Fed decide juros com Warsh no comando pela primeira vez: o que esperar?

O Federal Reserve decide nesta quarta-feira, 17, sobre a taxa básica de juros americana na primeira reunião presidida por Kevin Warsh, novo chairman do banco central dos Estados Unidos. A manutenção da taxa na banda entre 3,5% e 3,75% é amplamente esperada. Mas o encontro promete marcar uma virada na comunicação da autoridade monetária, com tom mais duro e menos espaço para apostas em cortes.
Segundo relatório de análise macroeconômica do BTG Pactual, a reunião deve marcar uma inflexão no discurso do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), com a provável remoção do viés de afrouxamento (easing bias) e uma revisão altista das projeções de inflação no Resumo das Projeções Econômicas (SEP). No documento, cada membro do FOMC registra anonimamente as próprias projeções para crescimento do PIB, desemprego, inflação e a trajetória esperada para os juros.
O BTG projeta que o Índice de Preços de Gastos com Consumo (PCE) deve acelerar para cerca de 4,0% ao ano na próxima divulgação, marcada para 25 de junho, enquanto o núcleo do índice deve rodar próximo de 3,4% ao ano, impulsionado pela resiliência do setor de serviços e pela perda de força na desinflação de habitação.
Para Haroldo da Silva, presidente do Corecon-SP, a mudança mais relevante não está na decisão de hoje. "Mais importante do que a decisão em si é a mudança de expectativas observada nos últimos meses. Até pouco tempo atrás, predominava a percepção de que o Federal Reserve iniciaria um ciclo de redução dos juros ao longo de 2026. Hoje, o debate deixou de ser quando ocorrerão os cortes e passou a ser se haverá espaço para eles acontecerem", afirmou.
Risco de alta de juros volta ao radar
O cenário base do BTG Pactual continua sendo de manutenção dos juros ao longo de 2026, mas o banco alerta para o risco crescente de que o debate sobre novas elevações retorne no segundo semestre. Modelos citados pelo banco indicam que se o núcleo da inflação persistir em torno de 3,5% ao ano, a taxa prescrita deveria se aproximar de 4,3% em 2026 — o que demandaria um aperto adicional de 75 pontos-base por meio da reversão dos chamados insurance cuts, os cortes de proteção adotados no segundo semestre de 2025.
Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, avalia que Warsh não deve apresentar concessões na comunicação. "O FOMC deve trazer um tom hawk com a sua decisão, afastando a discussão do viés baixa/manutenção para manutenção/alta, apesar do alívio que o acordo Estados Unidos e Irã trouxe para os ativos americanos. Com o mercado de trabalho resiliente, há espaço para a discussão seguir de higher for longer", disse.
Essa leitura é reforçada pelos dados técnicos do BTG Pactual: as estimativas de crescimento do PIB americano no segundo trimestre apontam para entre 2,5% e 2,6%, sustentadas pelo consumo robusto e pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial. A taxa de desemprego se estabilizou em 4,3%, e as médias móveis do payroll voltaram a acelerar — inclusive no setor privado e em segmentos fora da área de saúde.
Fed dividido entre paciência e preocupação com inflação
O relatório do BTG Pactual aponta que o próprio FOMC está dividido. De um lado, o vice-chairman Philip Jefferson e John Williams, presidente do Fed de Nova York, defendem paciência e apostam que os efeitos inflacionários de tarifas e energia são temporários. Do outro, Lorie Logan, presidente do Fed de Dallas, e Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland — ambas votantes do comitê em 2026 —, adotaram tom claramente mais preocupado com a persistência dos preços. Até Christopher Waller, membro do conselho de administração do Fed, antes alinhado a uma postura mais dovish, passou a admitir publicamente a possibilidade de apoiar novas altas caso as expectativas de inflação se desancorem.
No dot plot, o BTG espera elevação das medianas dos jutos: para 2026, a mediana deve subir para 3,625%, ante 3,375% anteriormente, eliminando a indicação de cortes neste ano. Para 2027, a projeção é de 3,375%, ante 3,125% anteriores. Caso três ou quatro participantes passem a indicar pelo menos uma alta — especialmente Schmid, Logan, Hammack e possivelmente Waller —, a leitura de mercado tende a ser hawkish.
O banco também destaca que Warsh deverá conduzir a coletiva de imprensa de forma distinta dos antecessores. Ele é conhecido por criticar o uso excessivo de sinalizações antecipadas sobre os rumos dos juros, como o próprio dot plot e declarações que comprometam o Fed com uma trajetória específica. Na avaliação do BTG, o novo presidente deve deixar claro que cada decisão será tomada com base nos dados disponíveis no momento, sem compromissos prévios com cortes ou altas futuras.
Powell usava o dot plot e o forward guidance como ferramentas ativas de comunicação. Mesmo quando dizia depender dos dados, ele sinalizava direções com bastante antecedência, o que o mercado aprendeu a interpretar e precificar.
Acordo EUA-Irã alivia pressão, mas não muda o quadro
A semana também é marcada pelo anúncio de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, cuja assinatura está prevista para esta sexta-feira, 19, e que prevê a reabertura do Estreito de Ormuz. O movimento derrubou os preços do petróleo e provocou uma alta nos títulos do Tesouro americano, aliviando parte da pressão sobre o Fed.
Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos do Grupo Axia Investing, avalia que a trégua traz "uma luz no fim do túnel", reduzindo o peso imediato do petróleo sobre a inflação. A expectativa sobre a postura de Warsh, segundo Sant'Anna, é amplamente aguardada pelo mercado para entender se ela vai pender para o lado dovish ou hawkish.
Na avaliação de Leslie Falconio, estrategista-chefe de renda fixa tributável do UBS Global Wealth Management, em entrevista à Bloomberg Television, o recuo do petróleo já está se refletindo nos mercados de juros: ao longo da semana passada, os investidores chegaram a precificar quase 100% de chance de alta de 0,25 ponto percentual nos Fed Funds até dezembro de 2026. Com o acordo, essa probabilidade caiu para cerca de 74%. Ainda assim, Falconio espera que o FOMC formalize a remoção do viés de afrouxamento nesta reunião e que o próximo corte de juros só ocorra em 2027.
O BTG Pactual reforça esse ponto de cautela: o choque de energia associado ao conflito no Oriente Médio continua sendo fonte de incerteza mesmo com a acomodação recente. Em um contexto em que a inflação permanece acima da meta há vários anos, o núcleo voltou a acelerar e as expectativas de médio prazo avançaram, o banco avalia que o Fed tem pouco espaço para simplesmente ignorar o choque — especialmente se houver evidências de repasse para outros componentes de preços.
