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InvestMercadosACS
13/10/2026
6 min

Excesso de confiança? Entenda a reação dos mercados às últimas pesquisas eleitorais

Bolsa subiu mais de 8% em uma semana e dólar recuou, mas o sentimento pode mudar, dizem analistas

Excesso de confiança? Entenda a reação dos mercados às últimas pesquisas eleitorais

A divulgação de novas pesquisas para o 2º turno das eleições presidenciais colocou o mercado financeiro brasileiro novamente em modo de cautela nesta terça-feira, 13. Depois de uma semana marcada por recordes na bolsa e forte queda do dólar, o Ibovespa abriu em baixa e a moeda americana voltou a superar a marca de R$ 5.

O movimento ocorre após duas pesquisas divulgadas hoje mostrarem o candidato Flávio Bolsonaro (PL) na frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dentro da margem de erro. O levantamento BTG/Nexus aponta o candidato do PL com 52% dos votos válidos e Lula com 48%.

O resultado é exatamente igual ao registrado pelo Datafolha divulgado em 8 de outubro. Em consonância, na pesquisa Gerp, Flávio também está na frente, com 55% dos votos válidos para o 2º turno, contra 45% de Lula, conforme dados desta manhã.

Já a pesquisa PoderData/AYA mostra uma diferença de 51% para Flávio e 49% para Lula. No levantamento anterior do PoderData/AYA, a diferença entre os candidatos era de seis pontos percentuais. Agora, caiu para dois, depois de Lula avançar dois pontos e Flávio recuar na mesma proporção.

A reação, no entanto, acontece depois de uma arrancada pouco usual dos ativos brasileiros. Na semana passada, o Ibovespa avançou 8,82% e terminou a sexta-feira, 9, aos 209.066,90 pontos, no maior fechamento de sua história.

O dólar recuou 4,43% no mesmo período e encerrou a R$ 4,985. O movimento foi alimentado em boa parte pela leitura de que o resultado do 1º turno aumentava a possibilidade de mudança na condução da política fiscal a partir de 2027, de acordo com analistas ouvidos pela EXAME.

Uma correção depois da euforia do 1º turno

O CEO da Bossa Invest, Antônio Patrus, vê que o comportamento do Ibovespa pode ser explicado por uma combinação de realização de lucros, cautela com as eleições e fatores externos. A intensidade dos ganhos recentes deixou o mercado mais vulnerável a uma correção.

"A pesquisa BTG/Nexus reforça que a eleição permanece competitiva, mas não comprova um acirramento em relação à semana passada", detalhou.

O ponto ajuda a separar dois movimentos que podem parecer contraditórios. O BTG/Nexus não mostrou deterioração da vantagem numérica de Flávio em relação ao Datafolha, mas o PoderData/AYA trouxe uma disputa mais apertada do que em sua própria rodada anterior.

Em outras palavras, as pesquisas não apontam uma virada eleitoral, mas também dificultam a manutenção da leitura de que o segundo turno estaria encaminhado. "Assim, a correção pode refletir uma revisão do excesso de confiança dos investidores, mesmo sem uma mudança clara nas intenções de voto", disse Patrus.

A própria dimensão do rali ajuda a explicar por que pequenas mudanças de percepção conseguem provocar movimentos relevantes.

Depois do 1º turno, ações mais sensíveis aos juros lideraram os ganhos. Magazine Luiza (MGLU3) disparou 60,58% na semana passada, Azzas 2154 (AZZA3) avançou 34,08% e C&A (CEAB3) ganhou 31,46%. MRV, Vamos, Smart Fit e outras companhias voltadas à economia doméstica também apareceram entre as maiores altas.

Pesquisas devolvem incerteza ao 2º turno

Estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle avalia também que a terça-feira começou com um movimento mais defensivo justamente entre os papéis que haviam registrado os maiores ganhos.

"A nossa bolsa aqui certamente sendo destaque negativo, aquelas ações que devem puxar para baixo, aquelas ações que mais subiram recentemente, tirando talvez um pouco dos exageros que a gente viu na semana passada", explicou.

O estrategista pondera que o comportamento da bolsa parece estar mais ligado à realização dos ganhos acumulados do que à formação de uma nova tendência negativa. "O mercado talvez muito mais realizando lucros aqui do que com grandes preocupações ou potenciais mudanças aqui nas pesquisas eleitorais", viu.

O trade eleitoral encontra seus limites

O analista de renda variável da Manchester Investimentos, Felipe Cima, também enxerga a queda desta sessão como parte de uma realização após a forte valorização das ações domésticas.

"Depois da alta relevante que estamos vendo no índice de small caps, estamos vendo uma realização de lucros que parece até natural depois da alta elevada dos últimos dias", ponderou.

"O período de euforia pode acabar ou talvez sofrer algum retrocesso ou parada momentânea, o que é normal quando um candidato que esteja atrás na campanha tenta reagir de forma mais agressiva", acrescentou Cima.

A campanha eleitoral também começa a avançar sobre temas econômicos capazes de mexer com as expectativas para o próximo governo. Entre eles estão a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1 e o debate sobre o próprio ajuste fiscal.

Inflação também freia o entusiasmo

A eleição não é o único fator pressionando os ativos brasileiros, já que o cenário de inflação voltou a incomodar depois que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,82% em setembro e acumulou 4,58% em 12 meses, ultrapassando o teto de 4,5% da meta de inflação.

Nesta terça, o Boletim Focus mostrou a quarta alta consecutiva das projeções para o IPCA de 2026. A mediana passou de 5,01% para 5,22%. Mesmo com a piora das estimativas, as projeções ainda apontam para dois cortes da Selic até dezembro, levando a taxa dos atuais 13,75% para 13,25% ao ano.

Esse equilíbrio é particularmente importante para empresas de varejo e construção. "A expectativa de juros menores favorece essas empresas porque pode reduzir despesas financeiras e estimular compras parceladas. A construção acompanha essa lógica pelo financiamento imobiliário", segundo Patrus.

Entretanto, uma inflação mais resistente limita o espaço para quedas mais rápidas dos juros e pode diminuir parte do impulso que levou ações domésticas a subir dezenas de pontos percentuais em poucos pregões.

Volatilidade deve permanecer na eleição

O cenário externo acrescenta outra camada de incerteza, com preços altos do petróleo, guerras e bolsas internacionais, que seguem interferindo nos ativos brasileiros, ao mesmo tempo em que a Petrobras e outras companhias ligadas a commodities têm peso relevante no Ibovespa.

Na avaliação de Patrus, a combinação pode fazer com que setores diferentes da bolsa reajam de maneira distinta ao longo das próximas sessões. Empresas mais dependentes da atividade doméstica tendem a continuar sensíveis à curva de juros, enquanto produtores de commodities respondem também ao ambiente internacional.

A partir disso, as pesquisas não serão suficientes para sustentar indefinidamente as altas observadas nas ações. Como resume Patrus, a continuidade dos ganhos dependerá se as vendas, margens e geração de caixa das empresas confirmarem a recuperação que os preços das ações começaram a antecipar.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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