Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOLACS
28/09/2026
8 min

Exame para revelar a idade real do corpo vira aposta de R$ 160 milhões da dona do Delboni e Alta

Exame compara a idade biológica do organismo com a idade cronológica a partir da análise de estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos

Exame para revelar a idade real do corpo vira aposta de R$ 160 milhões da dona do Delboni e Alta
RESUMO +

Após faturar R$ 11,17 bilhões em 2025, a Dasa, maior empresa de medicina diagnóstica do Brasil, prevê mais de R$ 160 milhões em receitas em cinco anos com produtos de longevidade do Alta Diagnósticos, sua marca premium. A estratégia inclui exame de idade biológica por telômeros, núcleo de memória, check-ups segmentados, acompanhamento metabólico e ampliação dos serviços domiciliares.

Longevidade virou o assunto do momento.

Exames para entender como o corpo envelhece, alimentação personalizada, acompanhamento do metabolismo e serviços para preservar a saúde por mais tempo entraram no radar de médicos, empresas e consumidores.

O movimento acompanha uma mudança simples: as pessoas vão viver mais. E uma parcela delas está disposta a gastar para tentar viver melhor.

A maior empresa de medicina diagnóstica do Brasil está com os dois olhos nessa tendência. A Dasa, dona de marcas como Delboni, Lavoisier, Sérgio Franco e Alta Diagnósticos, registrou receita líquida de vendas e serviços de 11,17 bilhões de reais em 2025.

Agora, quer usar o Alta, sua bandeira voltada ao público premium, para avançar em exames, check-ups e serviços ligados à longevidade.

Há dinheiro nessa conta. A empresa estima um potencial de captura de mais de 160 milhões de reais em receita nos primeiros 5 anos com novos produtos relacionados ao envelhecimento saudável. Uma das primeiras novidades é um exame que compara a idade biológica do organismo com a idade cronológica a partir da análise dos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos.

“Vivemos hoje no mercado um hype gigante onde se fala de longevidade com todo tipo de coisa. E optamos, nas nossas discussões estratégicas, por buscar soluções que tivessem rigor técnico. O exame dos telômeros é um exemplo disso”, afirma Claudia Cohn, diretora executiva do Alta Diagnósticos e diretora de negócios institucionais da Dasa.

O plano vai além de um novo exame.

O Alta quer aumentar a oferta de serviços, ampliar o atendimento fora de suas unidades e criar produtos para diferentes momentos da vida. A expansão física continuará, mas a companhia vê mais espaço para crescer levando exames e outros procedimentos até casas, escritórios e condomínios.

Por que a longevidade entrou no radar da Dasa

A demografia ajuda a explicar a aposta.

Segundo projeções do IBGE citadas pela companhia, a população brasileira com mais de 60 anos deve triplicar até 2050. A Dasa também afirma que os gastos em saúde da população com mais de 50 anos somaram 247 bilhões de reais em 2024 e podem crescer mais de 120% até 2044.

É uma mudança que afeta diretamente o negócio de diagnósticos. Uma população mais velha tende a conviver por mais tempo com doenças crônicas e precisa acompanhar indicadores de saúde com maior frequência.

Mas há outro movimento acontecendo ao mesmo tempo. Uma parcela dos consumidores passou a buscar exames antes do aparecimento de uma doença. Quer entender metabolismo, riscos genéticos, saúde cognitiva e sinais associados ao envelhecimento.

É justamente esse público que o Alta tenta capturar.

“Tem que olhar as tendências do mercado”, afirma Claudia. “A gente tem o crescimento tradicional da solicitação do médico, mas também tem demandas. Tivemos digitalização e muitos pacientes fazem agendamentos digitalmente. Temos tanto a experiência quanto soluções diagnósticas e procedimentos para que esse paciente seja bem cuidado.”

A estratégia coloca o Alta no encontro de dois mercados: o de medicina diagnóstica e o de wellness, conjunto de produtos e serviços voltados ao bem-estar e à manutenção da saúde.

A Dasa, porém, tenta estabelecer uma fronteira para essa atuação. Claudia afirma que o laboratório não pretende ocupar o lugar do médico que acompanha o paciente.

“Para a longevidade, nós não somos uma solução completa. Somos um apoio diagnóstico para o médico que trata, cuida e trabalha longevidade. Somos uma parte de um elo”, afirma.

Um exame para descobrir a idade do corpo

A principal novidade dessa frente é o exame de Idade Biológica por Comprimento de Telômero.

Os telômeros são estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos e tendem a encurtar ao longo da vida. O exame busca estimar a idade biológica do organismo e compará-la à idade registrada na certidão de nascimento.

O teste chega ao Alta por meio de uma parceria com a espanhola Life Length, especializada na análise de telômeros.

A proposta não é dizer quanto tempo uma pessoa vai viver. Segundo Claudia, a informação deve servir como mais um indicador para o médico definir estratégias individualizadas de acompanhamento.

“Ele é muito personalizado, o que traz a possibilidade de um trabalho personalizado junto ao seu médico e aos profissionais que cuidam”, afirma. “Esse nicho que usa o Alta está muito demandante de coisas desse tipo, que sejam personalizadas e menos pela estatística de ‘você tem uma probabilidade de ter isso ou aquilo’.”

