Ex-agência do Bradesco dará lugar a torre de 100 andares que vai 'desafiar o vento'
Lotisa contratou consultoria canadense que trabalhou no Burj Khalifa para testar torre de 114 andares em Balneário Camboriú

Um arranha-céu de 406 metros começa a ser desenhado muito antes de subir do chão. Ainda sem nome definido, o novo empreendimento da Lotisa em Balneário Camboriú, Santa Catarina, só será oficialmente apresentado ao mercado no fim deste ano, mas já passou por uma das etapas mais complexas de seu desenvolvimento: entender como uma torre de 114 andares vai se comportar diante do vento.
O prédio será erguido onde funcionava uma agência do Bradesco. Para viabilizar a área necessária ao projeto, a Lotisa aproveitou o terreno da antiga agência e incorporou outros terrenos do entorno, formando uma área de aproximadamente 5 mil metros quadrados.
Para estudar o comportamento da torre, a incorporadora contratou a canadense RWDI, consultoria de engenharia de vento que participou dos estudos do Burj Khalifa, em Dubai, edifício de 828 metros e atualmente o mais alto do mundo.
Os testes foram realizados em túnel de vento e reproduziram não apenas o futuro edifício, mas também os prédios relevantes do entorno. O objetivo foi entender como diferentes condições de vento afetariam a estrutura, a fachada e o conforto dos moradores nos pavimentos mais altos.
E os testes chegaram a produzir uma mudança concreta no desenho. Ao aumentar em aproximadamente 18% a abertura no topo da torre, a Lotisa conseguiu reduzir em cerca de 30% os esforços de momento na fundação.
“Em um edifício de 406 metros, uma decisão no topo pode alterar de forma relevante o comportamento estrutural de toda a torre”, afirma Fábio Inthurn, CEO da Lotisa.
Em edifícios convencionais, o vento é uma variável importante. Em uma torre de mais de 400 metros, ele passa a ser um dos elementos centrais do projeto. Rajadas e mudanças na direção do vento podem provocar movimentos laterais e acelerações nos pavimentos superiores. A estrutura precisa resistir às cargas, mas também limitar as oscilações que podem ser percebidas por quem está dentro do edifício.
A concepção estrutural, mecânica, hidráulica, elétrica e de elevadores está sob responsabilidade da WSP, empresa global de engenharia que também participou de projetos como o One World Trade Center e o Central Park Tower, em Nova York, e o The Shard, em Londres.
A combinação das duas consultorias permite que o projeto seja avaliado tanto pela resistência da estrutura quanto pela forma como a torre interage com o vento.
Mesmo depois de otimizar o formato do edifício, a Lotisa decidiu incluir um sistema adicional para controlar as oscilações.
O projeto terá um Tuned Mass Damper (TMD), ou amortecedor de massa sintonizada, com mais de 700 toneladas, instalado na parte superior da torre.
O equipamento funciona como uma massa controlada que se movimenta em sentido contrário às oscilações do edifício provocadas pelo vento, reduzindo a sensação de movimento nos pavimentos superiores.
Segundo Inthurn, o sistema não foi adotado para corrigir um problema estrutural. A ideia é atuar como uma camada adicional de conforto.
“O fato de um único sistema atender às necessidades de conforto do projeto é resultado de uma concepção estrutural e aerodinâmica muito bem resolvida desde a origem”, afirma.
Balneário Camboriú combina ventos marítimos, relevo e uma concentração elevada de edifícios altos. Para a Lotisa, isso torna insuficiente analisar apenas o comportamento isolado da nova torre.
Nos testes da RWDI, o modelo reproduziu também os prédios vizinhos relevantes. A intenção foi simular a interação entre as construções e entender como o conjunto altera a circulação do vento.
Os estudos também avaliaram o comportamento no nível da rua. Segundo a incorporadora, os resultados não apontaram alterações relevantes na dinâmica dos ventos já existente na região.
O impacto do sombreamento também foi analisado no Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), que indicou efeito reduzido e compatível com a dinâmica urbana existente.
R$ 2 bilhões em vendas e R$ 4 milhões em engenharia
A escala da engenharia acompanha a do empreendimento. A Lotisa afirma já ter investido mais de US$ 4 milhões em estudos e projetos de engenharia.
O empreendimento terá 406 metros de altura e 114 pavimentos, com 165 unidades residenciais. Os apartamentos terão quatro suítes e áreas a partir de aproximadamente 237 metros quadrados, além de 18 penthouses. Os preços começam em cerca de R$ 10 milhões, e o Valor Geral de Vendas (VGV) estimado supera R$ 2 bilhões.
Segundo a empresa, equipamentos e soluções destinados ao comportamento da torre sob ação do vento representam aproximadamente 5% do custo total da obra.
O terreno tem cerca de 5 mil metros quadrados e chegou à Lotisa por meio de uma parceria com o Bradesco, que tinha uma agência no local. A incorporadora, que tem atuação tradicional em Itajaí e Praia Brava, decidiu usar o projeto como sua entrada no centro de Balneário Camboriú.
“Se a Lotisa fosse entrar no centro de Balneário Camboriú, deveria ser com um projeto realmente excepcional”, afirma Inthurn.
A altura é só uma parte da aposta
Apesar de a altura ser um dos principais elementos de marketing do projeto, a Lotisa afirma que não pretende posicionar o empreendimento apenas como uma disputa pelo número de metros.
O conceito é de alto luxo, com foco em arquitetura, conforto, wellness, tecnologia e acabamentos.
“A altura é apenas um número. O que realmente importa é a qualidade final do produto e a experiência que ele proporciona no dia a dia”, afirma o CEO.
O lançamento está previsto para dezembro de 2026, com início das obras em fevereiro de 2027. A entrega deve ocorrer entre seis e sete anos depois.
A Lotisa afirma que já possui outros dois projetos planejados para Balneário Camboriú em 2027 e 2028. O landbank da empresa supera R$ 5 bilhões em VGV potencial, formado em grande parte por terrenos adquiridos nos últimos cinco anos.
A intenção, segundo a companhia, é crescer sem abandonar o ritmo de expansão controlado que marcou sua trajetória de 21 anos.
