Família Madalosso investe R$ 8 mi e planeja 8 novas unidades
Aos 63 anos, grupo investe em governança, fábrica própria e novos formatos para crescer sem perder a ligação construída com diferentes gerações de clientes

Quando os irmãos Carlos, Flora e Severino Madalosso abriram um restaurante com seis mesas em Santa Felicidade, em Curitiba, em 1963, o negócio dependia sobretudo do trabalho da família. Seis décadas depois, aquela pequena operação se tornou o maior restaurante da América Latina. Hoje, o restaurante tem capacidade para mais de 4.600 pessoas.
Esse crescimento deu origem a um grupo que agora enfrenta outro tipo de desafio: criar estrutura para dobrar de tamanho nos próximos cinco anos sem diluir a identidade construída ao longo de sua história.
A meta passa por profissionalizar a gestão, ampliar a presença da marca e preparar o negócio para as próximas gerações. Em curso, estão a implantação de processos de governança corporativa e o fortalecimento de áreas estratégicas. Indicadores e metas de longo prazo também ganharam mais espaço nas decisões.
Parte dessa transformação passou pela trajetória de Mariana Werner, CEO do Grupo Família Madalosso. Ela chegou à companhia inicialmente para prestar uma consultoria, depois de trabalhar em outras empresas, e acabou assumindo um papel cada vez maior na organização do negócio. “Meu papel foi trazer a profissionalização e gerar a expansão da marca”, afirma.
Um dos primeiros passos foi desenhar um organograma, até então inexistente, e fazer um diagnóstico interno da empresa. Vieram depois pesquisas de clima, revisão de processos e a estruturação de áreas como qualidade, supply chain, marketing, controladoria, compras, facilities, entre outras. Na cozinha, fichas técnicas passaram a padronizar receitas para que um prato servido no almoço tivesse as mesmas características à noite.
A governança também redefiniu a relação entre família e operação. Segundo Mariana, o grupo reúne hoje 29 herdeiros. A CEO responde diretamente ao conselho. Decisões que antes podiam passar informalmente pelos integrantes da família ganharam níveis de responsabilidade, processos e regras mais definidos. Uma das metas desse trabalho é criar processos e um ambiente capaz de receber as próximas gerações de herdeiros que queiram ingressar no Grupo Família Madalosso.
Esse movimento começou a tomar forma em 2019, quando a companhia passou por um reposicionamento e adotou oficialmente o nome Família Madalosso. A mudança marcou uma tentativa de traduzir o que já fazia parte da operação, que coloca a tradição familiar como ativo do negócio.
“O nosso desafio é honrar uma história construída ao longo de mais de seis décadas, mas com uma visão voltada para os próximos 60 anos. Crescer exige inovação, constância, consistência, profissionalização e uma estrutura preparada para sustentar esse desenvolvimento sem perder aquilo que nos tornou referência para tantas famílias”, afirma Mariana.
Novos formatos para ganhar escala
Durante boa parte de sua trajetória, a operação esteve concentrada no complexo de Santa Felicidade. Desde 2020, porém, o grupo inaugurou quatro unidades no modelo Express, criado para alcançar novos públicos e ampliar as ocasiões de consumo.
A pandemia teve papel importante nesse processo. Mariana diz que o período abriu espaço para testar um formato diferente do tradicional rodízio e acelerar frentes que já estavam em discussão. Hoje, segundo ela, as novas unidades respondem por cerca de 25% do faturamento do grupo.
As unidades também serviram para testar uma operação mais fácil de replicar. O grupo trabalhou na padronização de processos, cardápios e formatos de atendimento, etapa necessária para levar a marca a outros mercados com maior controle sobre a experiência do consumidor.
“O nosso foco não é simplesmente abrir restaurantes. Queremos garantir que cada nova operação entregue a mesma cultura organizacional, qualidade e experiência que construíram a reputação da marca ao longo de décadas”, diz Mariana.
Para a executiva, a profissionalização tornou essa expansão mais previsível. Estruturas de qualidade, segurança alimentar, atendimento e marketing passaram a dar suporte a diferentes negócios e públicos. “Hoje temos uma empresa preparada para abrir novos negócios e para crescer de forma sustentável. Muito disso é por conta da profissionalização”, afirma.
O próximo passo será a ampliação da fábrica de massas e molhos, prevista para começar em 2027. O investimento estimado é de R$ 8 milhões, segundo Mariana. A estrutura abastecerá as futuras operações e reunirá etapas importantes da produção, com ganhos de escala, eficiência logística, padronização e controle de qualidade.
Com essa base, o grupo planeja abrir pelo menos oito unidades nos próximos cinco anos e avançar além de Curitiba, onde hoje está concentrada sua operação. Estudos de mercado já realizados pela companhia analisam a entrada em novas cidades e estados. Destinos turísticos aparecem com força nesse mapa de expansão, entre eles Gramado, Foz do Iguaçu e Balneário Camboriú, além do interior do Paraná e de São Paulo.
A estratégia também considera mudanças no comportamento do consumidor. Além do rodízio tradicional e do Express, o grupo testa alternativas como serviço à la carte, com porções menores e outra faixa de preço, para atender clientes que buscam experiências diferentes daquela associada às grandes refeições em família.
Memória também faz parte do negócio
A estratégia de crescimento inclui ainda projetos para reforçar a relação da marca com diferentes gerações. Um deles é a reinauguração do Caffé Madalosso, um espaço dedicado ao tradicional café com chantilly, acompanhado por uma loja de souvenirs e produtos regionais.
O Natal Encantado da Família Madalosso segue o mesmo caminho. Depois de reunir mais de 40 mil pessoas em edições anteriores, o evento terá programação ampliada e novas atrações em 2026.
Eventos como o Natal fazem parte de uma iniciativa que recupera uma lógica presente na empresa desde seus primeiros anos. Carlos Madalosso chamava o parque infantil do restaurante de investimento no “cliente do futuro”. Ao criar boas lembranças para as crianças, acreditava que elas voltariam ao local quando adultas. Essa conexão emocional se tornou um dos ativos que o grupo pretende preservar durante a expansão.
É também dessa relação afetiva que Mariana parte ao definir o que não pode ser perdido com o crescimento. “O nosso afeto é em forma de atendimento, o nosso afeto está na maneira com a qual fazemos nossos produtos”, diz. Para ela, a qualidade da comida precisa permanecer no centro do negócio, mesmo enquanto a companhia acompanha novas tendências e hábitos de consumo.
Para uma empresa familiar, chegar aos 63 anos não encerra a discussão sobre longevidade. Ao contrário, torna mais urgente definir como o legado será administrado e de que maneira poderá sustentar uma nova fase.
No caso da Família Madalosso, a resposta passa pela combinação entre governança, capacidade produtiva, expansão para novos mercados e adaptação às mudanças do consumidor, sem abandonar o que tornou a marca conhecida ao longo de seis décadas.
