Exclusivo: Farmácia, serviço financeiro e postos de gasolina - os novos investimentos do Assaí

O futuro próximo do Assaí não será só de supermercado. Direto da sede da companhia, em São Paulo, Belmiro Gomes, presidente do Assaí, recebe a EXAME com a tranquilidade de quem já enfrentou diferentes crises em mais de quatro décadas de varejo.
Do primeiro emprego como vendedor de sorvete e bóia-fria até a cadeira de CEO do Assaí, o executivo acompanha agora um dos momentos mais desafiadores da companhia: reduzir uma dívida bilionária sem abrir mão de novos negócios.
O plano inclui farmácias, serviços financeiros, reforço em marketplaces, novas lojas e até a entrada no setor de postos de combustíveis.
"Daqui a dez anos, a dívida terá ficado para trás. Os pontos comerciais continuarão lá", afirma Belmiro em entrevista ao De Frente com CEO, direto do seu escritório em São Paulo, que tem uma bancada repleta de troféus.
A estratégia acontece enquanto o Assaí administra os efeitos da compra dos 70 pontos do Extra, realizada em 2021 por cerca de R$ 7 bilhões.
https://youtu.be/yYlvE5XXUm4
A aposta bilionária no Extra
Mesmo com o aumento da inflação, Belmiro afirma que não se arrepende da maior aquisição da história do Assaí.
A compra, segundo o CEO, permitiu acelerar a presença em regiões centrais das grandes cidades e aproximar a companhia das classes A e B. No entanto, a expectativa, em 2021, era de juros próximos de 7%. Atualmente, o cenário é outro.
"Se soubéssemos que a Selic chegaria a 15%, talvez tivéssemos negociado algumas condições de forma diferente. Mas faria novamente", afirma o presidente que assumiu a cadeira em 2011.
Hoje, segundo o executivo, a companhia paga aproximadamente R$ 7 milhões por dia em juros, ou cerca de R$ 2,3 bilhões por ano. Mesmo assim, conseguiu reduzir sua dívida líquida em R$ 1,2 bilhão em 2025.
Para preservar a geração de caixa, a estratégia foi frear a expansão.
"O plano originário era de 15 lojas por ano. Com a questão da Selic, na medida que os juros se manteve, reduzimos os investimentos para controlar a dívida", diz o CEO.
Atualmente, a rede Assaí está em 25 estados, só não está presente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “É um mercado mais fechado para supermercados de fora”, diz Belmiro.
Mesmo com o desafio da dívida, Belmiro afirma que para este ano, a previsão é de inauguração de 5 lojas no estado de São Paulo.
Primeira farmácia chega em julho
Uma das novidades mais importantes é a entrada em um novo segmento. No dia 16 de julho, o CEO conta com exclusiva à EXAME que o Assaí inaugura sua primeira farmácia dentro de uma unidade, localizada na Marginal Tietê, em São Paulo.
O projeto prevê mais de 200 farmácias ao longo dos próximos anos, o que poderá gerar mais de 3 mil empregos.
"Se conseguimos vender alimentos baratos, também podemos vender medicamentos mais baratos", afirma.
As cinco primeiras unidades serão abertas em São Paulo neste ano, e até o final do ano a previsão é abri 25 farmácias. Um curiosidade é que as canetas emagrecedoras chegarão às farmácias após um mês de inauguração.
Veja também: Com novas lojas e 25 farmácias, Assaí prevê abrir 2.500 vagas e aposta em profissionais 50+
Postos de gasolina entraram no radar
Outra possibilidade é a entrada no segmento de combustíveis, algo que já acontece em concorrentes como no antigo Extra e nas unidades do Carrefour.
O projeto, segundo Belmiro, ainda está em estudo, mas a companhia avalia operar postos em suas unidades.
A lógica está no fluxo: são cerca de 17 milhões de veículos passando mensalmente pelos estacionamentos do Assaí.
"Com o avanço da eletrificação, talvez consigamos entregar energia mais barata do que a própria casa do consumidor", afirma.
A primeira iniciativa poderá sair ainda em 2026.
Canetas emagrecedoras vão mudar o varejo alimentar
Belmiro acredita que medicamentos como Ozempic e Wegovy representam uma das maiores revoluções do setor.
A tendência, segundo ele, é de queda no consumo de carboidratos e bebidas alcoólicas e aumento da demanda por proteínas, suplementos e produtos ligados à saúde.
"É uma revolução da medicina e vai impactar todo o setor alimentar", afirma.
Por isso, a entrada em farmácias faz parte de um movimento mais amplo que o executivo chama de "mundo da saúde".
