EUA sinalizam ao Brasil que decisão sobre tarifas sai hoje à tarde

Autoridades do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) sinalizaram ao governo brasileiro que a decisão final sobre a aplicação de novas tarifas de importação ao Brasil deverá ser divulgada na tarde desta quarta-feira, 15.
O Brasil está sujeito a duas novas taxas que, juntas, poderão atingir 37,5%, após ser alvo de dois processos de investigação por meio da lei chamada de Seção 301.
Um assessor do governo Lula disse, de forma reservada, que as autoridades brasileiras esperam a definição do USTR para então definir qual será a resposta brasileira, que pode incluir o uso da Lei de Reciprocidade, com medidas contrárias aos EUA.
No entanto, há a expectativa de que caso o tarifaço seja imposto, os Estados Unidos só aceitem negociar depois das eleições presidenciais brasileiras, em outubro.
Na terça-feira, 14, o governo brasileiro teve a quinta reunião com Jamieson Greer, chefe do USTR, em que o Brasil reiterou o caráter injusto das tarifas.
"Como já demonstrado pelo governo brasileiro, nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justificam a aplicação das tarifas recomendadas. Cumprindo a orientação do Presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado", afirma nota divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Entenda a investigação contra o Brasil
A investigação contra o Brasil foi feita por meio da Seção 301, iniciada em julho de 2025.
No começo de junho deste ano, o USTR, um órgão do governo americano, concluiu que o Brasil age de forma não razoável no comércio bilateral, por práticas como o uso do Pix, a taxação do etanol americano e a falta de combate à corrupção e ao desmatamento.
O USTR avalia que essas práticas dão vantagens indevidas ao Brasil no comércio, e propôs uma nova tarifa, de 25%, para tentar reduzir a competitividade dos produtos brasileiros nos EUA. A decisão foi chancelada pelo presidente Donald Trump.
Além disso, em outro processo, o Brasil é acusado de se beneficiar de trabalhos forçados. Esse outro processo pode gerar cobrança extra de 12,5%.
Na semana passada, foi realizada uma audiência em Washington sobre o tema, com empresas e entidades interessadas. Além de entidades brasileiras, empresas americanas como a Tesla se pronunciaram contra as tarifas, com o argumento de que a taxação sobre insumos brasileiros prejudicará a operação de empresas dos EUA e encarecerá produtos.
Nesta audiência, também esteve presente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que disputa a Presidência do Brasil. Ele defendeu que a tarifa contra o Brasil poderia beneficiar o presidente Lula na campanha pela reeleição e pediu o adiamento da cobrança até depois da eleição, em outubro.
O governo brasileiro também buscou negociar a tarifa e ofereceu concessões aos EUA, em temas como aberturas de mercados, mas colocou alguns temas, como mudanças no Pix, como inegociáveis.
Os presidentes Donald Trump e Lula., durante encontro na Casa Branca (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)
Relembre a história do tarifaço
A investigação contra o Brasil foi iniciada em julho de 2025, por ordem do presidente Donald Trump. Na época, ele acusou o país de perseguir judicialmente o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado, e implantou uma tarifa de 40% ao país. Como havia outra tarifa geral de 10% a todos os países, o Brasil passou a ser cobrado em 50% extras.
As ações vieram após uma campanha feita nos EUA pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que buscou punições ao Brasil sob argumento de que seu pai seria perseguido injustamente pela Justiça brasileira.
Nas semanas seguintes, o governo americano deu uma série de isenções à nova tarifa, a produtos como carne, café e suco de laranja, o que reduziu os efeitos da medida.
O impasse foi desfeito a partir de setembro. Após uma série de conversas de bastidores, envolvendo tanto autoridades quanto empresários e entidades setoriais, o presidente Trump se reuniu com o presidente Lula nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU. Após a conversa, os dois disseram que houve uma "química" entre eles.
Depois disso, vieram outras conversas entre os dois presidentes e uma série de alívios ao tarifaço, como a retirada de mais produtos da lista e uma sinalização de normalização das relações. Os dois presidentes tiveram uma reunião presencial em outubro, na Malásia, que transcorreu bem. Na época, o governo americano recuou de mais medidas contra o Brasil.
Em fevereiro, a Suprema Corte derrubou as tarifas que Trump havia aplicado por meio da por meio da regra Ieepa, e a cobrança de 50% foi retirada de vez. No entanto, o presidente decretou outra taxa geral, de 10%, por meio da Seção 122, que segue em vigor.
Nos últimos meses, a relação entre Lula e Trump piorou. Mesmo após uma visita de Lula à Casa Branca, em maio, os americanos não recuaram das tarifas e das acusações contra o Brasil.
Em maio, Trump se aproximou de Flávio Bolsonaro e o recebeu na Casa Branca. Depois disso, os americanos declararam as facções PCC e CV como terroristas, um pedido de Flávio que contraria o governo Lula, por ver risco de intervenções militares no país e de piora no ambiente de negócios para as empresas.
