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InvestMercados
28/07/2026
4 min

Euforia da IA vira risco de crédito e ameaça repetir estouro das pontocom, diz Fitch

Agência diz que exposição da economia e do mercado de capitais a uma correção ligada à inteligência artificial é "significativa"

Euforia da IA vira risco de crédito e ameaça repetir estouro das pontocom, diz Fitch

A euforia da inteligência artificial, e o risco de uma correção brusca de preços, emergiu como um dos principais riscos de crédito globais, segundo alerta da agência de classificação de risco Fitch Ratings. A avaliação reforça a preocupação crescente de que os valuations elevados das empresas de tecnologia e o volume inédito de investimentos em IA possam estar correndo à frente de retornos futuros ainda incertos.

Em seu Global Risk Outlook do terceiro trimestre, a Fitch afirmou que o cenário de crédito segue dominado por dois riscos de curto prazo: a vulnerabilidade crescente a uma correção de mercado ligada à IA e a incerteza associada ao conflito entre Estados Unidos e Irã.

A agência ecoou advertências recentes de reguladores e executivos globais de que o boom da IA se tornou cada vez mais entrelaçado ao crescimento econômico e aos mercados de capitais, sobretudo nos EUA, o que amplia os riscos de uma eventual liquidação em massa de ativos.

"A escala do investimento em IA é tal que a exposição da economia e do mercado de capitais como um todo a uma correção desse tipo é significativa", disse a Fitch.

Valuations perto do pico das pontocom

O alerta, o mais direto já emitido por uma grande agência de rating até agora, veio no momento em que as ações asiáticas ligadas à IA voltaram a despencar nesta terça-feira (28), em meio a dúvidas sobre quem vai bancar o ciclo de gastos e a evidências de competição crescente da China.

O relatório destacou que o índice preço/lucro ciclicamente ajustado do S&P 500, principal referência da bolsa americana, subiu a patamares próximos aos vistos durante a bolha das pontocom, no fim dos anos 1990. Ao mesmo tempo, a emissão de títulos corporativos nos EUA saltou 26% no primeiro semestre de 2026, impulsionada em grande parte por captações relacionadas à IA.

Segundo a Fitch, Amazon, Alphabet, Nvidia, Meta, Oracle e SpaceX emitiram, juntas, US$ 182 bilhões em títulos com grau de investimento. Já os investimentos em capital (capex) de Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft devem crescer mais de 75% neste ano, alcançando US$ 700 bilhões.

A agência estimou que o avanço dos investimentos em tecnologia da informação adicionou diretamente 1,4 ponto percentual ao crescimento do PIB americano no primeiro trimestre, enquanto a valorização das ações também ajudou a sustentar o consumo das famílias por meio do chamado efeito riqueza.

A incerteza sobre receitas futuras da IA, regulação, concorrência e a disrupção do mercado de trabalho, no entanto, poderia deflagrar uma correção de mercado potencialmente significativa e prolongada, com amplas implicações macroeconômicas. O temor não impediu, porém, que empresas do setor formassem fila para abrir capital em 2026.

"O grau em que os mercados de capitais e as economias se entrelaçaram com a IA criou uma vulnerabilidade para o crédito", afirmou a Fitch.

Guerra, El Niño e o efeito sobre a América Latina

O risco geopolítico permanece como a outra grande preocupação, especialmente com a retomada dos confrontos entre EUA e Irã nas últimas semanas e um novo fechamento do Estreito de Ormuz, rota por onde escoa cerca de um quinto do petróleo mundial.

A Fitch projeta desaceleração do crescimento global para 2,4% em 2026 e prevê que a inflação americana encerrará o ano em 3,7%, refletindo o impacto de preços de energia mais altos.

A agência também apontou um forte padrão climático El Niño como risco de crédito emergente, dada a probabilidade de secas, enchentes e tempestades severas, fenômeno que poderia agravar as pressões inflacionárias ligadas ao conflito entre EUA e Irã. Países altamente endividados e com nota de crédito em grau especulativo ("junk") estariam particularmente vulneráveis, já que altas nos preços dos alimentos podem complicar a política monetária, elevar custos de subsídios e pressionar ainda mais as contas públicas.

Na América Latina, onde fertilizantes e diesel respondem por entre 50% e 70% dos custos de insumos agrícolas e cerca de 30% do suprimento de fertilizantes vem do Oriente Médio, custos mais altos e colheitas mais fracas poderiam apertar as margens do agronegócio e atingir setores de transporte, incluindo portos, ferrovias e rodovias com pedágio, segundo a Fitch.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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