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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
05/08/2026
8 min

Falido e devendo R$ 1 milhão, ele quis ser CLT — mas saiu da entrevista com um negócio de bilhões

Empresa gaúcha movimentou R$ 1,6 bilhão em consórcios em 2025 e aposta em aquisições para multiplicar por dez esse volume

Falido e devendo R$ 1 milhão, ele quis ser CLT — mas saiu da entrevista com um negócio de bilhões

Quando o gaúcho Cleber Gomes entrou em uma entrevista para ser gerente de uma administradora de consórcios, sua intenção era conseguir o primeiro emprego com carteira assinada da vida. Saiu da conversa sem o cargo, mas com a promessa de entregar algo ele imaginava não existir: uma empresa capaz de montar redes de vendedores para outras administradoras do setor.

Foi assim que começou a tomar forma a Maestria, companhia gaúcha fundada por Gomes e Márcio Müller. Em 2025, a rede movimentou R$ 1,6 bilhão em vendas de consórcios, o dobro dos cerca de R$ 800 milhões registrados no ano anterior. Para 2026, a projeção é chegar a R$ 3 bilhões.

“Em vez de eles me contratarem como CLT para contratar as pessoas, propus ter uma empresa que fizesse esse trabalho”, diz Gomes. “Só que essa empresa não existia. Eu só tinha um projeto.”

A Maestria atua como uma intermediária entre administradoras de consórcio e empresas que comercializam suas cotas. O negócio recruta escritórios e profissionais que já trabalham no segmento, conecta esses parceiros a administradoras e oferece gestão, treinamento, recrutamento, marketing, processos comerciais, tecnologia e soluções financeiras.

Atualmente, a empresa tem mais de 187 operações parceiras e pretende alcançar 300 até o fim de 2026. Depois de se consolidar na Região Sul e entrar em São Paulo e Minas Gerais, a próxima etapa da expansão prevê Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

O plano, no entanto, vai além de aumentar a rede de parceiros. Até 2030, os sócios querem estar com 100 escritórios próprios de consórcio.

Como Gomes virou vendedor

A entrada de Gomes no mercado de consórcios ocorreu bem antes da Maestria. Aos 16 anos, depois que sua família enfrentou uma forte crise financeira, ele começou a vender refrigerantes e cervejas em partidas de futebol. Ficou seis meses no trabalho informal, até perder a mercadoria em uma fiscalização.

Dois anos depois, ingressou na faculdade de Direito, atendendo a um desejo da família, e passou a estagiar na área. Recebia R$ 600 mensais, enquanto a mensalidade do curso custava R$ 500.

Durante uma partida de futebol, um conhecido sugeriu que ele tentasse trabalhar com a venda de consórcios. A promessa era ganhar R$ 500 por semana. Gomes aceitou.

Em 2001, passou a conciliar a faculdade, o estágio e as vendas. Em pouco tempo, o consórcio se tornou sua principal fonte de renda. Primeiro vieram meses de R$ 2 mil, depois R$ 3 mil e R$ 4 mil. Aos 23 anos, conta que já ganhava R$ 10 mil mensais, mais que o dobro de alguns advogados formados que conhecia.

Faltava um semestre para concluir o curso quando abandonou de vez a ideia de exercer a advocacia. O bom desempenho como vendedor levou Gomes a abrir sua primeira empresa de consórcios. A experiência durou pouco. Ele descobriu, da forma mais cara, que saber vender não era suficiente para administrar um negócio.

“Existe uma diferença entre ser um vendedor que ganha dinheiro e ter uma empresa. São coisas totalmente diferentes”, diz. “Ganhei muito dinheiro e fali.

Três falências e uma dívida de R$ 1 milhão

Depois do primeiro fracasso, Gomes voltou a trabalhar como vendedor em uma operação familiar. Passou três anos na atividade, tornou-se parceiro do negócio e, posteriormente, comprou a parte da empresa dedicada aos consórcios.

Aos 30 anos, comandava uma estrutura com 15 vendedores. O negócio crescia, mas problemas de gestão e decisões tomadas sem planejamento provocaram uma nova quebra.

Em 2012, o empresário perdeu o patrimônio e acumulou uma dívida superior a R$ 1 milhão. Segundo ele, foi a terceira vez que uma tentativa empresarial terminou em fracasso.

“Fiz tudo errado. Não tinha maturidade, não tinha conhecimento, era orgulhoso e achava que entendia das coisas”, afirma. “Fali de vez, perdi tudo o que tinha e fiquei devendo R$ 1 milhão.”

Os dois anos seguintes foram marcados por depressão, ganho de peso e divórcio. Com um filho pequeno, Gomes concluiu que não tinha capacidade para voltar a empreender. Decidiu procurar emprego. O problema era que nunca havia trabalhado com carteira assinada.

A oportunidade apareceu em uma seleção para gerente de uma administradora que pretendia expandir sua atuação no Sul. A companhia era o Consórcio Zema, ligado ao grupo empresarial fundado pela família de Romeu Zema, governador de Minas Gerais.

A vaga exigia que o contratado formasse uma estrutura regional, recrutando coordenadores, supervisores e vendedores. Durante a entrevista, Gomes percebeu que poderia substituir essa estrutura por uma prestadora de serviços. 

A proposta foi aceita.

