Estrangeiro recua, 'risco eleitoral' cresce e muda perspectiva para o Ibovespa
Gringos retiraram R$ 13,6 bi da B3 em apenas oito pregões em agosto; analistas avaliam o que essa saída indica para o Ibovespa

O capital estrangeiro vem reduzindo sua exposição à Bolsa brasileira desde a segunda quinzena de abril, mas o movimento ganhou forte intensidade em agosto e passou a exercer pressão ainda maior sobre o Ibovespa, o principal índice acionário brasileiro. Até o dia 12, os investidores estrangeiros acumulavam retirada de R$ 13,56 bilhões da B3 no mês, com saídas em sete das oito sessões. No dia 11, quando o índice despencou 2,50%, houve uma retirada de R$ 4,7 bilhões em um único pregão — a maior saída diária da categoria desde abril de 2021.
A aceleração ocorre em um momento particularmente sensível para o mercado brasileiro. Com a aproximação das eleições gerais, em outubro, o investidor passa a incorporar de forma mais explícita os riscos político e fiscal ao preço dos ativos, de acordo com especialistas, ao mesmo tempo em que o cenário macroeconômico é composto por juros ainda elevados e perda de força do crédito.
O resultado é uma combinação que pesa sobre o Ibovespa. Oíndice encerrou o último pregão, na sexta-feira, 14, aos 166.934 pontos, em queda de 0,10%, e chegou à nona sessão consecutiva de baixa. Na semana passada acumulou perda de 3,23%. Desde o fim de julho, quando terminou aos 177.999 pontos, o índice recuou cerca de 6,2%.
Risco eleitoral pesa
A saída estrangeira, porém, não significa que o investidor internacional tenha abandonado definitivamente o Brasil. O saldo acumulado em 2026 ainda é positivo em R$ 22,84 bilhões, sustentado pelas fortes entradas registradas nos primeiros meses do ano. O que está em discussão agora é por que esse movimento de redução de exposição, iniciado meses atrás, se tornou tão mais intenso justamente às vésperas da eleição.
Para Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos, a principal mudança está na percepção de risco político. No começo do ano, havia maior indefinição sobre a disputa pelo posto de presidente da República. Com a divulgação de novas pesquisas e a menos de dois meses do pleito, porém, o mercado passou a enxergar com mais clareza determinados cenários eleitorais, e isso reduziu a previsibilidade sobre o próximo governo.
“Esse movimento de saída gringa está muito ligado a uma proximidade da eleição e a essa falta de previsibilidade que a gente tem tanto sobre a eleição quanto sobre o futuro, caso o Lula seja eleito”, afirma Reis.
A leitura contrasta com a percepção que prevalecia no início do ano, quando a forte entrada de capital estrangeiro levou o mercado a discutir se o investidor internacional estaria deixando em segundo plano os riscos eleitoral e fiscal. Para o analista, essa interpretação não se sustentava completamente: o risco político já estava na conta, mas ganhou peso conformea eleição se aproximou.
“Na minha visão, o que mudou é muito mais uma visão política ou, talvez, fiscal, que tinha-se antes e que agora não tem mais”, diz.
Mas não é o único fator
O diagnóstico, no entanto, está longe de ser unânime. Para Fernando Fontoura, sócio-fundador e gestor de renda variável da Persevera Asset Management, a eleição não é o principal fator por trás da aceleração das vendas. O movimento, segundo o especialista, tem caráter predominantemente técnico e está relacionado ao comportamento de fundos quantitativos globais, que reagem a tendências de preço e fluxo.
“O mercado é muito dominado pelos fundos quantitativos lá fora, principalmente, e são fundos que operam em todos os mercados, todos os países, todas as classes de ativos”, afirma.
Na avaliação de Fontoura, a Bolsa vinha perdendo força porque os investidores locais estavam pouco interessados, enquanto o dinheiro novo de estrangeiros não entrava com a mesma intensidade. Ao mesmo tempo, o capital internacional estava concentrado em outros temas, como inteligência artificial. Com a perda de um suporte quantitativo, esses fundos teriam acelerado as posições vendidas.
“Foi justamente nesse momento que a gente viu esses fundos acelerando as vendas de maneira mais intensa”, diz.
Há, porém, um ponto de convergência entre as análises, de que o ambiente para o Ibovespa ficou mais difícil.
O peso da redução do JP Morgan
OJP Morgan reduziu a recomendação para as ações brasileiras de “overweight” para neutra diante do que considerou como "piora do cenário macroeconômico". O banco estadunidense espera mais um corte de 0,25 ponto percentual da Selic em setembro, seguido de uma longa pausa até o segundo trimestre de 2027, enquanto a atividade econômica desacelera e o ciclo de crédito perde força.
Para o JP Morgan, o vencedor da eleição de outubro terá de lidar com juros reais elevados e déficit fiscal. “Tanto as ações quanto o real têm oscilado dentro de uma faixa desde maio, indicando que há pouco prêmio ou desconto eleitoral nos preços”, escreveram os analistas em relatório.Na avaliação do banco, o Brasil costuma apresentar desempenho inferior nos seis meses que antecedem as eleições. Embora isso não tenha ocorrido em julho, os analistas afirmam que o mercado já devolve parte dos ganhos em agosto e que a volatilidade tende a aumentar à medida que o pleito se aproxima.
