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Sacre Investimentos
EmpresasACS
11/08/2026
8 min

Eternit (ETER3), outra ‘queridinha de Luiz Barsi’, quer avançar além das telhas, mas mineração de amianto ainda é relevante

Eternit foca em expansão para pisos e paredes, com crescimento forte em produtos de maior valor agregado, enquanto amianto ainda impacta receita e resultados.

Eternit (ETER3), outra ‘queridinha de Luiz Barsi’, quer avançar além das telhas, mas mineração de amianto ainda é relevante

A Eternit (ETER3), conhecida por fabricar telhas de fibrocimento e ter entre seus acionistas mais notórios o megainvestidor Luiz Barsi Filho, está investindo para estar presente não apenas nos telhados, mas também nos pisos e nas paredes das moradias.

Para além dos produtos commodity, a empresa tem investido também em placas e revestimentos para casas pré-fabricadas, itens de maior valor agregado.

Nos próximos cinco anos, esses novos produtos devem ser seu principal motor de crescimento, diz Rodrigo Angelo Inácio, CEO da companhia, em entrevista ao Seu Dinheiro.

A Eternit começou a investir nesse tipo de negócio há cerca de dois anos. No segundo trimestre de 2026, a divisão registrou crescimento de 75,9% no lucro bruto, atingindo receita de R$ 16,7 milhões, em conjunto com coberturas, segundo os resultados divulgados hoje (11).

“O negócio de telhas sempre será relevante, mas vamos fazer nossos outros segmentos crescerem”, diz a CFO e diretora de relações com investidores, Carisa Portela Cristal. "Foi um trimestre excelente para o nosso core e para o que a gente olha para o futuro, nossa estratégia de longo prazo, onde a gente quer estar posicionado", afirmou.

Apesar desse avanço, a mineração de amianto do tipo crisotila, também usado na fabricação de telhas, ainda é relevante para a Eternit, com receitas de R$ 76 milhões, 25,9% das receitas totais da empresa. O minério, considerado cancerígeno, é extraído exclusivamente para a exportação.

Mais que isso: a operação foi a responsável por derrubar os resultados no segundo trimestre do ano. Segundo a CFO, os embarques de amianto crisotila caíram em março, embora já estejam se regularizando.

Além disso, pela valorização do real perante o dólar, a empresa teve uma perda de R$ 7 milhões apenas com o câmbio de exportação.

"Obviamente o crisotila ainda é um negócio importante dentro da companhia e permanece assim por um tempo, mas o core, o nosso negócio é focado no fibrocimento", afirmou a CFO.

Os resultados da Eternit

A empresa reportou receita consolidada de R$ 293,6 milhões no segundo trimestre de 2026, crescimento de 6,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O segmento de Fibrocimento foi o principal vetor de crescimento da companhia, com receita líquida de R$ 210,1 milhões, expansão de 25,4% na base anual, e de 14,0% no volume de vendas.

O lucro bruto foi de R$ 53,85 milhões no segundo trimestre, queda de 25,4%. Já a mineração de amianto crisotila teve receita líquida de R$ 76 milhões, comparado a R$ 109,0 milhões no 2T25, retração de 20,7%.

O lucro líquido foi de R$ 13,65 milhões, queda de 55,4% na comparação anual, mas com reversão do prejuízo do primeiro trimestre do ano. Ao considerar todo o semestre, porém, a queda na última linha do balanço foi ainda maior, de quase 93%.

Hoje, a relação entre dívida líquida e Ebitda é de cerca de 2,96. No segundo trimestre, a Eternit contabilizou um endividamento líquido de R$ 161,2 milhões, aumento de 29,27% na comparação com o trimestre anterior.

Os investidores da Eternit

A empresa tem 18,8 mil investidores pessoas físicas, atraídos principalmente pelo pagamento recorrente de dividendos. Um deles é Luiz Barsi Filho, investidor que ficou bilionário investindo em ações como pessoa física, com 5,02% de participação na empresa.

Entre as pessoas jurídicas, há 42 fundos, fundações e clubes de investimento, incluindo o D+1 Fundo de Investimento em Ações, do BTG Pactual, com 27,19% de participação.

Se a companhia conseguir realizar os planos de expansão em seus novos negócios, mais rentáveis, há espaço para aumentar o pagamento de dividendos nos próximos dois anos, diz o CEO. Historicamente, ela costuma pagar o mínimo obrigatório, de 25% do lucro.

Nos últimos doze meses, a ação, negociada fora do Ibovespa, caiu 15,96% na bolsa. Desde o começo de 2026, a queda é de 9,14%.

Construção industrializada

Ainda que seja a principal aposta da companhia, a fatia da construção industrializada ainda é pequena no mercado. Há quatro anos, era de 2%. Em 2025, era de aproximadamente 8%, podendo dobrar até o fim de 2026.

Para a CFO, é uma evolução natural. “O mercado precisa de um tempo de amadurecimento, há uma curva de aprendizado para esses materiais”, diz ela.

A Espaço Smart, empresa que tem mais de 50 lojas em todo o Brasil e trabalha no segmento de casas modulares e pré-fabricadas, é um dos clientes da Eternit.

