EUA assinam acordo de cooperação nuclear com Arábia Saudita

O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quarta-feira, 22, um acordo de cooperação nuclear com a Arábia Saudita. A política foi divulgada pelo secretário da Energia americano, Chris Wright, em nota. O reino saudita é um dos maiores aliados dos EUA no Oriente Médio, mas a decisão tem enfrentado críticas de Israel, outro aliado americano.
Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos, Wright assinou o acordo ao lado do ministro da Energia saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman. O governo americano afirmou que o pacto estabelece a base jurídica para uma parceria de "várias décadas" e de bilhões de dólares voltada ao desenvolvimento de um programa nuclear civil, com foco declarado na não proliferação de armas nucleares.
"Esses dois acordos estabelecem a base legal para uma parceria bilionária e de longo prazo entre os dois países, voltada ao avanço de objetivos econômicos e estratégicos, entre eles a prevenção da proliferação de armas nucleares", afirmou Wright, de acordo com a AFP.
Além do acordo principal, os dois países também assinaram um tratado bilateral de salvaguardas.
Israel teme corrida nuclear no Oriente Médio
O anúncio provocou preocupação em Israel, onde autoridades e ex-integrantes do governo avaliam que oacordo pode incentivar outros países da região a desenvolver programas próprios de enriquecimento de urânio.
Segundo o New York Times, o acordo poderá permitir que a Arábia Saudita enriqueça combustível para seus próprios reatores nucleares, algo considerado sensível porque a mesma tecnologia pode, em etapas posteriores, ser utilizada para a produção de material destinado a armas nucleares.
O ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennett afirmou que permitir o enriquecimento de material nuclear em território saudita pode desencadear uma corrida nuclear regional. Já o ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman declarou que "todo programa nuclear militar começa com um programa civil" e defendeu que Israel pressione o Congresso americano para barrar o acordo.
Por outro lado, o ministro da Economia de Israel, Nir Barkat, minimizou as preocupações. Segundo ele, um programa nuclear voltado exclusivamente para fins energéticos seria administrável para Israel e não impediria uma futura normalização das relações diplomáticas entre os dois países.
Acordo rompe estratégia adotada por governos anteriores
O entendimento representa uma mudança em relação à política adotada pelogoverno de Joe Biden. Nas negociações conduzidas anteriormente, Washington condicionava o acesso saudita à tecnologia nuclear americana ao estabelecimento de relações diplomáticas entre Arábia Saudita e Israel.
Segundo analistas ouvidos pelo New York Times, o governo Donald Trump optou por seguir adiante com o acordo independentemente desse processo, sinalizando uma atuação mais autônoma em relação às prioridades do governo israelense.
Especialistas também avaliam que a iniciativa poderá levar outros países da região, como Turquia e Emirados Árabes Unidos, a reivindicar condições semelhantes para seus próprios programas nucleares.
Como funciona o acordo nuclear
O entendimento faz parte do modelo conhecido nos Estados Unidos como "123 Agreement", referência à Seção 123 da Lei de Energia Atômica de 1954. Esse tipo de acordo estabelece as regras para a cooperação nuclear civil entre Washington e outros países.
Segundo o Departamento de Estado americano, esses acordos exigem que os materiais nucleares sejam utilizados apenas para fins pacíficos, impondo regras de segurança, fiscalização e transferência de tecnologia. O texto também precisa passar pela aprovação do Congresso dos Estados Unidos antes de entrar plenamente em vigor.
Atualmente, osEstados Unidos mantêm 26 acordos desse tipo com 51 governos e com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Críticas se concentram no enriquecimento de urânio
Embora o governo americano afirme que a parceria fortalece a não proliferação nuclear, críticos argumentam que permitir o enriquecimento de urânio em território saudita representa um precedente delicado.
Segundo o Guardian, o acordo poderá autorizar a construção de uma instalação de enriquecimento de urânio na Arábia Saudita após estudos conjuntos entre os dois países. A iniciativa ainda deverá ser analisada pelo Congresso americano, onde parlamentares demonstram preocupação com a ausência de mecanismos adicionais de monitoramento.
A decisão também ocorre enquanto os Estados Unidos mantêm uma postura rígida em relação ao programa nuclear do Irã. Nas negociações realizadas antes da guerra entre os dois países, Washington defendia que Teerã suspendesse por até 20 anos qualquer atividade de enriquecimento doméstico de urânio, condição rejeitada pelos iranianos.
Especialistas ouvidos pelo jornal britânico afirmam que a autorização para o programa saudita pode aumentar a pressão sobre o Irã e elevar as tensões envolvendo a proliferação nuclear no Oriente Médio.
