Fed abriu a porteira? Até onde os juros dos EUA podem subir após decisão do Fed
O Federal Reserve voltou a subir os juros dos Estados Unidos nesta quarta-feira (16), em uma decisão amplamente esperada pelo mercado. Mas, para os economistas, foi o conjunto da obra que reforçou a mensagem: inflação ainda resistente, economia mais forte e um gráfico de pontos que deixou aberta a porta para novos apertos monetários. Por […]

O Federal Reserve voltou a subir os juros dos Estados Unidos nesta quarta-feira (16), em uma decisão amplamente esperada pelo mercado. Mas, para os economistas, foi o conjunto da obra que reforçou a mensagem: inflação ainda resistente, economia mais forte e um gráfico de pontos que deixou aberta a porta para novos apertos monetários.
Por unanimidade, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) elevou a taxa em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano. Foi a primeira alta desde 2023 e também a primeira mudança nos juros sob o comando de Kevin Warsh.
O chamado dot plot, gráfico que reúne as projeções individuais dos dirigentes do Fed, indicou mais uma alta de 0,25 ponto percentual ainda em 2026. Além disso, as novas projeções mostraram uma economia americana mais resistente do que o previsto anteriormente, combinação que ajudou a reforçar a leitura mais hawkish da reunião.
O Fed passou a projetar crescimento de 2,3% para a economia americana em 2026, com taxa de desemprego de 4,1% e núcleo do PCE, principal referência de inflação da autoridade monetária, em 3,4%.
Para Andressa Durão, economista do ASA, o conjunto das novas projeções completou um quadro mais duro para a política monetária.
“O gráfico de pontos indicou mais uma alta de 25 bps ainda este ano, em linha com o consenso, mas apontou para uma trajetória da taxa de juros mais elevada que o esperado ao longo do horizonte. As projeções de PIB e inflação foram revisadas para cima e as de desemprego para baixo, completando o quadro hawkish”, afirma.
Felipe Mecchi, economista do C6 Bank, também chama atenção para a combinação entre atividade mais forte e inflação resistente. Na avaliação da casa, “o cenário econômico atual, somado à comunicação do Fed, deve levar a mais uma alta nos juros ainda em 2026”.
Warsh mantém porta aberta
Na coletiva após a decisão, Warsh evitou antecipar os próximos movimentos do Fed, mas explicou que três mudanças desde seu discurso em Jackson Hole pesaram na decisão desta quarta-feira: a sequência de indicadores mostrando uma economia forte, a falta de melhora suficiente da inflação e a deterioração do cenário geopolítico.
O presidente do Fed também afirmou que o banco central precisa estar confiante de que a inflação subjacente esteja caminhando em direção à meta de 2% de maneira “clara e suficientemente rápida”.
Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, tanto a decisão quanto a entrevista reforçaram uma orientação mais dura por parte do banco central norte-americano.
“A mensagem de Warsh sugere disposição para realizar ajustes adicionais caso a convergência à meta continue ocorrendo em velocidade insuficiente, sem comprometer antecipadamente as próximas decisões”, afirma.
A Genial espera mais uma alta ao longo de 2026 e vai além das projeções apresentadas pelo próprio Fed para o próximo ano: a casa prevê outras duas elevações no primeiro semestre de 2027.
Segundo Lin, a combinação de uma economia resiliente com sucessivos choques de oferta aumenta o risco de que pressões inicialmente concentradas em determinados preços acabem contaminando outros componentes da inflação. “É um risco que o Fed aparenta querer mitigar”, diz.
Unanimidade também manda um recado
Outro ponto que chamou atenção foi a unanimidade. Na reunião de julho, a manutenção dos juros havia sido aprovada por nove votos a três, com defesas de uma elevação de 0,25 ponto percentual.
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, avalia que o placar de hoje ganha importância diante das discussões sobre a independência e a credibilidade da instituição.
“A unanimidade é, em si, uma informação relevante”, afirma. Para ela, o resultado representa “um sinal positivo para a credibilidade da instituição”.
A leitura da Nomad para o horizonte mais longo, porém, é menos dura. Embora o Fed indique outra elevação em 2026, Zogbi destaca que as projeções não apontam novas altas em 2027, com mediana de 4,1% no fim do próximo ano.
Segundo ela, essa trajetória é mais dovish do que a que estava embutida nos preços de mercado antes da decisão, quando as apostas apontavam majoritariamente para duas altas adicionais em 2027.
Fed se precipitou?
Apesar da predominância de avaliações mais hawkish, há quem questione se o Fed precisava subir os juros agora.
Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital, avalia que o banco central buscou preservar sua credibilidade diante dos últimos números de inflação e da volta do petróleo para acima dos US$ 100 por barril. Ainda assim, considera a decisão precipitada.
“O Fed optou por elevar a taxa a fim de evitar um choque de credibilidade no mercado de renda fixa americano. Ainda assim, o movimento me parece precipitado”, afirma.
Flores argumenta que as expectativas de inflação de cinco e dez anos continuam ancoradas e destaca a revisão metodológica do PCE prevista para o fim de setembro, que pode alterar a leitura de alguns componentes do índice.
O gestor também discorda da projeção do Fed para o núcleo do PCE. “A projeção do Fed de 3,4% para o Core PCE me parece exagerada, dado que ela implica que a inflação não irá ter um progresso positivo ao longo do resto do ano, o que não concordamos.”
Para ele, uma nova alta ainda em 2026 dependerá, sobretudo, do comportamento do petróleo e dos desdobramentos geopolíticos. Caso a commodity recue novamente para a região entre US$ 70 e US$ 80 por barril e as pressões inflacionárias diminuam, a Stratton vê espaço para o Fed manter os juros estáveis.
Assim, apesar do consenso de que a reunião de setembro trouxe uma mensagem mais dura, a discussão agora muda de endereço: não é mais se o Fed voltaria a subir os juros, mas quantas altas ainda serão necessárias para convencer Warsh de que a inflação está, de fato, voltando aos 2%.