A incorporação do teste também conecta o Alta à Dasa Genômica, braço do grupo dedicado a análises genéticas e genômicas. A divisão possui mais de 750 exames cadastrados.

De memória a canetas emagrecedoras

A estratégia de longevidade não começou com os telômeros.

O Alta criou, por exemplo, um núcleo de memória para investigar alterações cognitivas e sinais que podem estar relacionados a doenças como Alzheimer e outras demências.

O serviço reúne neurologista clínico, psicólogo e testes específicos. O objetivo é produzir informações para que o médico responsável pelo paciente consiga definir os próximos passos.

“Existem pequenos sinais em que não há entendimento do que aquele sinal significa. A depressão pode até ser um primeiro sinal e sintoma de algumas doenças”, afirma Claudia. “Nosso núcleo da memória tem neurologista clínico, psicólogo, vários profissionais e testes específicos que ajudam no diagnóstico.”

Outro caminho são os check-ups segmentados.

O Alta oferece desde check-up executivo até avaliações voltadas a atletas. A intenção é criar pacotes menos genéricos e mais relacionados ao perfil e ao momento de cada cliente.

Até o avanço das canetas emagrecedoras entrou na conta.

A companhia possui o Genera Metabolic, exame voltado ao acompanhamento do metabolismo. A ideia é reunir informações que possam ser usadas pelo médico para acompanhar pacientes, inclusive aqueles que utilizam medicamentos para perda de peso.

“Nós temos um acompanhamento para que o médico tenha todos os parâmetros históricos necessários”, afirma Claudia.

Menos laboratórios, mais serviços

O Alta nasceu dentro da Dasa em 2013 como uma tentativa de ocupar o segmento premium de diagnósticos. Hoje são 20 unidades: 15 em São Paulo e 5 no Rio de Janeiro.

A marca também leva parte de seus serviços até o cliente. Além da coleta de exames, oferece em domicílio procedimentos como ultrassom, eletrocardiograma e infusão, de acordo com a disponibilidade e indicação de cada serviço.

A próxima fase de crescimento deve aprofundar esse modelo.

“A gente pretende crescer em serviços”, afirma Claudia. “Vamos ampliar os serviços domiciliares até pelas tendências. A gente vê esse nicho da população em alguns condomínios e locais importantes.”

Novas unidades continuam no radar, mas não devem ser a principal alavanca de expansão.

“Vamos crescer em unidades também, mas menos em número de unidades do que em prestação de serviços e serviços de conveniência”, afirma.

Por enquanto, o foco geográfico continua em São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo Claudia, há demanda para levar o Alta a outras cidades, mas a empresa entende que ainda existe espaço para avançar nas duas praças onde já opera.

A terceira fase do Alta

A mudança também revela um novo papel do Alta dentro da Dasa.

Claudia divide a trajetória da marca em três momentos. Primeiro veio a criação e a adaptação da própria Dasa ao mercado premium. Depois, uma fase de abertura de unidades para alcançar escala. Agora, a companhia entrou em uma etapa mais seletiva.

“O Alta veio ganhando relevância dentro da Dasa. A primeira onda foi uma onda de aculturamento para trabalhar nesse segmento. A segunda foi de expansão e crescimento natural, que precisava acontecer para ter um mínimo de capilaridade”, afirma Claudia.

A terceira etapa muda o foco.

“Essa terceira onda que nós estamos vivendo é uma onda em que a gente estuda muito mais onde crescer com serviços que hoje são demandados e incorporados”, afirma.

É nesse ponto que longevidade e luxo se encontram na estratégia da companhia.

O público que a marca disputa já conta com laboratórios e hospitais de referência à disposição. Por isso, colocar máquinas mais modernas dentro de uma unidade não basta. A disputa passa pela conveniência, pelo atendimento, pela personalização dos exames e, sobretudo, pela confiança dos médicos que prescrevem os testes.

A própria Dasa tem escala para sustentar essa tentativa. O grupo afirma atender mais de 44 milhões de pacientes, reunir mais de 40 marcas de medicina diagnóstica e genômica e realizar mais de 450 milhões de exames por ano. São 840 unidades espalhadas por 13 estados e pelo Distrito Federal.

A briga pelo cliente premium

A longevidade também coloca o Alta em um mercado disputado por grupos que enxergam o consumidor de maior renda como uma oportunidade de aumentar a oferta de serviços.

Para Claudia, o desafio é fazer com que o cliente permaneça ligado à marca mesmo em um cenário no qual seus dados de saúde poderão circular com mais facilidade entre diferentes empresas.

Ela cita o avanço do open care, modelo de compartilhamento e interoperabilidade de informações de saúde, como uma mudança que tende a diminuir o peso do histórico de exames como ferramenta de fidelização.

“No passado, muitas pessoas ficavam em um player por causa dos seus dados: ‘meus exames estão ali’. Isso vai acabar”, afirma. “Então é realmente o vínculo com a marca, com a experiência e, principalmente, talvez eu possa colocar como motivo principal, a referência médica.”

AutorDaniel Giussani
FonteExame
Distribuído por