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InvestMercados
09/08/2026
9 min

‘Eu não idolatro meu pai, eu o admiro’: as lições de Louise Barsi

Criada no interior, a filha do bilionário conta que seu pai buscava dar a ela um “senso de realidade”

‘Eu não idolatro meu pai, eu o admiro’: as lições de Louise Barsi

Uma vida sem luxo e muito aprendizado, é como resume Louise Barsi, filha de Luiz Barsi Filho, conhecido como o “Rei dos Dividendos”. Apesar de seu pai somar uma fortuna de R$ 4 bilhões nos dados mais recentes de 2025, Louise conta que teve uma infância comum, sem “jatinho, helicóptero, cartão ilimitado ou coisas luxuosas”, como se imagina a vida dos bilionários.

“Crescer no interior foi muito bom. Eu tive uma infância absolutamente normal, sem que os colegas soubessem quem era meu pai para o mercado financeiro. Não que eu me ache diferente de qualquer outra pessoa, mas cresci sem essa exposição e sem a fama que ele tem hoje”, diz.

Criada em um sítio, nos primeiros anos ela estudou no Instituto Mairiporã, que virou uma escola e ocupava uma propriedade de 384 mil metros quadrados. “Cada série ficava responsável por cuidar dos animais durante o recreio ou nas atividades extracurriculares da tarde”, afirma a executiva em entrevista à EXAME.

Segundo ela, apesar dos privilégios, foi uma infância considerada “simples” – dada as devidas proporções. “Não ter tido essas regalias foi muito positivo. Acho que me deu um senso maior da vida real. Eu poderia ter crescido em uma bolha, mas não foi o que aconteceu. Isso foi muito importante para a formação do meu caráter e da minha personalidade, para que eu nunca me tornasse uma pessoa deslumbrada.”

E ela enfatiza: esses valores vieram dos seus pais. Órfão muito cedo, Barsi Filho trabalhou como engraxate quando vivia em um cortiço. Posteriormente, com melhores oportunidades, conseguiu se formar em contabilidade e isso resultou no início da sua carreira em uma corretora em São Paulo. A partir de uma pequena compra de ações, começou a ganhar dinheiro até virar o que é hoje: maior acionista pessoa física do país.

Meu pai sempre me incentivou a construir minhas próprias experiências, formar minhas próprias opiniões e trilhar meu caminho sem ficar pendurada no sobrenome. Isso foi muito importante para mim. Ele me ensinou sobre humildade e sempre dizia que queria que eu fosse uma vencedora. Acho que isso resume bem o senso de meritocracia, de trabalho e de dedicação”, destaca.

Ao longo de quase 14 anos trabalhando ao lado do pai, Louise afirma que conquistou espaço gradualmente. Segundo ela, as responsabilidades aumentaram conforme demonstrava com trabalho que estava preparada para assumi-las. Embora Barsi Filho pudesse recorrer aos melhores profissionais do mercado, optou por confiar na filha como sucessora.

"Eu não idolatro meu pai, eu o admiro. Sem dúvida nenhuma, ele é a minha maior referência. Tudo o que eu aprendi sobre o mercado financeiro veio dele", pontua.

Ônibus para a faculdade

Em sua infância, Louise conta que seu pai era rigoroso com o dinheiro. Sua mesada? Veio de mais um aprendizado. “Quando completei 14 anos, ele montou uma carteira de ações da Ultrapar para mim. Os dividendos dessas ações eram transformados na minha mesada. Todo trimestre, ele dividia o valor para que eu recebesse cerca de R$ 300 por mês.”

Mas Louise só descobriu a dimensão da trajetória do pai aos 17 anos. Ao passar em frente a uma banca de jornal depois da faculdade, viu Luiz Barsi Filho estampado na capa da EXAME com a manchete "As maiores fortunas da Bolsa". "Eu comprei a revista e levei para casa para pedir algumas explicações", brinca.

Na época, ela cursava Ciências Econômicas no Mackenzie — mais tarde também se formaria em Ciências Contábeis pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), onde fez uma pós-graduação em Mercado de Capitais, além de um pós-MBA na Saint Paul Escola de Negócios. A rotina, porém, estava longe de ser luxuosa. "Aos 17 anos, eu ia todos os dias estudar de ônibus. Acordava 4h45 e fazia o ritual que vários outros estudantes pelo Brasil fazem", relembra.

A descoberta de um pai bilionário trouxe, num primeiro momento, insegurança. Louise conta que teve medo, tanto pela questão da segurança quanto pelo peso de carregar um sobrenome tão conhecido no mercado financeiro. Ela se perguntava como as pessoas passariam a enxergá-la e se conseguiria corresponder às expectativas.

Com o tempo, no entanto, essa preocupação deu lugar ao senso de propósito. Ela decidiu abraçar o legado da família, mas construir sua própria história. "Meu pai foi muito inteligente. Ele fez com que eu me apaixonasse pelo mercado de ações antes mesmo de eu descobrir quem ele era para o mercado", afirma. Para Louise, isso fez com que sua escolha fosse natural. "Com a maturidade, esse peso foi ficando cada vez mais leve", diz.

A educação financeira dentro de casa sempre foi bastante rígida. Apesar de nunca ter lhe faltado nada — ela viajava e teve acesso a uma boa educação —, Louise conta que o pai fazia questão de preservar o senso de realidade. Quando começou a trabalhar, a responsabilidade financeira aumentou: "Agora você paga as suas contas", disse Barsi à filha.

