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Mundo
04/07/2026
4 min

EUA, 250 anos: os desafios da maior potência global — e o que a história ensina

EUA, 250 anos: os desafios da maior potência global — e o que a história ensina

Às vésperas de celebrar os 250 anos de sua independência, os Estados Unidos enfrentam, mais uma vez, um período de profundas divisões políticas e sociais que põem em xeque a confiança dos cidadãos em suas instituições democráticas.

Em artigo publicado pelo think tank britânico Chatham House, a diretora do programa para a América do Norte, a pesquisadora Lindsay Newman, argumenta que, dois séculos e meio após a independência, o país continua marcado por problemas sociais e políticos recorrentes.

Segundo Newman, a história dos Estados Unidos é marcada por sucessivas linhas de ruptura, desde a separação do Império Britânico, em 1776, até a Guerra Civil do século XIX, que quase desintegrou o país devido à escravidão. Em geral, esses episódios refletiam divergências profundas sobre quais seriam os melhores interesses da nação.

Nas últimas décadas, novas fraturas surgiram em torno de questões econômicas, raciais, geracionais e culturais. Hoje, afirma a pesquisadora, a principal divisão política do país opõe os que acreditam que a democracia americana ainda é capaz de garantir direitos, igualdade e prosperidade para todos e aqueles que consideram o sistema incapaz de cumprir essas promessas.

Rixas políticas

Proposta de passaporte comemorativo de 250 anos da declaração de independência americana, com Donald Trump à frente do texto da declaração (Reprodução/redes sociais)

O descontentamento, naturalmente, se reflete em mudanças no âmbito político. O avanço de lideranças alternativas, como o candidato socialista à prefeitura de Nova York, Zohran Mamdani, e o desempenho de candidatos de fora do establishment nas eleições primárias indicam uma crescente demanda por renovação política.

Essas demandas foram agravadas por uma série de episódios de violência, entre os quais a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, perpetrada por apoiadores de Donald Trump que contestavam o resultado da eleição presidencial, o que marcou uma escalada da radicalização política. Outras medidas do republicano, como suas guerras tarifárias, a repressão imigratória e a recente invasão no Irã, suscitam medos de extremismo doméstico.

Segundo o artigo, esse descontentamento político aumenta, por consequência, a insatisfação com a concentração de riqueza, algo historicamente incentivado nos EUA, levando uma parcela crescente dos americanos a enxergar os bilionários como uma ameaça à democracia.

A desconfiança também se estende ao avanço da inteligência artificial, hoje um dos principais motores da economia americana. Pesquisas citadas pela Chatham House apontam que cada vez mais cidadãos acreditam que a tecnologia poderá ter efeitos negativos sobre a sociedade e gerar riscos pessoais.

Essas tensões culminam em uma forte erosão da confiança nas instituições: a confiança no governo federal caiu de 49% no início dos anos 2000 para apenas 18% em 2025, enquanto os índices de aprovação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário também registraram quedas significativas.

A crescente insatisfação também afeta o sistema bipartidário que domina a política americana há mais de dois séculos, aponta o artigo. Um número recorde de eleitores passou a se identificar como independentes, ao mesmo tempo em que diminuiu a parcela da população fortemente alinhada aos partidos Republicano e Democrata.

No Partido Republicano, a influência do presidente Donald Trump e do movimento "Make America Great Again" continua determinante, embora o surgimento de dissidências entre figuras conservadoras de destaque revele disputas internas sobre os rumos da legenda.

Nesse contexto político, os Estados Unidos celebram seu aniversário de 250 anos em meio a um novo ciclo de polarização e a questionamentos sobre a capacidade de suas instituições de preservar a coesão nacional.

"Ao longo de 250 anos, os Estados Unidos foram definidos por suas linhas de fratura — divisões que, ao mesmo tempo em que uniram seu território e seu povo, em certos momentos também os separaram. É uma história de rupturas e reconstruções", escreve Newman.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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