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Mundo
22/06/2026
7 min

EUA e Irã aprovam plano para definir acordo final em até 60 dias

EUA e Irã aprovam plano para definir acordo final em até 60 dias

Os Estados Unidos e o Irã avançaram neste domingo, 21, nas negociações realizadas na Suíça e estabeleceram uma meta de até 60 dias para tentar concluir um acordo abrangente. O encontro também resultou na criação de mecanismos voltados para a continuidade do diálogo e para a redução das tensões no Líbano.

Em comunicado conjunto, Catar e Paquistão, que atuam como mediadores, informaram que a chamada Cúpula do Lago Lucerna ocorreu em um ambiente considerado construtivo. Segundo os países, as conversas registraram avanços e abriram caminho para novas rodadas de negociações técnicas.

As delegações também formalizaram a criação de um Comitê de Alto Nível, previsto em memorando de entendimento assinado anteriormente. O grupo ficará responsável pela supervisão política do processo de mediação. Os chefes das delegações deverão prestar relatórios periódicos ao comitê e coordenar grupos de trabalho dedicados a temas como o programa nuclear iraniano, sanções econômicas e mecanismos para resolução de disputas.

Outro ponto definido foi a criação de uma estrutura de desconflito, mecanismo destinado a evitar confrontos militares, envolvendo Estados Unidos, Irã e Líbano. A iniciativa terá o apoio dos mediadores e busca assegurar o encerramento das hostilidades em território libanês.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que as negociações produziram "progressos significativos". Segundo ele, Teerã obteve compromissos relacionados a isenções para exportações de petróleo e petroquímicos, flexibilização de restrições portuárias, liberação de parte dos ativos congelados e elaboração de um plano voltado à reconstrução e ao desenvolvimento econômico.

Em publicação na rede social X, Araghchi classificou o novo mecanismo para o Líbano como o primeiro teste do entendimento alcançado até agora. O chanceler indicou que a continuidade da violência no país pode representar um risco para o avanço das negociações diplomáticas.

Como foram as negociações?

JD Vance, vice-presidente dos EUA, que participou de conversas de paz com o Irã no Paquistão

JD Vance, vice-presidente dos EUA, que participou de conversas de paz com o Irã na Suíça. (Chip Somodevilla/AFP)

A delegação norte-americana foi liderada pelo vice-presidente JD Vance, que chegou à Suíça no domingo após adiar sua viagem em razão de questões logísticas.

Um diplomata dos Estados Unidos que participa das negociações afirmou que as duas delegações permaneceram engajadas durante o encontro. Segundo ele, os trabalhos devem prosseguir com novas discussões técnicas ao longo dos próximos dias.

De acordo com o representante americano, os negociadores analisaram todos os elementos relacionados ao possível acordo nuclear e discutiram formas de transformar os avanços obtidos em bases para futuras etapas da negociação.

Entre os temas abordados estiveram as declarações do Irã sobre o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo. O diplomata afirmou que as partes discutiram mecanismos para garantir a livre navegação na região e medidas destinadas a sustentar o cessar-fogo e reduzir tensões no sul do Líbano.

Segundo o memorando assinado pelas partes, Estados Unidos e Irã concordaram em manter o Estreito de Ormuz aberto e sem cobrança de pedágio por pelo menos 60 dias. O documento também prevê esforços para encerrar hostilidades em diferentes frentes, incluindo o conflito envolvendo Israel e o Hezbollah no Líbano.

As negociações ocorreram em meio a um cenário de tensão regional. No sábado, a Guarda Revolucionária Islâmica anunciou a intenção de voltar a fechar o Estreito de Ormuz em resposta a ações militares israelenses em território libanês.

As Forças Armadas dos Estados Unidos contestaram a informação e declararam que a passagem marítima continuava aberta. Autoridades americanas também afirmaram que o Irã não exerce controle sobre a hidrovia.

A agência iraniana Tasnim informou que autoridades do país manteriam restrições ao estreito até que fosse alcançado um cessar-fogo no Líbano e houvesse suspensão das sanções relacionadas às exportações de petróleo iraniano.

Em publicação na rede social Truth Social, o presidente Donald Trump afirmou que o Irã deveria impedir ações de grupos aliados no Líbano, em referência ao Hezbollah. O republicano também advertiu que os Estados Unidos poderiam responder militarmente caso considerassem necessário.

Apesar das declarações de Trump, Vance adotou um tom de confiança em relação ao processo diplomático. O vice-presidente afirmou que existem sinais de avanço em direção ao encerramento das hostilidades no Líbano e destacou o interesse da Casa Branca em construir uma nova fase na relação com a população iraniana.

