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Sacre Investimentos
Mundo
20/08/2026
5 min

EUA lideram na IA, mas adoção pode virar o jogo na disputa com a China

Apesar dos investimentos e do avanço da IA, os EUA ainda enfrentam dificuldades para levar a tecnologia ao mundo real

EUA lideram na IA, mas adoção pode virar o jogo na disputa com a China

A corrida global pela inteligência artificial já influencia as perspectivas de crescimento econômico, investimentos e produtividade, mas ainda não está claro quais países serão os grandes vencedores.

Os especialistas Rebecca Patterson e Sebastian Mallaby, do think tank Council on Foreign Relations (CFR), defendem, em um podcast, que a disputa deve ser analisada tanto com base em fatores como talento, capital, infraestrutura quanto na capacidade de adoção de tecnologia.

Nesse cenário, os Estados Unidos ainda ocupam uma posição de destaque no desenvolvimento de sistemas de IA, impulsionados por empresas de tecnologia e por mercados de capitais considerados profundos e flexíveis. A liderança, porém, não é vista como garantida diante do avanço acelerado da China em pesquisa e desenvolvimento.

O capital é outro elemento que favorece os Estados Unidos, que concentram investimentos privados muito superiores aos da China em infraestrutura e capacidade computacional.

Ainda assim, a vantagem pode ser menor do que os valores sugerem, já que empresas chinesas conseguem reduzir custos ao utilizar técnicas de destilação para reproduzir as capacidades de modelos desenvolvidos no exterior.

A China já apresenta algumas vantagens importantes na formação de pesquisadores e na produção científica relacionada à IA.

Segundo dados citados na discussão, o país respondia por mais de 35% das publicações em periódicos de alto nível sobre o tema em 2022 e liderava, com ampla margem, o número de patentes relacionadas à tecnologia.

A infraestrutura energética também pode alterar o equilíbrio da disputa. A China produz aproximadamente o dobro de eletricidade que os Estados Unidos e tem ampliado o uso de fontes renováveis, o que representa uma vantagem para atender à crescente demanda por centros de dados necessários ao desenvolvimento da IA.

Produção vs Implementação

Implementação da IA em aplicações cotidianas segue um obstáculo que pode cementar liderança no setor (Magnific/Reprodução)

Além da capacidade de produzir IA, outro fator decisivo será a disposição das economias para adotar a tecnologia.

Pesquisas citadas pelo CFR no debate mostram maior entusiasmo em economias emergentes, enquanto os consumidores de países desenvolvidos tendem a demonstrar mais preocupação com empregos, custos de energia e possíveis perdas associadas à automação.

Essa diferença pode afetar diretamente a velocidade de implementação da IA nas empresas e na economia.

Os especialistas apontam que países como os Emirados Árabes Unidos e Singapura estão entre os usuários mais entusiasmados, enquanto os Estados Unidos aparecem em posição inferior no ranking de adoção e as empresas europeias ainda utilizam a tecnologia de maneira limitada.

A produtividade, porém, continua sendo uma incógnita. Mesmo quando ferramentas de IA permitem que trabalhadores individuais realizem tarefas muito mais rapidamente, os ganhos podem ser limitados por gargalos nas próprias empresas, o que exige mudanças profundas nos fluxos de trabalho para que a tecnologia produza efeitos econômicos mais amplos.

Outro obstáculo é o risco associado ao uso da IA. Empresas podem acelerar a produção de conteúdos e códigos, mas precisam manter processos de revisão e controle para evitar erros que possam comprometer a relação com clientes ou gerar consequências jurídicas e financeiras, o que pode reduzir parte dos ganhos esperados.

A disputa também envolve diferentes modelos de adaptação do mercado de trabalho. Enquanto os Estados Unidos tendem a permitir mudanças mais rápidas nas estruturas empresariais, países europeus procuram preservar relações de emprego por mais tempo, uma estratégia que pode reduzir a reação social contra a IA, mas também retardar mudanças necessárias para capturar ganhos de produtividade.

Para a China, a pressão pela adoção da IA é particularmente forte diante do envelhecimento da população e da redução da força de trabalho.

O país precisa elevar a produtividade para compensar a diminuição do número de trabalhadores, embora ainda enfrente incertezas quanto a como equilibrar a automação com a preservação de empregos.

A competição entre empresas também pode acelerar a adoção da tecnologia. Após o lançamento do ChatGPT em 2022, por exemplo, as companhias passaram a demonstrar rapidamente seus investimentos em IA, mas o aumento dos custos de uso levou as empresas a buscar um equilíbrio entre a integração tecnológica e o controle de despesas.

Na avaliação do CFR, os Estados Unidos ainda têm uma vantagem estreita no desenvolvimento de IA, especialmente pela receita gerada por seus modelos proprietários.

Já no campo da implantação, o cenário é menos favorável, com outros países apresentando níveis de utilização superiores, o que impede uma conclusão definitiva quanto à liderança americana.

A disputa também ultrapassa os países que desenvolvem ou utilizam diretamente os modelos, envolvendo economias que controlam pontos estratégicos da cadeia de suprimentos.

Empresas e países ligados à fabricação de chips, minerais críticos e equipamentos de produção podem adquirir influência desproporcional, embora essa vantagem possa estimular outros governos a buscar alternativas.

No longo prazo, a corrida pela IA tende a depender não apenas de quem produz os melhores modelos, mas também de quem consegue reunir energia, pesquisadores, capital, infraestrutura e capacidade de adoção.

A tecnologia deve transformar a economia e os mercados financeiros e, em um cenário de crescente competição geopolítica, também pode se tornar um dos principais instrumentos de poder entre os países.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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