Ex-dirigente chinês é condenado à morte por propinas de R$ 1,5 bilhão

Um tribunal da província chinesa de Jiangsu condenou à morte o ex-funcionário público Yang Youlin, considerado culpado por receber mais de 2,2 bilhões de yuans (cerca de R$ 1,5 bilhão) em propinas ao longo de 30 anos. A punição é uma das mais severas aplicadas por crimes econômicos na China nos últimos anos e faz parte da campanha anticorrupção conduzida pelo presidente Xi Jinping.
Yang, de 69 anos, ocupou diversos cargos na administração da cidade de Nanjing entre 1993 e 2023, incluindo o de diretor-executivo adjunto do comitê gestor da Zona de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico da cidade.
Segundo o Tribunal Popular Intermediário de Changzhou, o ex-dirigente foi condenado por corrupção, peculato, apropriação indevida de recursos públicos, abuso de poder e lavagem de dinheiro.
De acordo com a decisão, publicada pelo South China Morning Post, Yang utilizou os cargos que ocupava para favorecer empresas e empresários em contratos de engenharia, operações comerciais, transferências de terras e financiamentos, recebendo em troca dinheiro e outros bens de alto valor.
A corte também concluiu que ele participou do desvio de 12 milhões de yuans em recursos públicos entre 2014 e 2016 e pagou mais de 25 milhões de yuans em propinas a outros funcionários entre 2005 e 2023 para obter vantagens indevidas.
Além da pena de morte, Yang teve todos os direitos políticos cassados de forma vitalícia, sofreu confisco integral de seus bens e teve os recursos obtidos ilegalmente incorporados ao Tesouro chinês. As autoridades também receberam autorização para continuar recuperando valores que ainda não tenham sido localizados.
Apesar de ter colaborado com as investigações, confessado os crimes e manifestado arrependimento perante o tribunal, os juízes concluíram que a gravidade das infrações era suficiente para impedir qualquer redução da pena.
Como funciona a campanha anticorrupção de Xi Jinping
O caso de Yang integra a campanha anticorrupção lançada por Xi Jinping logo apósassumir a liderança do Partido Comunista Chinês, em 2012. Desde então, o combate à corrupção tornou-se uma das principais marcas de seu governo.
Xi Jinping: líder chinês fez do combate à corrupção um dos marcos de seu governo. (Brendan Smialowski/AFP)
Xi relaciona o enfrentamento da corrupção à própria sobrevivência do Partido Comunista no poder. A ofensiva prometeu não deixar "pedra sobre pedra" e atingiu tanto autoridades de alto escalão quanto funcionários de níveis inferiores, estratégia conhecida na China como o combate aos "tigres e moscas".
Segundo levantamento publicado pelo SCMP, a campanha alcançou seu primeiro pico em 2014, voltou a ganhar força em 2020 e permanece intensa. Apenas em 2025, 65 altos dirigentes foram investigados pela Comissão Central de Inspeção Disciplinar (CCDI), principal órgão anticorrupção do país, contra 19 em 2013.
Mais da metade dos investigados ocupava cargos em governos locais, enquanto cerca de um quinto atuava em órgãos centrais do governo ou do Partido Comunista em Pequim. A campanha também passou a atingir integrantes dos próprios órgãos disciplinares responsáveis pelas investigações.
Segundo a BBC, ao longo de mais de uma década, milhões de funcionários públicos foram advertidos, punidos, afastados ou presos. Somente em 2025, quase um milhão de pessoas receberam algum tipo de sanção disciplinar, embora essas punições variem desde advertências até expulsão do partido e prisão.
A campanha também alcançou setores considerados estratégicos pelo governo, como as Forças Armadas, o sistema financeiro e empresas de tecnologia.
Penas de morte por crimes econômicos
Embora Pequim apresente a campanha como um esforço para fortalecer oPartido Comunista e combater um problema que havia se tornado disseminado antes da chegada de Xi ao poder, críticos afirmam que a ofensiva também tem servido para eliminar adversários políticos e reforçar o controle do presidente sobre o partido e o Estado.
Especialistas ouvidos pela BBC afirmam que as investigações cumprem um papel duplo. Ao mesmo tempo que combatem casos reais de corrupção, elas garantem disciplina, lealdade política e unidade dentro da estrutura partidária.
Apesar da intensidade da campanha, penas de morte por crimes econômicos continuam sendo raras na China. Elas costumam ser reservadas para casos envolvendo valores extremamente elevados.
Nos últimos anos, poucos condenados receberam esse tipo de punição. Em 2021, o ex-presidente de uma estatal financeira Lai Xiaomin foi executado após receber cerca de 1,8 bilhão de yuans em propinas. Em 2024, Li Jianping, ex-funcionário da Mongólia Interior, também foi executado por corrupção e peculato envolvendo mais de 3 bilhões de yuans.
Em muitos outros processos, os tribunais optam por aplicar prisão ou pena de morte com suspensão, que posteriormente pode ser convertida em prisão perpétua.