O representante americano também declarou que uma das prioridades das negociações é garantir o controle do estoque de urânio enriquecido do Irã. Segundo ele, o objetivo é impedir a reconstrução do programa nuclear iraniano e manter instrumentos de pressão econômica caso os compromissos assumidos não sejam cumpridos.

As conversas técnicas devem continuar no resort de Bürgenstock durante a semana. O cronograma definido pelos negociadores prevê a tentativa de conclusão de um acordo definitivo dentro do prazo de 60 dias.

Os principais pontos do acordo

Vista de satélite do Estreito de Ormuz com linhas gráficas brancas representando rotas marítimas globais e tráfego marítimo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Conceito estratégico de transporte de petróleo

Estreito de Ormuz: abertura da rota de escoamento do petróleo segue incerta. (GettyImages)

Pelos termos estabelecidos, Estados Unidos e Irã concordam em interromper as hostilidades, reabrir o estreito de Ormuz e iniciar um período de negociações de dois meses para alcançar um entendimento definitivo sobre o programa nuclear iraniano e a retirada das sanções impostas ao país.

O memorando determina “o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes”, abrangendo também a ofensiva israelense em território libanês.

Veja a seguir os 14 pontos previstos no entendimento entre os dois países:

  1. Encerramento das hostilidades: Estados Unidos e Irã declaram o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo operações no Líbano. As partes também assumem o compromisso de não iniciar novos confrontos e de respeitar a soberania e a integridade territorial libanesas.
  2. Respeito à soberania: Os dois países concordam em não interferir nos assuntos internos um do outro e em preservar suas respectivas integridades territoriais.
  3. Negociação de acordo definitivo: Washington e Teerã terão até 60 dias para negociar um acordo final, prazo que poderá ser estendido caso haja concordância entre as partes.
  4. Retirada militar e fim do bloqueio naval: Os Estados Unidos se comprometem a suspender o bloqueio marítimo contra o Irã e retirar suas forças da região próxima ao país em até 30 dias após a assinatura do memorando.
  5. Reabertura do Estreito de Ormuz: O Irã deverá restabelecer a navegação no estreito em até 30 dias, garantindo a passagem segura e gratuita de embarcações comerciais durante 60 dias. O governo iraniano também discutirá com Omã e outros países do Golfo Pérsico a futura gestão da rota marítima.
  6. Plano de reconstrução econômica: Os Estados Unidos e seus parceiros regionais desenvolverão um programa de reconstrução e desenvolvimento para o Irã, com recursos mínimos previstos de US$ 300 bilhões.
  7. Suspensão das sanções: Washington promete encerrar todas as sanções contra o Irã, incluindo medidas aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU, pelo Conselho de Governadores da AIEA e restrições unilaterais impostas pelos Estados Unidos.
  8. Compromissos nucleares: O Irã reafirma que não produzirá nem obterá armas nucleares. Os dois governos também negociarão um mecanismo para tratar do urânio enriquecido sob supervisão da AIEA e manterão discussões futuras sobre enriquecimento e outros temas nucleares.
  9. Manutenção do cenário atual: Até a conclusão do acordo definitivo, o Irã continuará com sua política nuclear atual, enquanto os Estados Unidos não adotarão novas sanções nem ampliarão sua presença militar no Oriente Médio.
  10. Comércio de petróleo: Os Estados Unidos permitirão que o Irã volte a comercializar petróleo e produtos petroquímicos nos mercados internacionais.
  11. Liberação de ativos iranianos: Washington se compromete a desbloquear integralmente recursos financeiros e ativos iranianos que estavam congelados ou sujeitos a restrições.
  12. Mecanismo de supervisão: As partes criarão uma estrutura de monitoramento para acompanhar o cumprimento do memorando e a implementação do futuro acordo definitivo.
  13. Foco das negociações futuras: Após a entrada em vigor das cláusulas 1, 4, 5, 10 e 11, as discussões passarão a tratar exclusivamente dos demais pontos pendentes do acordo.
  14. Ratificação internacional: O acordo final deverá ser formalizado por meio de uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU no prazo de até 60 dias.

Por outro lado, o texto do memorando não estabelece qual será o nível máximo de enriquecimento de urânio permitido ao Irã. De acordo com a emissora norte-americana CNN, a definição sobre o destino do material nuclear iraniano e dos estoques de urânio enriquecido foi deixada para a etapa final das negociações, que deverá ser concluída em até 60 dias.

AutorMateus Omena
FonteExame
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