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InvestMercados
29/06/2026
5 min

Europa volta ao radar após alta dos juros: vale a pena investir por lá?

Europa volta ao radar após alta dos juros: vale a pena investir por lá?

Depois de mais de dois anos sem apertar a política monetária, o Banco Central Europeu (BCE) elevou a taxa de depósito, principal referência, para 2,25%, em uma tentativa de conter novas pressões inflacionárias provocadas pelo aumento dos preços de energia.

Ao mesmo tempo, as bolsas do continente acumulam desempenho superior ao do Ibovespa em 2026, impulsionadas por setores como bancos, indústria e defesa.

Diante dessas recentes movimentações, será que faz sentido direcionar parte da carteira para a Europa? Especialistas ouvidos pela EXAME dizem que sim — mas não pelos mesmos motivos que tornam a renda fixa brasileira tão atrativa hoje.

Segundo eles, a principal tese para investir no continente não é buscar retornos maiores do que os disponíveis no Brasil, mas diversificar a carteira entre diferentes moedas, economias e setores.

Juros maiores, mas longe do Brasil

A alta promovida pelo BCE tornou a renda fixa europeia mais interessante do que nos anos em que a região conviveu com juros próximos de zero ou até negativos. Ainda assim, o retorno continua distante do oferecido pelos títulos brasileiros.

"O investidor não deve olhar para a Europa buscando o mesmo carrego que encontra no Brasil. Aqui, a lógica é diversificação, exposição a moeda forte e equilíbrio global de portfólio", afirma Wilson Barcellos, CEO da Azimut Brasil Wealth Management.

Hoje, títulos públicos de dez anos da Alemanha pagam cerca de 2,9% ao ano, enquanto o agregado dos títulos soberanos da zona do euro gira em torno de 3%. No Brasil, por outro lado, investidores encontram títulos prefixados próximos de 14% ao ano e papéis atrelados à inflação pagando acima de IPCA +8%.

Para João Henrique Delibaldo, planejador financeiro CFP pela Planejar, a diferença continua grande.

"A renda fixa europeia ficou mais atrativa do que era, mas ainda está longe dos níveis de retorno nominal e real disponíveis no Brasil. Ela não deve ser vista como substituta do Tesouro Direto, e sim como instrumento de diversificação internacional."

Eduardo Marocke, head de fundos e renda fixa da Faz Capital, faz avaliação semelhante. Segundo ele, a renda fixa europeia entra na carteira principalmente para quem busca exposição ao euro e redução da concentração no Brasil.

"Pelo retorno bruto, ela é pouco atrativa para o investidor brasileiro. O objetivo não é o cupom, mas diversificação e exposição em moeda forte."

Se não é pelos juros, por que a Europa ficou mais interessante?

Na renda variável, a história muda.

Enquanto o mercado brasileiro segue bastante concentrado em bancos, commodities e empresas ligadas ao ciclo doméstico, a Europa oferece exposição a segmentos pouco representados na B3, como indústria, saúde, luxo, infraestrutura, defesa e tecnologia industrial.

Esse perfil mais diversificado ajudou as bolsas europeias a se destacarem neste ano.

Segundo Marcos Praça, diretor de análises da Zero Markets Brasil, o continente reúne empresas globais sólidas e negocia com avaliações consideradas mais atrativas do que as americanas.

"O STOXX Europe 600 costuma negociar com desconto em relação ao S&P 500. Ainda assim, muitas companhias europeias apresentam forte geração de caixa, presença global e balanços sólidos, o que torna a região relativamente atrativa do ponto de vista de valuation."

Barcellos acrescenta que o bom desempenho recente também reflete uma mudança no posicionamento dos investidores globais.

"Depois de anos de forte concentração nas gigantes americanas de tecnologia, muitos investidores aproveitaram para rebalancear suas carteiras. A Europa voltou a chamar atenção por reunir valuations mais atrativos, estímulos fiscais, principalmente na Alemanha, e setores como bancos, indústria, utilities e defesa."

Mesmo assim, ele ressalta que não enxerga uma troca entre Estados Unidos e Europa.

"Vejo a Europa como complemento, não como substituição aos Estados Unidos ou ao Brasil."

O câmbio pode aumentar — ou eliminar — os ganhos

Antes de investir no exterior, especialistas alertam que o brasileiro precisa considerar um fator que não existe nas aplicações domésticas: o câmbio.

Mesmo que um ativo se valorize em euro, uma eventual desvalorização da moeda europeia frente ao real pode reduzir significativamente — ou até anular — o retorno quando o dinheiro é convertido de volta para o Brasil.

"O retorno final depende tanto da performance do ativo quanto da variação cambial", resume Delibaldo.

Além da oscilação do euro, entram na conta custos como spread cambial, IOF sobre remessas, taxas de administração, custódia e tributação.

Marocke lembra que hoje existem alternativas bastante acessíveis para investir na região, como ETFs, fundos internacionais, BDRs e plataformas no exterior, mas recomenda que o investidor compare cuidadosamente todos os custos antes da aplicação.

Quando vale a pena investir?

Na avaliação dos especialistas, sim — desde que a decisão faça parte de uma estratégia de longo prazo e não seja motivada apenas pelo desempenho recente da bolsa ou pela alta dos juros europeus.

Para Delibaldo, a principal pergunta não é se a bolsa europeia subiu mais ou menos que o Ibovespa nos últimos meses, mas se ela acrescenta diversificação estrutural à carteira.

A recomendação vale principalmente para investidores moderados ou arrojados, que já possuem reserva de emergência, patrimônio concentrado no Brasil e conseguem conviver com a volatilidade cambial.

Já para investidores conservadores ou com objetivos de curto prazo em reais, a avaliação é diferente.

"O Brasil continua oferecendo um dos maiores retornos reais do mundo em renda fixa. Para quem tem despesas e patrimônio em reais, ela ainda tende a ser a alternativa mais simples e competitiva", afirma Delibaldo.

O consenso entre os entrevistados é que a Europa ganhou espaço no radar dos investidores em 2026, mas como uma peça complementar dentro de uma carteira global — e não como substituta dos investimentos brasileiros.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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