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Sacre Investimentos
Mundo
16/09/2026
5 min

EUA reabrem cofres para a ONU, mas cobram reformas e recuo da China às vésperas da Assembleia Geral

Depósito evita perda do voto do país, dias após americano ser indicado para comandar agência de alimentos da organização

EUA reabrem cofres para a ONU, mas cobram reformas e recuo da China às vésperas da Assembleia Geral

Depois de quase dois anos usando o calote como instrumento de pressão, o governo de Donald Trump voltou a abrir os cofres para a Organização das Nações Unidas, mas não sem cobrar o preço que já vinha anunciando desde a primavera.

Nesta terça-feira, 16, a cerca de uma semana do Debate de Alto Nível da 81ª Assembleia Geral, que acontece em Nova York no dia 22 de setembro, os Estados Unidos depositaram 725 milhões de dólares referentes à sua cota do orçamento regular da entidade para 2025, valor dividido entre os 193 países-membros por meio de contribuições obrigatórias.

Na sexta-feira anterior, o governo americano já havia repassado outros 102 milhões de dólares para cobrir parte de suas obrigações com operações de manutenção da paz.

O pagamento do orçamento regular tem um efeito prático imediato. Ele evita que os Estados Unidos percam o direito de voto na Assembleia Geral, punição prevista no Artigo 19 da Carta da ONU para países com dois anos ou mais de atraso nas contribuições.

Reformas como pré-condição

A Casa Branca nunca escondeu que os recursos represados serviriam como alavanca para mudanças dentro do sistema da ONU.

Em abril, o portal Devex, publicação americana especializada em cooperação internacional e financiamento humanitário, teve acesso com exclusividade a dois memorandos internos do governo americano, distribuídos a diplomatas em Genebra e Nova York.

Os textos revelavam a condicionante imposta por Washington: o pagamento de "uma parcela significativa" das cotas de 2026 dependeria do cumprimento de nove reformas consideradas prioritárias pelos EUA.

Entre as exigências estão a reformulação do sistema de previdência dos servidores da ONU, hoje baseado em benefício definido, para um modelo híbrido nos moldes de um plano de aposentadoria privada americano; o fim das viagens em classe executiva para funcionários de nível médio e sênior; e novos cortes em cargos de alto escalão.

Os documentos também pedem uma redução adicional de 10% nas missões de paz consideradas "ineficazes", pauta que o embaixador americano na ONU, Mike Waltz, já vinha defendendo publicamente em audiências no Congresso, nas quais chegou a classificar os benefícios do funcionalismo da entidade como "exorbitantes".

Em entrevista ao Devex, o presidente do sindicato dos funcionários da ONU em Genebra, Ian Richards, rebateu a comparação.

Segundo ele, a Casa Branca teria selecionado apenas parte dos números ao comparar salários de servidores públicos americanos com os de funcionários da ONU, ignorando que diplomatas dos EUA no exterior recebem benefícios mais generosos em moradia e educação.

China no alvo

Uma das medidas que mais chama atenção é a exigência para que o secretário-geral deixe de aceitar fundos fiduciários de doador único dentro de seu próprio gabinete.

É uma referência direta ao Fundo de Paz e Desenvolvimento, criado pela China em 2016 com 200 milhões de dólares e renovado por Xi Jinping até 2030.

O fundo já financiou mais de 200 projetos ligados à Iniciativa Cinturão e Rota, incluindo treinamento de tropas de paz e apoio a mediações em países como Libéria e Nigéria.

Antes mesmo de assumir o cargo de embaixador, durante sua sabatina no Senado americano para confirmação no cargo, Mike Waltz já defendia essa linha.

Em uma audiência realizada em julho de 2025, afirmou que "conter a China é fundamental", já que o país "empurra seu pessoal para cargos em todos os níveis" dentro da ONU.

Sob reserva, uma fonte diplomática confirmou ao Devex que a medida mira especificamente o fundo chinês.

A conta que falta fechar

Depois de não repassar nada em 2025, os EUA fizeram um aporte pontual de 160 milhões de dólares em fevereiro, dias após o secretário-geral da ONU, António Guterres,alertar publicamente para um risco de "colapso financeiro iminente" da organização.

Mesmo com o novo aporte, os Estados Unidos seguem devendo bilhões à organização. Segundo dados da organização, o país acumula cerca de 5 bilhões de dólares em atrasos, mais de 2 bilhões referentes ao orçamento regular e cerca de 3 bilhões a operações de manutenção da paz.

Parte dessa dívida tem origem numa regra própria dos Estados Unidos: uma lei aprovada pelo Congresso americano nos anos 1990 limita a contribuição dos EUA ao orçamento de peacekeeping a no máximo 25% do total, ainda que a ONU calcule a cota americana com base em sua capacidade econômica, hoje acima desse porcentual.

Na prática, isso significa que uma parte da dívida se acumula automaticamente todo ano, mesmo quando Washington paga o que classifica como "sua parte".

Mais um americano no comando?

A movimentação financeira coincide com outro capítulo da influência americana dentro do sistema ONU.

Na última sexta-feira, 11 de setembro, também a Devex noticiou com exclusividade que Guterres e o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Qu Dongyu, haviam escolhido Luke Lindberg, subsecretário do Departamento de Agricultura dos EUA, para comandar o Programa Mundial de Alimentos (PMA) por um mandato de cinco anos.

A informação partiu de uma carta interna da ONU obtida pela reportagem e foi confirmada nos dias seguintes pelo Departamento de Estado americano.

Indicado por Trump e genro do senador republicano John Thune, Lindberg se torna o nome mais graduado do governo americano a assumir a liderança de um órgão da ONU, substituindo Cindy McCain, que deixou o cargo por motivos de saúde.

Coincidência ou não, a nomeação e o pagamento andaram lado a lado. E é mais um indício de que o presidente americano deve voltar a discursar na Assembleia Geral este ano, como fez em 2025.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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