R$ 50 mil emprestados de um agiota

Ter um cliente antes mesmo de abrir a empresa resolveu apenas parte do problema. Gomes ainda precisava de capital, equipe e um sócio que soubesse organizar a operação.

Foi quando procurou Márcio Müller, que já havia trabalhado com ele e tinha um perfil mais voltado à administração e à formação de equipes. Enquanto Gomes assumiu a frente comercial, Müller passou a cuidar da estruturação do negócio.

Para colocar o projeto de pé, os dois recorreram a um empréstimo de R$ 50 mil, obtido, segundo Gomes, com um agiota que cobrava juros de 15%. O empresário situa esse início operacional em 2015, embora o material institucional da companhia informe que a Maestria foi fundada em 2014.

Durante quase uma década, a companhia trabalhou somente na expansão comercial do Consórcio Zema no Sul. A operação usava a identidade da administradora, o que mantinha o nome Maestria praticamente desconhecido fora dos bastidores.

Isso começou a mudar em janeiro de 2025, quando os sócios decidiram fortalecer a marca própria e adicionar novas administradoras ao portfólio. A Zema permaneceu como parceira, mas deixou de ser a única.

A diversificação ajudou a empresa a sair de R$ 800 milhões em consórcios comercializados em 2024 para R$ 1,6 bilhão em 2025. A meta de R$ 3 bilhões para 2026 representa uma nova alta de 87,5%.

“A gente tomou a decisão de se desvincular da marca Zema e trazer a nossa marca, Maestria”, afirma Gomes. “Trouxemos outros produtos para dentro do ecossistema e passamos a abrir e treinar parceiros de negócio.”

Como a Maestria ganha escala

A Maestria atende somente pessoas jurídicas. Seus clientes e parceiros são administradoras e escritórios que comercializam consórcios.

De um lado, a empresa fecha acordos com administradoras interessadas em ganhar presença em determinadas regiões. Em vez de criar uma equipe própria para prospectar e acompanhar representantes, essas companhias usam a rede desenvolvida pela Maestria.

Do outro, a empresa recruta escritórios e profissionais que já atuam no setor. A captação ocorre por canais digitais, indicações e mapeamento de mercado. Em um único mês, a companhia afirma ter cadastrado 95 novos parceiros na Região Sul.

Essas operações recebem acesso aos produtos das administradoras e passam por um processo de estruturação que inclui treinamento comercial, gestão, tecnologia e organização de processos.

O modelo se apoia em um problema vivido pelo próprio fundador: profissionais capazes de vender consórcios, mas sem preparo para transformar a atividade em uma empresa rentável.

“Ele vende, mas não tem lucro. A Maestria resolve esse problema por meio da nossa metodologia, ensinando esse vendedor a ser empresário”, diz Gomes. “Ele pode ter lucro, mas não ter processos. A gente implementa os processos na empresa dele.”

A companhia tem um departamento dedicado ao desenvolvimento de soluções tecnológicas e de inteligência artificial para elevar a produtividade dos parceiros.

A empresa não revelou o faturamento próprio, as margens nem a fórmula exata de remuneração dos contratos. Os valores divulgados de R$ 1,6 bilhão e R$ 3 bilhões correspondem ao volume de consórcios comercializados por meio do ecossistema, e não à receita da Maestria.

De parceiros a escritórios próprios

O próximo passo deverá alterar a estrutura do negócio. No modelo atual, os escritórios mantêm sua independência e podem comercializar produtos de outras redes. A Maestria fornece suporte e acesso às administradoras, mas não controla diretamente essas empresas.

Por meio de um projeto chamado Maestria Digital, a companhia pretende passar a adquirir participações ou assumir o controle de escritórios de vendas.

A meta de Gomes e Müller é chegar a 100 unidades próprias até 2030, todas operando com a metodologia da empresa. Com isso, esperam multiplicar por dez o volume comercializado, dos R$ 3 bilhões projetados para 2026 para R$ 30 bilhões anuais.

“Hoje, o parceiro vende nosso produto, mas é livre para vender outros. Nossa visão até 2030 é sermos donos de 100 escritórios de consórcio”, afirma Gomes.

A expansão ocorre em um momento de crescimento do setor. Em 2025, o sistema de consórcios superou R$ 500 bilhões em créditos comercializados, alta de 32,1% em relação ao ano anterior, segundo números da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios apresentados pela empresa.

O número de cotas vendidas avançou 15%, para 5,16 milhões, enquanto a quantidade de participantes ativos chegou ao recorde de 12,76 milhões. Com os juros elevados, a modalidade ganhou espaço entre consumidores que buscam alternativas ao financiamento tradicional.

A Maestria tem 35 funcionários e inaugurou uma sede própria no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O espaço tem capacidade para receber mais de 100 profissionais.

Para Gomes, porém, a principal medida da reconstrução não foi a expansão da equipe ou o volume de vendas. A dívida de R$ 1 milhão foi integralmente paga, segundo o empresário, mas o aprendizado central veio dos erros que antecederam a Maestria.

“Eu quebrei todas as vezes porque não pedi ajuda. Nunca pedi conselho e sempre achei que sabia as coisas sozinho”, afirma. “Conseguimos pagar tudo, mas aquilo ficou irrelevante perto do que estamos construindo.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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