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04/11/2026
8 min

Ex-Eletrobras: chuva barateia energia, mas Axia quase dobra lucro em nove meses

Preço maior no mercado livre segura a geração, mas lucro do trimestre recua 19%

Ex-Eletrobras: chuva barateia energia, mas Axia quase dobra lucro em nove meses

A Axia Energia (AXIA3), antiga Eletrobras, fechou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido ajustado de R$ 1,759 bilhão, queda de 19% em relação aos R$ 2,176 bilhões de igual período de 2025. O número do trimestre esconde um ano bem mais forte. De janeiro a setembro, o lucro ajustado somou R$ 7,071 bilhões, alta de 98,3% sobre os R$ 3,565 bilhões dos nove primeiros meses do ano passado.

A operação também andou para a frente. O Ebitda regulatório ajustado, que mede o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização pelas regras da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), subiu 8,4%, para R$ 6,915 bilhões.

O avanço veio mesmo sem a contribuição das usinas térmicas, vendidas em maio e outubro de 2025. Excluído o resultado dessas usinas da base de comparação, o crescimento foi de R$ 497 milhões.

Chuva demais, preço de menos

O trimestre foi marcado por um fenômeno pouco comum para o período seco. A energia natural afluente, indicador que mede o volume de água que chega aos rios das hidrelétricas, terminou setembro em 176% da média histórica no Sistema Interligado Nacional, acima do máximo registrado nos cinco anos anteriores.

Para a Axia, dona de 47 hidrelétricas, isso teve dois efeitos.

O primeiro foi positivo. A geração líquida cresceu 13,5%, para 27,8 terawatts-hora (TWh), e o GSF, índice que compara quanto as hidrelétricas efetivamente produzem com a energia que estão autorizadas a vender, subiu de 64,9% para 76,9%. Quando esse indicador fica abaixo de 100%, a geradora precisa comprar energia de terceiros para honrar contratos. Quanto mais perto de 100%, menor esse custo.

O segundo efeito foi negativo. Com mais água disponível em todo o sistema, o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), valor usado para acertar as sobras e faltas de energia no mercado de curto prazo, despencou. No Sudeste, a média do trimestre foi de R$ 129,80 por megawatt-hora (MWh), quase metade dos R$ 252,43 de um ano antes. A margem da energia negociada nesse ambiente encolheu na mesma direção.

Vender menos, cobrar mais

A Axia vendeu 26,1 TWh no trimestre, volume 11,2% menor que no terceiro trimestre de 2025. A maior parte da queda está na energia em regime de cotas, modelo em que as usinas recebem apenas uma tarifa regulada para cobrir operação e manutenção. Esse volume caiu 41,3%, para 3 TWh, por causa da descotização prevista na privatização, que libera gradualmente a energia dessas usinas para ser vendida a preço de mercado.

Essa energia liberada vai para o mercado livre, onde grandes consumidores negociam contratos diretamente com os geradores. Ali, o preço médio da Axia subiu 18,6%, de R$ 164,89 para R$ 195,60 por MWh. Segundo a companhia, o preço mais alto foi a principal alavanca do resultado no mercado livre.

Na soma, a margem de contribuição da geração cresceu 9,1%, para R$ 3,071 bilhões. Na parte ligada ao mercado livre e ao mercado de curto prazo, a margem por MWh recuou de R$ 88 para R$ 75, efeito do PLD mais baixo, mas o volume disponível para venda aumentou 29%. A contribuição desse bloco subiu 10,6%, para R$ 1,754 bilhão.

Na comparação com o segundo trimestre, a geração perdeu fôlego. A margem caiu 15,9%, depois de um período em que o GSF havia chegado a 99,7%.

Transmissão acelera

No negócio de linhas de transmissão, a margem de contribuição subiu 8,3%, para R$ 4,533 bilhões. O avanço reflete o aumento da Receita Anual Permitida (RAP), valor que a Aneel autoriza cada transmissora a receber pela disponibilidade de suas linhas e subestações. A RAP do trimestre passou de R$ 4,134 bilhões para R$ 4,451 bilhões, com R$ 191 milhões vindos do reajuste pela inflação, R$ 106 milhões de projetos que entraram em operação e R$ 41 milhões da incorporação da IE Garanhuns.

É também na transmissão que a Axia concentra o dinheiro novo. Os investimentos totais somaram R$ 2,855 bilhões no trimestre, alta de 6%, e R$ 7,327 bilhões no acumulado do ano, 28% acima de 2025. Os aportes em ampliação da rede, ligados a projetos arrematados em leilões, saltaram de R$ 135 milhões para R$ 681 milhões.

A companhia toca hoje 269 empreendimentos de grande porte, com investimento estimado em R$ 15,2 bilhões. Quando estiverem prontos, devem adicionar R$ 2 bilhões em RAP entre 2026 e 2030.

