Farmácias ampliam queda na bolsa após avanço do Mercado Livre em remédios com receita
RD Saúde, Panvel e Pague Menos recuam nesta sexta, 25, após forte queda na véspera com anúncio de nova frente de concorrência digital

RESUMO +
As ações das redes de farmácias RD Saúde, Pague Menos e Panvel ampliam as perdas nesta sexta-feira, 25, após o Mercado Livre, plataforma de comércio eletrônico, iniciar a venda de medicamentos com receita em São Paulo. Às 13h30, RD Saúde caía 1,63%, Pague Menos recuava 0,87% e Panvel perdia 0,49%. Analistas apontam disputa pelo cliente digital.
As ações das redes de farmácias ampliam as perdas nesta sexta-feira, 25, um dia após o anúncio do Mercado Livre de que passará a vender medicamentos com receita médica. O movimento ocorre mesmo com o Ibovespa praticamente estável, sinalizando que o setor continua sob pressão após a novidade.
Por volta das 13h30, quando o principal índice acionário da B3 registrava ligeira queda e 0,02%, aos 183.986 pontos, a RD Saúde (RADL3) recua 1,63% e está entre as oito únicas ações do Ibovespa no campo negativo. A Panvel (PNVL3) cai 0,49%, enquanto Pague Menos (PGMN3) perde 0,87% no mesmo horário.
Na véspera, os papéis haviam despencado. a RD Saúde caiu 5,38%, Pague Menos recuou 8% e Panvel perdeu 4,90%.O anúncio do Mercado Livre adicionou uma nova frente de competição para as redes tradicionais. Acompanhia começou nesta sexta-feira a vender medicamentos sob prescrição em São Paulo, incluindo antibióticos e medicamentos da classe GLP-1, como o Ozempic. Para concluir a compra, o consumidor envia a receita, que é analisada por um farmacêutico da operação.
Além da venda própria, o Mercado Livre pretende levar farmácias tradicionais para dentro de seu marketplace pelo modelo 3P, no qual os parceiros fazem a venda ao consumidor enquanto utilizam a infraestrutura digital e logística da plataforma. A companhia espera começar as primeiras integrações em outubro na região metropolitana de São Paulo.
Disputa pelo cliente digital
A reação negativa das ações reflete o receio dos investidores de que grandes plataformas digitais passem a disputar não apenas a venda dos medicamentos, mas também o relacionamento das farmácias com seus clientes.Relatórios de XP Investimentos, Safra e BTG Pactual avaliam, porém, que a entrada do Mercado Livre não representa, neste momento, uma substituição das lojas físicas. A leitura predominante é de que a disputa tende a ocorrer primeiro pelo canal digital e pela aquisição do consumidor.
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) avalia que o avanço do comércio eletrônico no setor tem representado mais uma migração de canais do que uma desintermediação completa das redes.
A RD Saúde, por exemplo, registrou R$ 3,9 bilhões em vendas digitais no segundo trimestre de 2026, equivalentes a 31% da receita de varejo. Cerca de 83% desse volume veio do aplicativo próprio da companhia.
A escala física também continua sendo um diferencial para as redes. Segundo o banco, cerca de 96% dos pedidos digitais da RD são entregues ou retirados em até 60 minutos, apoiados por uma rede de aproximadamente 3.700 lojas.
Nesse cenário, o principal risco apontado pelos analistas não é o desaparecimento das farmácias físicas, mas a possibilidade de as redes perderem parte do tráfego digital e da relação direta com o consumidor para plataformas como o Mercado Livre.
O Safra tem avaliação semelhante e considera que o marketplace pode funcionar como um canal adicional de aquisição de clientes. Para as grandes redes, o modelo 3P pode inclusive ampliar o alcance digital, já que elas continuam responsáveis pela venda e dispensação dos medicamentos.
Farmácias questionam Anvisa sobre legalidade de venda
Após o anúncio do Meli, ainda na noite de ontem, a Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) informou que questionará a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a legalidade da operação.
Para a entidade, a comercialização de medicamentos por marketplaces continua vedada enquanto não for concluída a regulamentação em discussão na Anvisa. A associação afirma que a venda anunciada pelo Mercado Livre, inclusive de produtos sujeitos à prescrição médica e à retenção de receita, não estaria de acordo com a legislação vigente.
A Abrafarma cita um comunicado da própria Anvisa, de 10 de agosto, segundo o qual a revogação de resoluções da vigilância sanitária "não implica em autorização automática de comercialização de produtos farmacêuticos". Segundo a agência, a aplicação da nova lei depende de regulamentação ainda a ser editada.
"A venda anunciada de remédios por meio da plataforma, inclusive com receita, fere a legislação", afirmou a Abrafarma em comunicado à inprensa.
Venda de medicamento com receita no Meli
O Mercado Livre anunciou nesta quinta que começará a vender medicamentos com receita em São Paulo, incluindo antibióticos e canetas para emagrecimento como Ozempic.
O anúncio foi feito durante a 10ª edição do Meli Experience, evento do Mercado Livre realizado nesta quinta-feira, em São Paulo. A partir de amanhã, consumidores poderão enviar a receita médica para análise de um farmacêutico da própria operação antes da liberação da compra.
“Pessoas que entram no Meli buscam de tudo, e percebemos que havia muita busca também por remédios. Além disso, a taxa de conversão de medicamentos é muito maior quando comparada aos demais produtos”, afirmou Fernando Yunes, CEO do Mercado Livre no Brasil.