A fabricante não abre as margens de cada um dos negócios — a venda em massa de telhas e a produção personalizada de placas e paredes — mas a CFO afirmou que o aumento da participação da construção industrializada fez a margem do segmento de fibrocimento subir 6 pontos percentuais, para 19,8%.

A margem bruta da companhia no 2T26 foi de 18,3%, e a líquida, de 4,6%, ambas com queda em relação ao mesmo período do ano passado.

Tempo de amadurecimento do mercado

O CEO compara o desenvolvimento desse mercado à chegada da tecnologia de drywall no país. Na década de 1990, quando fabricantes europeus desse segmento chegaram ao Brasil, não havia estrutura para suportar esse material na construção.

Canos para passagem de água, esgoto e cabos elétricos, buchas e parafusos, e até lojas específicas precisaram se adaptar. Todo o ecossistema precisa acompanhar a nova tecnologia.

Mesmo assim, o desenvolvimento tem sido mais lento que o previsto por alguns. A Alea, unidade de casas pré-fabricadas da construtora Tenda e cliente da Eternit, nasceu em 2021 com a ambição de chegar a 2026 com uma produção anual de 10 mil unidades. Em 2025, mal conseguiu chegar a 1,2 mil.

Assim, desde o nascimento, não houve um ano em que a Alea ficasse no azul. O negócio avançou às custas de uma queima de caixa cada vez mais relevante. Desde 2021, a operação já consumiu cerca de R$ 500 milhões.

Nova sede, novidades nas fábricas

Para acelerar o desenvolvimento, a empresa decidiu estar mais perto de sua fábrica. Por isso, a Eternit acaba de mudar de sede.

A sede administrativa saiu da Av. Faria Lima, no coração financeiro da cidade de São Paulo, onde estava desde 1992, para dentro da fábrica em Hortolândia, próxima a Campinas e a 111 km da capital.

A mudança não foi fácil e nem todos os funcionários toparam se mudar. A própria CFO está fazendo o trajeto entre as duas cidades algumas vezes por semana.

Sede da Eternit em Hortolândia.

No entanto, a ideia é acelerar as tomadas de decisões estando mais perto do chão de fábrica, além de redução de custo.

As oito plantas da Eternit serão seu principal polo de crescimento nos próximos anos, diz Inácio. São fábricas em Hortolândia (SP), Rio de Janeiro (RJ), Colombo (PR), Goiânia (GO), Simões Filho (BA), Manaus (AM), Caucaia (CE) e a mina em Minaçu (GO).

Além da mudança de sede, a companhia também está adaptando alguns dos maquinários de suas fábricas para essa nova fase. Duas linhas, das 14 detidas pela empresa, já foram convertidas para a produção das placas, e a terceira já está em andamento.

Para Inácio, a Eternit tem uma vantagem nesse mercado. Enquanto construir uma linha fabril do zero custa aproximadamente R$ 100 milhões, a adaptação sai por um décimo desse valor. E, com fábricas em todo o país, a empresa também consegue estar mais próxima dos clientes e reduzir seu custo logístico.

A polêmica do amianto

Embora os segmentos da Eternit voltados à construção civil estejam em crescimento, parte relevante de sua receita ainda vem da mineração de amianto. A companhia explora o amianto crisotila por meio de sua subsidiária Sama, em uma mina localizada em Minaçu (GO).

Desde 2007, uma lei paulista proíbe o uso, a comercialização e a fabricação de produtos com amianto ou asbesto no estado. Em novembro de 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) estendeu essa proibição para todo o território nacional.

O amianto é considerado cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), associado a problemas de saúde, como câncer de pulmão, mesotelioma e asbestose, e já é proibido em ao menos 60 países.

Por essa proibição, a Eternit pediu recuperação judicial em 2017. Sem seu principal negócio, ela não teria como continuar operando e pagando contas, o que levaria os credores a executarem suas dívidas.

Nos seis anos em que esteve em recuperação, a empresa mudou a matéria-prima das telhas, vendeu uma operação de louças e inaugurou uma fábrica em Caucaia (CE). O desenvolvimento da construção industrializada também faz parte desse plano.

No entanto, uma legislação do estado de Goiás, onde fica a mina da Eternit, foi criada em 2009 para permitir a exploração para a exportação. Cerca de 90% da produção da Eternit é exportada para países da Ásia, como Índia, Indonésia, Tailândia e Malásia.

Essa lei é alvo de um processo judicial, e o STF vota se essa legislação é inconstitucional. Em agosto de 2024, foi sancionada a Lei do Estado de Goiás nº 22.932, estabelecendo o prazo de cinco anos para o encerramento das atividades de extração e beneficiamento do amianto.

O prazo começa a contar a partir da assinatura do Termo de Compromisso de Cumprimento de Obrigações, o que ainda não ocorreu. A Eternit deverá encerrar a operação e remover todas as estruturas da área. Ela prevê que o espaço se torne um lago.

Perguntada sobre por que a empresa não adianta esse processo, a executiva afirmou que ainda é necessário esperar detalhes da decisão da Justiça sobre como essa mina precisa ser descomissionada.

"Vamos fazer o que a Justiça determinar, no tempo da Justiça", afirmou. "Vamos explorar no tempo que a Justiça nos der."

AutorKarin Salomão
FonteSeu Dinheiro
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