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Mundo
24/09/2026
5 min

Favorita a suceder Guterres na ONU, Rebeca Grynspan tem votos de Rússia e China

Diplomata ouvido pela EXAME diz que dois votos de Grynspan vieram de Moscou e Pequim; corrida segue indefinida e pode atrair novos nomes

Favorita a suceder Guterres na ONU, Rebeca Grynspan tem votos de Rússia e China

Nova York — A favorita a suceder António Guterres na Secretaria-Geral da ONU chega à reta final da disputa em campanha aberta.

Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica e atual chefe da UNCTAD, a agência da ONU para comércio e desenvolvimento, lidera as votações informais do Conselho de Segurança e se apresenta como a candidata da reforma de uma organização que ela própria descreve como inchada e avessa a riscos.

Na terceira consulta informal, realizada em 18 de setembro, Grynspan obteve nove votos de "encorajar", cinco de "desencorajar" e uma abstenção, à frente da guianense Carolyn Rodrigues-Birkett, com oito votos favoráveis. Ainda não há consenso, mas a costa-riquenha se firmou como o nome a ser batido.

De cidade em cidade

Nos últimos dias, Grynspan transformou a semana de alto nível em vitrine de campanha.

Em suas redes sociais, divulgou uma sequência de reuniões com líderes e chanceleres de vários continentes, do presidente de Gana, John Mahama, ao Nobel da Paz José Ramos-Horta, de Timor-Leste, passando pelos ministros das Relações Exteriores de Egito, Indonésia, Somália, Zâmbia, Guatemala e Cazaquistão.

Segundo a própria candidata, foram encontros com autoridades de Estados-membros em 27 cidades, em todos os continentes, nos últimos meses. O discurso constante, tanto publicamente, quanto nas reuniões reservadas, é a promessa de renovar a instituição.

Em suas publicações, sob a hashtag #newUN, repete que a ONU precisa se tornar mais rápida e mais enxuta e pede para ser julgada pelo histórico à frente de organizações internacionais, que diz ter tornado mais eficientes.

Nesta semana, em entrevista ao Devex, publicação especializada em desenvolvimento global, a costa-riquenha detalhou que defende uma reforma significativa, com menos recursos na cúpula e mais nos países, e uma ONU mais disposta a assumir riscos políticos para resolver conflitos.

Reformar, diz, sem destruir. Para ela, o UN80, o programa de reformas do próprio Guterres, não foi longe o suficiente, em parte pela resistência da organização a arriscar.

"O que não podemos é deixar de tentar, e acredito que o secretário-geral tem de arcar com o custo do fracasso", destacou.

Rivais e um placar embolado

Entre seus rivais, há quem peça mudanças ainda mais profundas. Também nesta semana, a equatoriana María Fernanda Espinosa, ex-presidente da Assembleia Geral, defendeu alterar o "modelo de negócio" e a "cultura institucional" da organização.

Para Espinosa, a crise financeira da ONU é sintoma de uma crise política e de legitimidade mais profunda, e dinheiro não falta no mundo.

A candidata, porém, aparece entre as últimas colocadas, com três votos favoráveis na consulta de 18 de setembro. E não é a única a ficar para trás. A mesma votação selou a desistência da ex-presidente chilena Michelle Bachelet, apoiada por Brasil e México, que desistiu da corrida logo depois.

A dianteira, no entanto, é estreita. Um diplomata ouvido pela EXAME na manhã desta quinta-feira, 24, sob condição de anonimato, afirmou que, embora a votação seja secreta, dois dos votos favoráveis a Grynspan teriam vindo de Rússia e China.

Um detalhe especialmente relevante, pois para vencer, um candidato precisa de ao menos nove votos a favor e de nenhum veto entre os cinco membros permanentes, e ter Moscou e Pequim entre os apoios afasta o risco de bloqueio por esse flanco, deixando os Estados Unidos como a maior incógnita.

Para a mesma fonte, nem Grynspan nem Rodrigues-Birkett parecem capazes de abrir uma vantagem decisiva, e um placar embolado pode estimular candidatos que aguardam nos bastidores a entrar logo na corrida.

O diplomata destacou ainda o peso simbólico de uma eventual escolha da costa-riquenha: além de ser a primeira mulher a comandar a ONU em oito décadas, Grynspan seria a primeira pessoa judia no cargo, num momento em que a relação de Israel com a organização vive, na avaliação dele, seu pior momento.

A aposta americana que emperrou

O quadro indefinido mantém vivos nomes que até então pareciam ter perdido força. Os Estados Unidos apostavam no argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, como candidato de consenso.

Indicado pela Argentina em novembro de 2025, e primeiro nome formal da disputa, Grossi construiu a candidatura sobre as boas relações que mantém com os cinco membros permanentes, na tentativa de somar apoios e evitar vetos.

Sua plataforma ecoa a de Grynspan. Grossi também defende uma ONU "que funcione", menos burocrática e voltada a "soluções concretas", e adverte que os Estados não vão financiar indefinidamente a expansão da organização.

Os dois favoritos, no fim, vendem a mesma promessa de enxugar a instituição.

A estratégia perdeu tração no fim de agosto, quando Trump, questionado sobre as Malvinas, disse rever "todas as posições" americanas, em meio a relatos de que os Estados Unidos poderiam retirar o apoio à soberania britânica sobre as ilhas.

Na terceira sondagem - a da última sexta-feira, 18 -, Grossi levou somente cinco votos a favor contra oito contra e duas abstenções.

Contudo, alerta o diplomata ouvido por EXAME, mesmo à frente, Grynspan ainda não converteu a liderança em consenso, e a reforma que promete terá de conviver com a pressão dos Estados Unidos, que sob Trump cobram cortes e uma ONU "de volta ao básico".

Uma nova rodada de votação, desta vez com cédulas coloridas que separam os votos dos permanentes, é esperada para os próximos dias.

O desfecho não tem data marcada, mas deve vir em outubro, quando o Conselho costuma fechar em torno de um único nome e a Assembleia Geral referenda a escolha, a tempo de o novo secretário-geral assumir em 1º de janeiro de 2027.

AutorLia Rizzo
FonteExame
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