Belmiro Gomes, CEO do Assaí: "Com o avanço da eletrificação, talvez consigamos entregar energia mais barata do que a própria casa do consumidor" (Germano Lüders /Exame)
Mercado Livre, iFood e serviços financeiros
O Assaí também ampliou sua presença digital. Hoje, a companhia é a maior vendedora de alimentos dentro do iFood e iniciou neste ano uma parceria com o Mercado Livre para disponibilizar produtos na plataforma.
Outra frente em desenvolvimento é a financeira.
Após encerrar a parceria exclusiva com o Itaú herdada do GPA, a companhia aguarda aprovação do Banco Central para lançar novos produtos financeiros.
"A companhia estuda expandir seu ecossistema de serviços com soluções como maquininhas de pagamento, programas de cashback, crédito e outros produtos financeiros voltados tanto para consumidores quanto para pequenos comerciantes", afirma Gomes.
O impacto das apostas (bets) para o varejo
Os juros altos não são os únicos vilões do consumo brasileiro, na visão de Belmiro Gomes. Para o CEO do Assaí, as apostas esportivas se transformaram em um novo concorrente do varejo ao disputar uma parcela crescente da renda das famílias e ajudar a alimentar o endividamento da população.
Segundo Belmiro, o atual nível de inadimplência não é compatível com um cenário de desemprego baixo e programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola.
"Não era para nós estarmos no nível de endividamento da população. Parte disso tem a ver com o hábito das apostas", afirma.
Para o executivo, a combinação entre juros elevados e a popularização das plataformas de apostas tem ampliado a pressão sobre as classes mais baixas. De um lado, a Selic em patamares elevados encarece o crédito; de outro, muitos consumidores acabam sendo atraídos pela promessa de ganhos rápidos.
"Na medida em que o juro aperta, a pessoa tem uma expectativa com a aposta. Isso tem levado ao aumento do endividamento", diz.
Belmiro vai além e argumenta que o fenômeno contribui para ampliar a desigualdade social. Enquanto uma parcela da população se beneficia dos rendimentos da renda fixa, grande parte dos brasileiros paga juros elevados e ainda destina parte da renda às apostas. O impacto, segundo ele, é sentido diretamente pelo varejo.
"O Brasil é o país que tem mais acesso a sites de apostas no mundo. Você tem mais acesso a sites de apostas do que ao WhatsApp ou ao YouTube", afirma o CEO. "Além do estrago que isso tem feito na população, é um fenômeno que precisa ser observado".
Menos expansão e mais disciplina financeira
A companhia, que faturou R$ 84,7 bilhões em 2025, deve manter um ritmo mais moderado de crescimento enquanto os juros continuarem elevados.
"Este é um ano para reduzir dívida, preservar margens e implantar novas frentes de negócio. O mercado de consumo continuará desafiador", afirma.
Além das farmácias, futuros postos de gasolinas e serviços financeiros, o Assaí passou a investir também neste ano em marcas próprias. A ideia é avançar de forma moderada, mas sem deixar de inovar no varejo.
"Em mercados mais maduros, a participação das marcas próprias chega a 23%, enquanto no Brasil ainda está perto de 3%. Isso mostra que há espaço para crescer, sempre oferecendo ao consumidor mais uma opção de qualidade e preço," diz Gomes.
A rede Assaí prevê abrir cerca de 3.000 vagas ao longo de 2026, impulsionadas pela abertura das 5 novas lojas, expansão no digital e a entrada no segmento de farmácias no segundo semestre.
Quando Belmiro Gomes assumiu o Assaí, em 2011, a empresa faturava R$ 3 bilhões e tinha 6 mil funcionários. Quinze anos depois, a companhia multiplicou seu tamanho e passou a movimentar R$ 84,7 bilhões por ano, com um quadro de mais de 90 mil funcionários.
"Todo esse crescimento foi sem investimento externo", afirma o CEO.
Belmiro resume a visão que tem guiado o Assaí nos últimos anos. Aos poucos, a companhia está deixando de lado o sobrenome "Atacadista" para consolidar a imagem de um ecossistema de consumo e serviços, capaz de atender desde o consumidor final (que representa hoje 60% do faturamento) até microempreendedores e empresas (que somam cerca de 1 milhão como clientes).
"O nosso objetivo é ser um intermediador entre o público final e empresas, operando com a melhor margem possível", diz. "A companhia está muito voltada para segurar a dívida e preparar as próximas transformações. O ano será de crescimento menor, mas de construção para o longo prazo", diz.
