Ex-CEO da American Express diz quando líderes devem falar de política: ‘Você deveria se importar’
Ken Chenault afirma que temas como democracia e direito ao voto exigem posicionamento público de quem comanda empresas

Quando um CEO fala de política, investidores, clientes e funcionários costumam ficar apreensivos. Para Ken Chenault, ex-CEO da American Express, há temas em que o silêncio não é uma opção, mesmo quando o assunto não afeta diretamente o negócio.
Em entrevista, Chenault argumentou que ameaças a instituições e processos democráticos podem gerar instabilidade política e econômica capaz de prejudicar empresas de qualquer setor.
“Se você quer construir uma empresa duradoura, deveria se importar com o que acontece na nossa sociedade”, diz Chenault. Ele passou 37 anos na American Express, quase 17 deles como CEO, deixou o cargo em 2018 e hoje é chairman e diretor-gerente da gestora de venture capital General Catalyst. As informações foram retiradas de CNBC Make It.
Quando o silêncio deixa de ser neutro
Chenault não defende que líderes comentem toda e qualquer pauta política. O critério, segundo ele, é a perspectiva de longo prazo sobre riscos e oportunidades que podem afetar a companhia.
A entrevista aconteceu às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, em meio ao debate sobre o reconhecimento do resultado das urnas. O executivo disse que não ficaria em silêncio caso o veredicto da eleição não fosse aceito. “Nada é mais fundamental do que preservar e fortalecer nossa democracia e o direito ao voto”, afirma.
O posicionamento não é novidade na trajetória de Chenault, um dos primeiros CEOs negros de uma empresa da Fortune 500. Depois da crise financeira de 2008, ele defendeu publicamente que o setor financeiro aceitasse mais supervisão regulatória. Em 2021, ao lado de Ken Frazier, ex-CEO da Merck, convocou líderes empresariais a reagir a iniciativas que restringiam o acesso ao voto no país.
O que dizem os dados: o público prefere CEOs discretos, com uma exceção
A posição de Chenault vai contra o que parte da pesquisa acadêmica recomenda. Um estudo publicado em 2025 no Strategic Management Journal por pesquisadores de Cornell, Columbia e Harvard mostrou que, em média, as pessoas preferem que líderes empresariais evitem temas políticos divisivos. O ativismo de CEOs polariza: aumenta as reações muito positivas, mas não o suficiente para compensar as negativas.
“A mensagem geral é que parece haver mais a perder do que a ganhar”, diz Tommaso Bondi, professor da Cornell Tech e um dos autores, em relação a temas que dividem a opinião pública quase ao meio.
O mesmo estudo traz uma nuance que dialoga com o argumento de Chenault. Os pesquisadores também testaram um tema menos polarizador, a certificação do resultado eleitoral pelo Congresso americano após os ataques de 6 de janeiro de 2021, com o qual cerca de 74% da população concordava. Em temas desse tipo, de opinião majoritária, um posicionamento alinhado ao consenso melhorou a percepção sobre a empresa.
Investidores e funcionários puxam para lados diferentes
Do lado do mercado financeiro, uma pesquisa da Universidade de Iowa publicada na Contemporary Accounting Research mostrou que o silêncio do CEO gerou entre investidores a mesma reação positiva de um posicionamento com o qual eles concordavam. Já declarações das quais discordavam provocaram reação negativa.
O próprio autor, o professor Michael Durney, faz uma ressalva: o investidor é só uma das partes interessadas, e a conclusão não deve ser que CEOs precisam evitar temas controversos.
Entre funcionários, a expectativa costuma ser outra. No Edelman Trust Barometer de 2022, 60% dos entrevistados disseram esperar, ao avaliar uma vaga, que o CEO fale publicamente sobre temas sociais e políticos que consideram importantes. Ainda assim, edições anteriores da pesquisa mostram que, nos Estados Unidos e na Índia, mais pessoas achavam que CEOs estavam envolvidos demais em questões políticas do que de menos.
Como líderes podem decidir quando falar
Os estudos e a experiência de Chenault apontam alguns critérios que ajudam executivos a decidir se devem ou não se posicionar:
- Conexão com o negócio: o tema afeta, no curto ou no longo prazo, a operação, os funcionários ou os clientes da empresa?
- Grau de consenso: a questão divide a sociedade ao meio ou conta com apoio amplo? Segundo a pesquisa de Cornell, o risco reputacional é maior no primeiro caso.
- Coerência com valores: a Edelman recomenda que CEOs alinhem com o conselho os temas prioritários e garantam que o discurso seja consistente com o propósito e os valores da companhia.
Para quem comanda empresas, o silêncio também é uma decisão. A diferença está em tomá-la de forma deliberada.
