistas americanos indicavam que os estoques de alguns armamentos essenciais poderiam se esgotar em poucas semanas em caso de guerra contra a China.A avaliação reforçou a percepção de que os EUA precisam não apenas de arsenais maiores, mas também de capacidade industrial para sustentar um conflito prolongado, com o disparo diário de centenas de mísseis de precisão. O objetivo é garantir um poder de fogo mais rápido e destrutivo do que o oferecido pelos drones de ataque unidirecional, equipamentos que se tornaram uma das principais marcas das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
Nesse contexto, Washington também acelerou os investimentos em veículos não tripulados. Em fevereiro, as Forças Armadas dos EUA utilizaram pela primeira vez em combate o drone de ataque Lucas, desenvolvido pela startup SpektreWorks a partir da engenharia reversa do drone iraniano Shahed-136.
O Pentágono pretende agora iniciar a produção em massa desses sistemas e solicitou ao Congresso um aumento expressivo nos recursos destinados a drones e tecnologias relacionadas. A proposta prevê triplicar os gastos no setor, elevando o orçamento para mais de US$ 74 bilhões no próximo ano, indicando que a corrida pela capacidade industrial e pela produção em larga escala de armamentos se tornou uma das prioridades estratégicas dos Estados Unidos diante da crescente competição militar com a China.
