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InvestMercados
26/06/2026
4 min

EUA 'sugam' poupança global para financiar IA, diz economista

EUA 'sugam' poupança global para financiar IA, diz economista

Os Estados Unidos estão entrando em um ciclo de forte expansão de investimentos em inteligência artificial que, de acordo com Adauto Lima, economista-chefe da Western Asset Management, Franklin Templeton Brasil, depende cada vez mais da absorção da poupança global para se financiar.

A leitura do economista parte de um diagnóstico fiscal e macroeconômico. Segundo Lima, a expansão dos gastos públicos nos EUA reduziu a poupança doméstica, criando uma necessidade crescente de financiamento externo para sustentar tanto o déficit estrutural quanto os novos investimentos ligados à tecnologia. Nesse contexto, o país passa a depender cada vez mais do capital internacional.

"Os Estados Unidos vão absorver muita poupança global para financiar esse investimento. A poupança americana segue baixa com expansão fiscal, a poupança doméstica cai", afirmou o economista, destacando que o movimento não é conjuntural, mas parte de um ciclo mais amplo de transformação tecnológica que tem a inteligência artificial como eixo central.

O ponto de inflexão, segundo sua análise, está na natureza desse financiamento. Se no passado o fluxo global para os EUA era majoritariamente direcionado à compra de títulos do Tesouro — com juros baixos e menor risco —, desde a crise de 2008 houve uma mudança estrutural.

O capital estrangeiro passou a mirar com mais intensidade o mercado acionário americano, buscando capturar o ganho de produtividade associado às grandes empresas de tecnologia. "Desde a crise de 2008, hoje o estrangeiro investe muito mais em equities. Então todo esse boom que você teve na bolsa aumentou rapidamente o passivo", disse.

Isso sigifica que o avanço das bolsas americanas também ampliou o passivo dos Estados Unidos perante o resto do mundo, já que investidores globais detêm uma fatia crescente das ações de empresas do país. Esse novo arranjo financeiro, na avaliação de Lima, alimenta um ciclo de demanda mais forte dentro da própria economia americana.

"No curto prazo, isso aumenta a demanda, a demanda por insumos, por componentes, como chips. E, no fundo, o que explica esse processo inflacionário é justamente isso: um ciclo de demanda que se expande. Sempre vai se ajustar o compasso, mas o resultado final é esse ciclo contínuo de expansão da demanda", afirmou.

O resultado, segundo o economista, é um ambiente em que os juros americanos tendem a permanecer mais elevados por mais tempo, justamente por conta desse choque de demanda associado ao ciclo de investimento tecnológico.

A análise também se insere em uma discussão mais ampla sobre o chamado "Global Imbalance" — o desequilíbrio entre países com excesso de poupança e aqueles que dependem de financiamento externo. Nesse arranjo, os Estados Unidos aparecem como principal destino dos fluxos globais, acumulando passivos crescentes em relação ao resto do mundo.

"Você vai criando um passivo nesse país contra o resto do mundo. Hoje os Estados Unidos têm mais de 100% do PIB de passivo", afirmou Lima sobre dimensão acumulada dessas obrigações do país.

EUA é peça central dos 'desequilíbrios globais', diz FMI

Esse quadro, segundo o economista-chefe da Western Asset Management, Franklin Templeton Brasil, não é novo, mas se intensificou nas últimas décadas. O Fundo Monetário Internacional (FMI), em relatório publicado em abril deste ano, também destacou os Estados Unidos como peça central dos desequilíbrios globais.

O documento aponta que o país combina déficit em conta corrente relevante, em torno de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2024, com uma posição de investimento internacional líquida negativa, próxima de -25% do PIB mundial.

Antes disso, em fevereiro, FMI também afirmou em sua primeira revisão do "Artigo IV" das políticas do governo de Donald Trump, ⁠que o crescimento dos EUA para ⁠2026 permanecerá em uma taxa resiliente de 2,4%, em linha com suas previsões de janeiro, ‌enquanto a inflação não retornará à meta de 2% do Federal Reserve (Fed) até o início de 2027, dada a incerteza em torno da trajetória da inflação e do crescimento.

Mas o Fundo afirmou que os déficits ‌fiscais dos EUA permanecerão entre 7% e 8% do PIB nos próximos anos, mais do que o dobro dos níveis almejados pelo secretário ⁠do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e que a dívida pública consolidada atingirá 140% do PIB até 2031.

Na leitura de Adauto Lima, esse processo ajuda a explicar por que os Estados Unidos continuam sendo o principal "atrator" de capital global. Mais do que uma questão financeira tradicional, trata-se agora de um movimento ancorado em produtividade e tecnologia.

"Como o choque de produtividade no mundo está sendo nos Estados Unidos, onde você vai pôr dinheiro? Você quer capturar o ganho de produtividade", afirmou.

AutorClara Assunção
FonteExame
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