Exportações somadas de milho, soja e farelo do Brasil ao Irã sofrem pouco apesar da guerra

Os embarques de soja, milho e farelo de soja do Brasil ao Irã, importante destino para essas commodities brasileiras, tiveram neste primeiro semestre um ritmo um pouco menor diante das dificuldades logísticas geradas pela guerra, mas não chegaram a sofrer tanto apesar dos maiores custos envolvidos nas operações, de acordo com dados de agências marítimas, do governo e avaliações de integrantes do mercado.
As exportações dos três produtos para o Irã de janeiro a maio caíram cerca de 3% em relação ao mesmo período do ano passado, para 3,08 milhões de toneladas, segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e da agência marítima Cargonave.
Os números apontaram também que a maior parte do volume — cerca de 1,8 milhão de toneladas– foi embarcado após o início do conflito, em 28 de fevereiro, entre o país persa e os Estados Unidos e Israel. Além disso, houve uma queda de cerca de 900 mil toneladas nos embarques de milho no ano, quase que compensada por maiores volumes de farelo de soja até maio.
Para novos envios ao Irã, considerando a programação de navios até o dia 5 de junho, de acordo com dados da agência marítima Alphamar, há duas embarcações previstas para carregar farelo de soja no Brasil, estável na comparação anual de “line-up”; um navio para soja, ante dois em 2025; e um para milho, situação igual à da mesma data do ano passado.
“Quando olhamos para o momento, um navio de milho mostra um mercado muito desacelerado, considerando todas as tensões, mas você vê que os navios de fato estão passando”, disse o sócio-diretor da Alphamar Agência Marítima, Arthur da Anunciação Neto, à Reuters. Ele citou que esta semana um navio passou pelo Estreito de Ormuz e outro está descarregando no Irã.
As avaliações acontecem em momento em que os embarques de milho do Brasil, que tem no Irã um de seus principais clientes, geralmente ganham força, no segundo semestre.
Para o milho, o “line-up” ainda aponta um número “pequeno, mas também não é nada fora da curva”, disse Neto.
“Quando olhamos o farelo, está equilibrado, mas a queda maior foi soja, até porque faz sentido: você compra soja quando está em momento de maior estabilidade, porque vai processar a carga lá, farelo é algo mais da mão para a boca”, comentou o diretor da Alphamar.
A associação Anec afirmou à Reuters que, se os volumes de milho para o Irã foram menores frente aos 1,9 milhão de toneladas de janeiro a maio do ano passado, eles foram compensados por cargas adicionais de farelo de soja.
“De toda forma, os embarques de milho no primeiro semestre costumam ser menos representativos do que aqueles realizados no segundo semestre… A temporada de exportação de milho ainda está em seu início”, disse a Anec, notando que os envios começam a ganhar ritmo a partir da segunda quinzena de junho e se intensificam ao longo de julho, acompanhando o avanço da colheita da segunda safra.
A Anec manteve sua projeção de embarques de milho do Brasil em 44 milhões de toneladas em 2026, mesmo com a guerra no Irã, que de janeiro a maio foi o terceiro destino do cereal brasileiro, com fatia de 18%, atrás do Egito e Vietnã.
Alternativas e custos maiores
Questionada se teve notícias “washouts” — cancelamentos ou recompras de contrato de venda antecipada — para o Irã, a Anec disse que não. Afirmou ainda que os descarregamentos continuam sendo feitos no país persa, nos portos de Imam Khomeini, Bandar Abbas e Chabahar.
“Imam Khomeini e Bandar Abbas seguem entre os principais pontos de entrada para grãos no país, embora seu acesso marítimo dependa da navegação pelo Estreito de Ormuz. Já Chabahar apresenta uma alternativa logística relevante por estar localizado fora do estreito…, com acesso direto ao Golfo de Omã”, disse a Anec.
O chefe de Pesquisa da corretora Stag International, Chau Hue, disse que em meio a incertezas logísticas — apesar de indicações de que cargas de alimentos têm um fluxo de navegação facilitado –, as vendas de milho para o Irã saem mais caras para os importadores.
“O momento atual é de possibilidade de venda das tradings brasileiras para o Irã, sim, com um prêmio que varia de 50 a 70 centavos de dólar por bushel sobre o valor atual negociado no mercado”, disse ele. “Então, por exemplo, se o prêmio brasileiro para agosto está em torno de 105 a 110 centavos por bushel, o importador iraniano vai ter que pagar de 155 a 180 centavos de ‘basis’ total.”
Dito isso, ele considera que as condições financeiras e de pagamento serão os fatores que vão determinar se o Brasil poderá repetir, em 2026, as mais de 9 milhões de toneladas de milho exportado para o Irã em 2025, quando país islâmico foi o principal destino das mais de 40 milhões de toneladas vendidas ao exterior.
