Ex-Mastercard cria o 'Tinder' para compra e venda de pequenas empresas e mira R$ 2 bilhões

Quando uma pequena empresa fecha as portas, nem sempre falta cliente ou faturamento. Muitas vezes, falta alguém para assumir o negócio.Sem sucessor, o caminho costuma ser previsível. Funcionários são demitidos, equipamentos entram em liquidação e o imóvel vira o ativo mais valioso da operação. O negócio desaparece antes mesmo de alguém considerar comprá-lo.
Foi esse cenário que levou Mary Mizuno a trocar uma carreira de mais de três décadas em bancos e empresas de meios de pagamento pela criação de uma startup.
Depois de ocupar cargos de liderança em empresas como Mastercard, Citi e Santander, a executiva fundou a SoM&A, plataforma que pretende transformar a compra e venda de pequenas e médias empresas em um processo parecido com um aplicativo de relacionamento. Compradores e vendedores criam seus perfis, a inteligência artificial cruza dezenas de critérios e sugere os pares com maior potencial para fechar negócio.
É o Tinder dos M&As. A empresa pretende digitalizar praticamente toda a jornada de uma operação de fusão e aquisição, desde o valuation até a assinatura do contrato.
"O M&A sempre foi tratado como uma oportunidade reservada às grandes empresas", afirma Mizuno. "Queremos democratizar esse processo para pequenas e médias empresas."
A ambição acompanha o tamanho da oportunidade. A startup projeta concluir 6 mil operações anuais até o fim de 2027 e faturar R$ 2,1 bilhões por ano em taxas de sucesso sobre os negócios fechados."Estamos apenas começando", diz.
O mercado bilionário de compra e venda de PMEs
O mercado brasileiro de fusões e aquisições ainda concentra boa parte das operações em empresas de maior porte.
Segundo dados citados pela SoM&A, o país registrou 1.581 transações de M&A em 2025, movimentando cerca de R$ 51 bilhões. Desse total, aproximadamente R$ 14 bilhões vieram de operações envolvendo empresas do chamado middle market, com receitas entre R$ 20 milhões e R$ 200 milhões. Para Mizuno, o próximo movimento natural será alcançar empresas ainda menores.
Hoje, boutiques especializadas costumam atender companhias com faturamento acima de R$ 50 milhões. A lógica faz sentido do ponto de vista financeiro. Avaliação, auditoria, análise jurídica e negociação exigem horas de trabalho especializado, o que torna inviável atender operações menores.
A consequência aparece em um universo pouco explorado. O Brasil reúne 25,9 milhões de CNPJs classificados como pequenas e médias empresas. Elas representam cerca de 97% das empresas do país, concentram 52% dos empregos formais e respondem por aproximadamente 30% do PIB. Desse total, 18,8 milhões faturam menos de R$ 50 milhões por ano, justamente o público escolhido pela startup.
A estimativa da empresa aponta um mercado potencial de R$ 94 bilhões anuais.
"O Brasil só vai ganhar produtividade quando as pequenas e médias empresas ganharem produtividade", diz Mizuno.
Como a SoM&A foi criada
A fundadora passou boa parte da carreira em meios de pagamento.
Foi a primeira executiva promovida da Credicard para o Citi, liderou a área de marketing do Santander, assumiu a operação de meios de pagamento após a integração com o Banespa e encerrou a trajetória corporativa como vice-presidente da Mastercard para a América do Sul.
Em vez de seguir no setor financeiro, decidiu estudar inovação no Vale do Silício. Voltou ao Brasil para criar uma empresa de chatbots voltada ao atendimento de grandes companhias, entre elas Citi, Banco PAN, Eletropaulo e Magazine Luiza. O negócio foi vendido anos depois.
Quer receber uma mentoria gratuita no seu negócio? Inscreva-se no Choque de GestãoA ideia da SoM&A surgiu durante uma certificação para conselheiros de empresas familiares. Ao acompanhar casos de sucessão, Mizuno percebeu um padrão.
"Quando uma empresa familiar enfrenta um problema sucessório, muitas vezes demite os funcionários, vende os equipamentos e sobra apenas o imóvel", afirma.
Ela decidiu pesquisar modelos internacionais e encontrou uma plataforma japonesa que utilizava inteligência artificial para aproximar compradores e vendedores de pequenas empresas.
A empresa virou unicórnio. O conceito serviu de inspiração, mas o modelo precisou ser adaptado à realidade brasileira.
Como funciona o "Tinder" das PMEs
A SoM&A funciona por assinatura. Empresários interessados em vender ou comprar um negócio pagam o equivalente a um salário mínimo por ano para acessar a plataforma.
Depois da adesão, recebem um valuation preliminar, análise de crédito, certidões negativas, due diligence, simuladores financeiros e acesso ao mecanismo de matchmaking.
A plataforma conecta APIs de tribunais, bureaus de crédito e bases públicas para reunir informações sobre processos judiciais, ações trabalhistas, endividamento, certidões e outros indicadores relevantes para uma negociação.
Na etapa seguinte entra a inteligência artificial. Desenvolvido sobre infraestrutura da AWS, o algoritmo cruza localização, setor de atuação, faixa de receita, valor do negócio, capacidade financeira, apetite ao crédito e outras variáveis para sugerir entre dez e vinte compradores ou vendedores com maior probabilidade de fechar negócio.
Segundo Mizuno, não existe hoje no Brasil uma plataforma que reúna valuation, due diligence, análise de risco, matchmaking e gestão da negociação em um único ambiente.
Por que a SoM&A começou pelas franquias
Embora o objetivo seja atender empresas de diferentes segmentos, a SoM&A iniciou sua operação pelo franchising.
O setor movimenta mais de R$ 300 bilhões por ano, mantém crescimento recorrente e registra milhares de repasses de unidades anualmente.
Além disso, boa parte das operações envolve pequenos empresários. Hoje a plataforma reúne negociações de franquias como Lupo, Óticas Center e GiOlaser, além de empresas de logística e cibersegurança com faturamento entre R$ 5 milhões e R$ 15 milhões.
Para Mizuno, vender uma empresa ainda enfrenta resistência cultural no país.
"No Brasil, vender uma empresa ainda parece sinal de que o negócio deu errado. Lá fora, faz parte do ciclo natural de um negócio", afirma.
Na visão da executiva, comprar uma operação existente também costuma ser mais previsível do que começar uma empresa do zero. O comprador encontra histórico financeiro, clientes, equipe treinada, ponto comercial validado e margem conhecida. Com uma due diligence estruturada, reduz ainda mais o risco da decisão.
A SoM&A ainda opera em fase de MVP. Todo o desenvolvimento ocorreu com capital próprio.
O próximo movimento será buscar investidores para acelerar a expansão da plataforma, fortalecer a marca e ampliar a operação comercial.
A meta passa longe de construir apenas mais um marketplace de empresas à venda. A fundadora quer criar uma infraestrutura para um mercado que, até agora, permaneceu restrito às grandes companhias.
"Até hoje, só as grandes empresas tiveram acesso a esse processo. A tecnologia permite mudar essa lógica", afirma Mizuno.
