Estrutura 'misteriosa' aparece no Google Earth e leva arqueólogos a investigar os Andes
Conjunto de pedras fica a mais de 3 mil metros de altitude e pode ter sido usado em cerimônias durante o período inca

Uma estrutura identificada no Google Earth, em uma região isolada dos Andes argentinos, chamou a atenção de arqueólogos por apresentar construções de pedra cuja origem ainda não foi esclarecida. O conjunto fica a mais de 3 mil metros de altitude, na Cordilheira do Tigre, província de Mendoza.
De acordo com informações publicadas pelo jornal argentino Los Andes, a formação reúne espaços circulares e retangulares, além de passagens delimitadas por rochas. Os pesquisadores investigam se o local pode ter sido utilizado em atividades cerimoniais durante o período inca, mas outras possibilidades permanecem em análise.
A descoberta passou a integrar as pesquisas do ArqueoAndes, projeto desenvolvido por instituições da Argentina e da Espanha. Uma expedição programada para dezembro de 2026 deverá buscar evidências sobre a idade e a finalidade das construções.
Descoberta começou no Google Earth
A identificação começou com uma busca realizada pelo montanhista Carlos Gobbi, que procurava possíveis vestígios arqueológicos na região havia quase 30 anos.
O interesse surgiu após relatos sobre antigas construções de pedra na Cordilheira do Tigre. Em maio de 2025, ao examinar imagens do Google Earth, Gobbi encontrou uma formação que parecia corresponder às descrições.
A localização, entretanto, dificultou a confirmação da descoberta. Duas tentativas de acesso, realizadas em setembro e novembro daquele ano, terminaram sem que o montanhista alcançasse o local.
A primeira visita ocorreu em 14 de fevereiro de 2026, com a participação de Adrián Radich e Gabriel Orofino. O percurso exigiu quase quatro dias de deslocamento por uma área sem disponibilidade próxima de água e sem sinal de telefone.
No terreno, o grupo encontrou pedras organizadas em diferentes configurações. Algumas delimitavam corredores, enquanto outras formavam espaços escavados e revestidos por rochas. Havia ainda trechos parcialmente cobertos pelo solo e construções que se projetavam acima da superfície.
A disposição das pedras despertou interesse por não haver registros de estruturas equivalentes naquela região de Mendoza. As imagens, porém, não permitiram estabelecer a época da construção.
Seria um geoglifo semelhante às Linhas de Nazca?
Vista pelas imagens de satélite, a formação apresenta desenhos geométricos que levantaram a possibilidade de se tratar de um geoglifo.
Esse tipo de manifestação consiste em figuras de grandes dimensões criadas diretamente sobre a superfície terrestre, seja pela retirada de materiais, seja pela organização de pedras.
As Linhas de Nazca, no Peru, estão entre os exemplos mais conhecidos. Apesar da semelhança observada do alto, as técnicas utilizadas nos dois locais apresentam diferenças.
Em Nazca, parte dos desenhos foi produzida pela retirada de pedras da superfície, deixando exposto o terreno abaixo. Na Cordilheira do Tigre, por outro lado, os exploradores encontraram rochas sobrepostas e organizadas em passagens e espaços delimitados.
Os arqueólogos ainda precisam verificar se a classificação como geoglifo é adequada. Também não sabem se o conjunto foi construído de uma só vez ou recebeu alterações em diferentes períodos.
Construção pode ter origem inca
Uma das explicações consideradas pelos pesquisadores envolve a ocupação inca dos Andes, entre os séculos XV e XVI. Durante esse período, montanhas e outros elementos naturais tinham importância religiosa para os incas. Por isso, a equipe considera a possibilidade de o local ter desempenhado uma função ritual ou simbólica.
A hipótese, entretanto, ainda depende de comprovação arqueológica. As condições geográficas também são consideradas na investigação. A distância de fontes de água e a dificuldade de acesso levantam dúvidas sobre uma possível ocupação residencial permanente.
Durante a visita de reconhecimento, não foram encontrados fragmentos de cerâmica ou vestígios de alimentos na superfície que ajudassem a identificar atividades humanas contínuas.
Entre as possibilidades avaliadas está o uso da área como acampamento sazonal. Os pesquisadores também não descartam outras funções ou períodos de construção. A ausência de objetos arqueológicos visíveis, por si só, não permite determinar a idade da formação tampouco estabelecer como o espaço era utilizado.
Expedição tentará esclarecer o mistério
A próxima etapa está prevista para dezembro de 2026, quando uma equipe de pesquisadores argentinos e espanhóis deverá visitar a área. Carlos Gobbi participará como guia. O planejamento inclui o uso de drones e GPSde precisão para registrar a localização e a disposição das construções.
Os especialistas também pretendem realizar escavações e recolher sedimentos. As análises poderão fornecer informações sobre a cronologia do sítio e as condições ambientais associadas à sua utilização.
A investigação também deverá considerar a relação do patrimônio com as comunidades originárias de Uspallata, além dos cuidados necessários para preservar as estruturas.
