Família Trump vai criar banco próprio — com cripto e aval do governo
Aprovação condicional ocorre em meio à flexibilização das regras bancárias e prevê instituição voltada a ampliar o uso da stablecoin USD1, ligada aos negócios da família do presidente

A família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está prestes a criar seu próprio banco, após a World Liberty Financial, empresa associada à família, receber aprovação condicional para estabelecer uma instituição financeira nacional. O movimento ocorre em um momento de forte flexibilização das regras para a abertura de novos bancos no país.
A mudança é impulsionada pela política de desregulamentação do governo Trump e já começa a alterar o cenário bancário americano, apura a Bloomberg. Nos primeiros 19 meses do seu segundo mandato, o Escritório do Controlador da Moeda (OCC, na sigla em inglês) aprovou 22 pedidos de novas licenças bancárias, mais do que nos cinco anos anteriores somados.
O volume é incomum desde a crise financeira de 2008, quando os pedidos de novas licenças despencaram e os reguladores passaram a adotar critérios mais rigorosos. Entre os novos candidatos, destacam-se empresas de tecnologia financeira e companhias ligadas ao mercado de ativos digitais.
Segundo dados do OCC, cerca de 40 empresas solicitaram novas licenças bancárias desde o início de 2025, um número aproximadamente equivalente ao total registrado nos 13 anos anteriores.
A agência também estabeleceu como meta responder aos pedidos em até 120 dias, reduzindo o prazo de um processo que antes podia levar meses ou anos.
"O OCC está novamente aberto a negócios", afirmou em junho o controlador da moeda, Jonathan Gould, indicado por Trump. A velocidade das aprovações, porém, suscita questionamentos quanto aos riscos de incorporar ao sistema financeiro empresas sem experiência tradicional no setor bancário.
Cripto nos bancos
Criptomoedas: com desregularização, sistema bancário americano passa a apostar nos stablecoins como parte do sistema no futuro (Binance/Divulgação)
A World Liberty Financial pretende usar o banco principalmente para ampliar a circulação de suastablecoin, o USD1, uma criptomoeda vinculada ao dólar. Ter uma instituição própria para custodiar os ativos que dão suporte ao token poderia reduzir custos e, ao mesmo tempo, aumentar a percepção de legitimidade do token, estima a Bloomberg.
Além disso, a estrutura também poderia facilitar o acesso a financiamento mais barato e, em situações extremas, suscitar questionamentos quanto a uma eventual proteção estatal. Parlamentares democratas demonstraram preocupação de que o USD1 possa se transformar em um instrumento para aproximar os interesses empresariais da família Trump do governo e de uma regulação mais favorável.
A empresa rejeita as críticas e afirma que a criação do banco representa, justamente, uma maior adesão à supervisão estatal. Segundo a World Liberty, uma licença nacional colocaria a instituição sob fiscalização permanente do OCC, além de submetê-la a regras de combate à lavagem de dinheiro, de proteção ao consumidor e a auditorias independentes.
Como parte do processo, três investidores da World Liberty, entre eles um dos filhos de Trump e um empresário ligado à família real de Abu Dhabi, assumiram compromissos para limitar sua influência sobre a administração do banco. O OCC afirmou ainda que funcionários de carreira participaram da análise do pedido.
A entrada da família Trump ocorre ao lado de uma nova geração de instituições financeiras ligadas à tecnologia.
Entre os candidatos ou recém-aprovados estão a emissora de stablecoins Circle, o banco digital Nu Holdings e a plataforma de criptomoedas Coinbase, em um movimento que aproxima definitivamente o setor de ativos digitais do sistema bancário tradicional.
Cautela
Apesar do potencial, setor financeiro americano recomenda cautela sobre criptomoedas (Matteo Colombo/Getty Images)
A transformação, no entanto, preocupa parte do setor. Stablecoins não contam com o mesmo seguro dos depósitos bancários, e especialistas temem que a associação entre esses ativos e bancos possa levar consumidores a acreditar que seu dinheiro possui garantias governamentais semelhantes.
O histórico americano reforça a cautela. Na crise das instituições de poupança e empréstimo dos anos 1980, mais de 1.600 bancos quebraram, em um episódio atribuído a uma combinação de má gestão e fiscalização insuficiente, que custou cerca de US$ 124 bilhões aos contribuintes.
A aprovação da World Liberty também ocorre em meio a mudanças mais amplas promovidas pelo OCC. Sob Gould, a agência ampliou as possibilidades para instituições constituídas como trusts e vem defendendo uma maior integração de empresas de criptomoedas e fintechs ao sistema bancário.
Críticos afirmam que o órgão pode estar indo além do necessário ao flexibilizar as regras. Para especialistas, mudanças regulatórias voltadas a impulsionar criptomoedas e tecnologia financeira podem enfrentar resistência futura caso o Congresso ou governos posteriores adotem uma postura mais rigorosa.
A World Liberty ainda precisa cumprir condições para obter a aprovação definitiva, incluindo manter níveis mínimos de capital e contratar um auditor externo. O processo ocorre em paralelo a esforços de outras agências, como a FDIC, para acelerar a análise de pedidos relacionados à criação de novos bancos.
Trump será o primeiro presidente em exercício cujos filhos fundaram um banco durante seu mandato, embora outras famílias presidenciais tenham mantido relações históricas com o setor financeiro. A diferença, neste caso, é que o presidente exerce influência direta sobre a escolha dos principais reguladores responsáveis por supervisionar o mercado.
O próprio OCC reconheceu ter recebido comentários que questionavam possíveis conflitos de interesse envolvendo Trump, sua família e a World Liberty. A agência afirmou, contudo, que seus funcionários atuaram de acordo com suas obrigações legais e éticas, enquanto a Casa Branca rejeitou a existência de conflitos.
A rápida expansão das licenças representa, portanto, um teste para o sistema financeiro americano.
A aposta do governo é que novos bancos digitais e ligados a ativos digitais aumentem a concorrência e reduzam a concentração do setor, enquanto os críticos alertam que a velocidade da abertura pode colocar em segundo plano as lições das crises bancárias do passado.