Por que o lucro caiu

A Axia publica seus números em duas visões. A societária segue o padrão contábil internacional (IFRS), exigido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A regulatória segue as regras da Aneel e, na transmissão, fica mais próxima do que a empresa efetivamente recebe em caixa. O lucro que recuou 19% é o da visão societária.

Nessa conta, o Ebitda ajustado caiu 23%, para R$ 4,533 bilhões. A base de comparação pesa. No terceiro trimestre de 2025, a empresa havia registrado um efeito positivo de R$ 303 milhões com a remensuração de contratos de transmissão e um resultado de R$ 1,265 bilhão em participações em outras empresas, inflado por R$ 649 milhões da Transnorte Energia. Neste ano, as participações renderam R$ 403 milhões. As provisões também cresceram, de R$ 18 milhões para R$ 235 milhões.

Parte dessa perda foi compensada abaixo da linha operacional. O resultado financeiro negativo encolheu 33%, de R$ 2,385 bilhões para R$ 1,589 bilhão, e a linha de imposto de renda virou um crédito de R$ 125 milhões, ante despesa de R$ 173 milhões um ano antes.

A empresa também apertou os custos. As despesas com pessoal, material, serviços e outros (PMSO) recuaram 10,4%, para R$ 1,381 bilhão. Só com pessoal, o gasto ajustado caiu de R$ 750 milhões para R$ 652 milhões.

Na visão regulatória, o lucro ajustado subiu 76,5%, para R$ 3,369 bilhões. Sem nenhum ajuste, o lucro societário foi de R$ 1,113 bilhão, revertendo o prejuízo de R$ 5,448 bilhões registrado no terceiro trimestre de 2025, quando a companhia contabilizou uma perda de R$ 7,071 bilhões com alienação de ativos.

Dívida maior e mais barata

A dívida líquida terminou setembro em R$ 47,568 bilhões, R$ 4,991 bilhões acima de um ano antes. O aumento acompanha uma ofensiva de captações. De julho a outubro, a Axia levantou R$ 14,3 bilhões, com R$ 6,6 bilhões em debêntures, R$ 4 bilhões em operações com bancos, R$ 1,8 bilhão em renovações e R$ 1,9 bilhão com o BNDES, sendo R$ 1,4 bilhão para o Parque Eólico Coxilha Negra e R$ 0,5 bilhão pelo Fundo Clima, ambos com prazo de 20 anos.

O custo médio da dívida caiu de CDI + 0,64% ao ano para CDI + 0,19%, e o prazo médio chegou a 56,3 meses. A relação entre dívida líquida e Ebitda regulatório ajustado dos últimos 12 meses ficou em 1,7 vez, abaixo das 1,9 vez de setembro de 2025.

No caixa do trimestre, a Axia também desembolsou R$ 1,5 bilhão na compra de debêntures conversíveis em ações emitidas pela Eletronuclear.

Dinheiro para o acionista

Em setembro, o conselho de administração aprovou até R$ 4 bilhões de capital a ser distribuído aos acionistas com base no resultado parcial do segundo semestre. Somados aos até R$ 7,7 bilhões aprovados no primeiro semestre, o total do ano chega a R$ 11,7 bilhões. Em novembro, restavam R$ 515 milhões desse montante a alocar.

Em outubro, a empresa anunciou a sexta operação de resgate ou conversão de ações preferenciais classe C (PNC), no valor de R$ 3,48 bilhões, com pagamento previsto para esta sexta-feira, 6. No ano, 32,54% dessas ações foram resgatadas e 24,53% convertidas em ordinárias. Restam 260,5 milhões de PNCs.

Passivo bilionário encolhe

Um dos maiores riscos jurídicos herdados da era estatal segue diminuindo. O estoque de provisões para processos ligados ao empréstimo compulsório, cobrança instituída nos anos 1960 sobre a conta de luz de consumidores industriais para financiar o setor elétrico e cuja devolução gerou milhares de ações na Justiça, terminou o trimestre em R$ 10,6 bilhões.

O valor é R$ 1,1 bilhão menor que um ano antes. Desde o terceiro trimestre de 2022, quando a companhia passou a negociar acordos com desconto, o estoque caiu R$ 15,2 bilhões, mesmo com R$ 3,5 bilhões de correção monetária no período. Os acordos também eliminaram R$ 11,2 bilhões em riscos que nem chegavam a estar provisionados no balanço.

O que vem pela frente

O balanço energético da companhia mostra quanto da produção futura ainda não tem comprador. Considerando a estimativa de risco hidrológico, entre 19% e 41% da energia de 2027 e entre 23% e 56% da de 2028 seguem descontratadas. Na prática, isso deixa a Axia exposta aos preços de mercado nos próximos anos. Os contratos já fechados para 2027 têm preço médio entre R$ 200 e R$ 230 por MWh.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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