“De modo geral, por enquanto, tudo parece muito tranquilo na frente de preços, e passamos a adotar uma posição neutra, à margem do mercado, diante da volatilidade que se aproxima”, afirmou o banco.
Para Caique Stein Laguna, sócio e especialista de investimentos offshore da Blue3,o estrangeiro não necessariamente deixou de gostar do Brasil. O que mudou foi o retorno exigido para permanecer exposto ao país.“O estrangeiro não necessariamente deixou de gostar do Brasil; ele passou a exigir mais prêmio para permanecer exposto ao Brasil”, afirma.
Segundo Laguna, o movimento reflete uma reprecificação do Brasil diante de juros elevados por mais tempo, sinais de desaceleração da atividade e perda de força do ciclo de crédito. A proximidade das eleições também passou a fazer parte da precificação de maneira mais explícita. “Quanto mais próxima a eleição, maior a necessidade de incorporar esse risco aos preços”, diz.
Gringos já retiraram R$ 13,6 bilhões
O tamanho da retirada em agosto chama atenção justamente porque ocorre depois de meses de redução da exposição. Até o dia 11, os estrangeiros já haviam retirado R$ 11,93 bilhões em apenas sete pregões. Até o dia 12, o saldo negativo chegou a R$ 13,56 bilhões.
Para Laguna, o dado mais importante não é apenas o recorde de uma sessão, mas a persistência do fluxo negativo.
“Eu não interpretaria um único pregão como uma mudança estrutural definitiva, mas ele mostra que a percepção de risco mudou rapidamente. O fato de o movimento ter continuado nos pregões seguintes é mais importante do que o número isolado”, afirma.
A saída estrangeira também não ocorre sem contraparte. Em agosto, investidores institucionais domésticos acumulam entrada de R$ 7,50 bilhões, enquanto as pessoas físicas registram saldo positivo de R$ 1,59 bilhão.Esses fluxos ajudam a amortecer a pressão, mas não necessariamente substituem o estrangeiro como motor dos grandes movimentos da Bolsa. Reis destaca que investidores domésticos tendem a manter suas posições por mais tempo, enquanto o capital estrangeiro pode entrar e sair do mercado com maior velocidade.
“O movimento de institucional e pessoa física tem uma qualidade maior. Mas, de fato, esse é um dinheiro que não gira. E por não ser um dinheiro que gira, a gente acaba ficando um pouco dependente desse dinheiro gringo para ter grandes altas ou grandes quedas”, afirma.
Isso ajuda a explicar por que a saída estrangeira tem sido tão relevante para o comportamento do Ibovespa. Oforte avanço registrado no começo do ano ocorreu em meio à entrada expressiva de recursos externos. Agora, parte desse fluxo está sendo devolvida.
Mas o movimento de saída não significa necessariamente que os fundamentos das empresas tenham piorado na mesma proporção. Reis avalia quea Bolsa não está cara nos níveis atuais e que, em diversos casos, as ações caíram mais do que os resultados das companhias justificariam.
“Não é como se tivesse em 2019, que está tudo muito caro e o gringo tirar o dinheiro, na verdade, é porque ele quer pagar mais barato em outro país. Eu acho que é muito mais sobre o risco”, afirma.
Qual a tendência para o Ibovespa agora?
É justamente essa diferença entre fundamentos e fluxo que torna o cenário para o Ibovespa mais complexo. A pressão vendedora estrangeira pode derrubar as cotações mesmo quandoos resultados das empresas não apresentam uma deterioração equivalente.
Ao mesmo tempo, enquanto o capital continuar saindo, uma eventual melhora dos fundamentos não necessariamente será suficiente para impedir novas quedas. “De fato, se o dinheiro continuar saindo, provavelmente a nossa Bolsa vai continuar caindo”, diz Reis.
Para Laguna, porém, ainda é cedo para tratar o movimento como uma mudança estrutural definitiva. “O cenário ficou mais desafiador, mas não necessariamente invalida a tese positiva para a Bolsa brasileira”, afirma.
Fontoura tem uma visão ainda mais construtiva sobre o que pode acontecer depois que a onda de vendas perder força. Para o gestor da Persevera Asset Management, a redução das posições deixa o mercado mais “leve”, com menos investidores posicionados, o que pode amplificar uma reação positiva diante de uma mudança no cenário.
“A Bolsa está muito, como chamamos, muito leve. Ou seja, tem muito pouca venda adicional potencial para vir”, diz.
Para o analista da Blue3, o retorno do estrangeiro depende de uma visibilidade maior sobre o resultado eleitoral e, principalmente, sobre a política econômica que será adotada pelo próximo governo.
“Enquanto não tiver uma visibilidade muito clara de quem vai levar a eleição e posteriormente do vencedor, o que ele vai fazer, eu acho que esse cenário é pouco provável de ver o dinheiro gringo voltando”, afirma.
O JP Morgan, que também trabalha com um ambiente de maior volatilidade, reduziu sua projeção para o Ibovespa ao fim de 2026, de 190 mil para 185 mil pontos.