Fundadora do AGF

Sua trajetória no mercado financeiro então se iniciou. Louise atuou como estagiária de research na corretora onde o pai era cliente. Depois de obter as certificações, ela passou a assinar carteiras com o analista-chefe e, paralelamente, foi incentivada a produzir conteúdo.

“Primeiro sugeriram que eu escrevesse artigos, além dos relatórios. Depois perguntaram por que eu não criava um canal no YouTube da corretora. Foi quando pensei que aquilo já era diferente, porque eu estaria emprestando minha imagem para uma instituição”, relembra.

Isso acabou despertando uma ideia que já existia em sua cabeça: “Por que não criar um projeto próprio?” “Nessa época, os astros se alinharam. Eu já conhecia meus dois sócios, Felipe Ruiz e Fabio Baroni. Fabio sempre foi muito empreendedor e entendia bastante de internet e marketing digital. Ele percebeu que o interesse dos brasileiros por ações estava crescendo muito e, onde existe demanda, naturalmente surgem produtos”, diz.

Eles enxergaram uma lacuna no mercado, onde havia muitos influenciadores de investimentos, mas poucos investidores que realmente influenciavam a partir da própria experiência. Esse foi o seu grande diferencial: usar as redes sociais apenas como um canal de distribuição do conhecimento que já tinham para compartilhar.

Foi assim que nasceu o Ações Garantem o Futuro (AGF), em 2019. “Logo no início criamos nosso primeiro curso, o JBIJeito Barsi de Investir — que continua sendo nosso principal produto até hoje. Quando percebemos que o negócio realmente estava ganhando tração, pedi demissão da corretora e nós três passamos a nos dedicar integralmente à empresa.”

Evolução do negócio

A AGF foi crescendo conforme surgiam novas necessidades dos clientes. A educação financeira continua sendo o principal negócio da empresa, com o JBI, que já se aproxima da 22ª turma, como seu carro-chefe. Depois, a partir das dúvidas dos alunos sobre como colocar a teoria em prática, nasceu o aplicativo, que reúne conteúdos, análises, movimentações de mercado e ferramentas como o cálculo de preço-teto e outros indicadores.

Com o tempo, a empresa percebeu que muitos investidores, embora quisessem manter o controle sobre suas carteiras, não tinham tempo para operacionalizá-las no dia a dia. A partir dessa demanda, criou duas novas frentes de serviços: a assessoria, após a aquisição da Boa Vista, e a Wealth, voltada à consultoria e gestão. Hoje, segundo Louise, a AGF consegue atender diferentes perfis, desde quem quer aprender e gerir a própria carteira até quem prefere contar com um profissional por meio de assessoria, consultoria ou gestão patrimonial.

Um dos conhecimentos amplamente difundidos é o BESST. Louise explica que o acrônimo — bancos, energia, seguros, saneamento e telecomunicações — foi criado para facilitar a seleção de investimentos. Esses setores reúnem características consideradas importantes pela estratégia da AGF, como negócios perenes, serviços essenciais, maior resiliência em períodos de crise, capacidade de geração de caixa e distribuição de dividendos.

“Em momentos de crise, por exemplo, as pessoas deixam de comprar uma roupa nova antes de deixar de pagar a conta de água ou de energia”, afirma. São empresas que, em muitos casos, também conseguem repassar a inflação aos preços e podem se beneficiar de determinados cenários de juros elevados.

A estratégia, segundo ela, é conservadora apesar de estar concentrada em renda variável, já que prioriza a geração de renda por meio dos dividendos e seu reinvestimento ao longo do tempo. Louise destaca ainda que o método pode ser aplicado por diferentes perfis de investidores, independentemente do valor disponível para investir. "Você consegue fazer a mesma estratégia com R$ 50 por mês ou com R$ 100 mil por mês", afirma.

O BESST funciona como um primeiro filtro diante das mais de 400 empresas listadas na Bolsa. A partir dele, o investidor elimina negócios que não pagam dividendos ou não têm capacidade de distribuí-los de forma consistente e, depois, avalia critérios como governança e qualidade do ativo antes de chegar ao preço-teto.

O que o investidor precisa para investir na bolsa?

Antes de entrar na Bolsa, Louise recomenda que o investidor tenha uma reserva de emergência bem estruturada e mantenha em renda variável apenas o dinheiro de que não precisará no curto prazo. Para ela, é importante organizar primeiro as despesas do dia a dia, os objetivos de médio prazo e, principalmente, uma reserva de emergência, já que imprevistos podem acontecer a qualquer momento.

“Emergências não escolhem hora, lugar nem CPF. Elas acontecem com todo mundo”, destaca.

Essa reserva, segundo Louise, deve estar em investimentos de renda fixa seguros, previsíveis e com liquidez, dando ao investidor mais tranquilidade para assumir riscos maiores. Embora a renda variável tenha potencial de retorno superior, ela exige um horizonte de investimento mais longo. A ideia é evitar que uma emergência obrigue o investidor a vender ações às pressas, possivelmente em um momento de preços desfavoráveis.

Legado do pai

Louise brinca: é suspeita para falar sobre o legado que seu pai está deixando. Mas consegue descrever: “O principal legado dele é a generosidade em compartilhar conhecimento.”

Desde a década de 1970, quando praticamente só ele defendia a estratégia de investimento em dividendos, sempre fez questão de ensinar aquilo que aprendia. Naquela época não existia a internet nem a capilaridade que temos hoje, mas ele já escrevia artigos sobre mercado de capitais, ações e dividendos.”

Segundo ela, Barsi Filho sempre acreditou que o brasileiro precisava conhecer uma segunda alternativa para construir renda no futuro. “Acho que essa é uma missão extremamente nobre e, para mim, representa o maior legado do meu pai.”

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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