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28/10/2026
7 min

Fed decide se sobe juros em momento tenso para a bolsa brasileira

O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) decide nesta quarta-feira, 27, o futuro dos juros americanos; expectativa é de manutenção das taxas atuais

Fed decide se sobe juros em momento tenso para a bolsa brasileira
RESUMO +

O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, decide nesta quarta-feira, 28, se mantém os juros na faixa de 3,75% a 4,00% ao ano. Segundo o FedWatch, da CME, 92,8% dos investidores esperam manutenção. Especialistas avaliam que o cenário político e fiscal brasileiro deve pesar mais sobre os ativos locais no curto prazo.

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) decide nesta quarta-feira, 28, se mantém, abaixa ou volta a elevar a taxa básica de juros americana, atualmente na faixa de 3,75% a 4,00% ao ano. A decisão ocorre em um momento de forte turbulência no mercado financeiro brasileiro, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que provocou uma onda de vendas na bolsa e disparada do dólar.

Na terça-feira, 27, o Ibovespa fechou em queda de 0,51%, aos 175.710,05 pontos, depois de despencar 13,88% na sessão anterior. Em dois pregões, o principal índice da B3 acumulou baixa de 14,3% após subiu quase 7% entre o 1° e o 2° turno das eleições, de 4 a 25 de outubro. O dólar à vista, por sua vez, recuou 0,97% na terça-feira, a R$ 5,35, após disparar 8,21% na véspera.

A decisão do Fed entra no radar dos investidores brasileiros porque a trajetória dos juros americanos influencia a atratividade dos ativos de mercados emergentes e os fluxos internacionais de capital.

Especialistas avaliam, no entanto, que, neste momento, as incertezas domésticas e as expectativas sobre a condução da política econômica doquarto mandato de Lula devem ter maior influência sobre os preços dos ativos brasileiros.

Mercado precifica manutenção dos juros nos EUA

As apostas do mercado indicam que o banco central americano deve manter os juros inalterados.

Segundo o FedWatch, ferramenta da CME que acompanha as expectativas para as decisões da autoridade monetária, 92,8% dos investidores apostavam, até esta terça, na manutenção da taxa. Outros 7,2% projetavam uma alta de 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 4,00% e 4,25% ao ano.

Para Juliana Benvenuto, coordenadora de investimentos e conteúdo da Avenue, a inflação americana continua sendo um fator central para a decisão, embora os sinais de desaceleração do mercado de trabalho reduzam a necessidade de um novo aperto monetário imediato.

"O mercado já precifica mais de 90% de probabilidade de manutenção dos juros nessa reunião, percentual que vem aumentando nos últimos dias. Tivemos recentemente a divulgação do CPI, índice de inflação ao consumidor dos Estados Unidos, que veio acima do esperado. Por outro lado, o mercado de trabalho continua relativamente estável e resiliente, embora já apresente sinais de desaceleração", afirma.

Segundo Benvenuto, os discursos dos dirigentes do Fed indicam que o controle da inflação continua sendo uma prioridade. Ainda assim, a coordenadora da Avenue avalia que não há necessidade de acelerar o ritmo de alta dos juros neste momento. "O mercado entende que uma alta não deve acontecer na próxima reunião, mas pode voltar ao radar em dezembro", diz.

A especialista acrescenta que o mercado já trabalha com uma probabilidade superior a 70% de alta dos juros na última reunião do ano. As projeções dos dirigentes do Fed divulgadas na última reunião também apontam para um novo aumento ainda neste ano.

O cenário reflete a persistência da inflação acima da meta de 2% do banco central americano, inclusive no índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE), medida preferida da autoridade monetária para acompanhar a evolução dos preços.

Ao mesmo tempo, a economia dos Estados Unidos continua demonstrando resiliência, com expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente 2,3% neste ano.

Qual o impacto dos juros americanos no Brasil?

No Brasil, o efeito da decisão desta quarta-feira tende a ser limitado no curto prazo, na avaliação de Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital. Para o especialista, a expectativa de manutenção dos juros já está incorporada aos preços, enquanto o cenário político e fiscal brasileiro concentra a atenção dos investidores.

"O impacto da decisão do FOMC [Comitê Federal de Mercado Aberto] é pequeno para o Brasil agora. Já está bem precificado, e no curtíssimo prazo há outros fatores mais relevantes pros ativos domésticos, em especial aqueles que envolvem a formação do governo Lula IV e como este deve lidar com a questão fiscal no contexto de uma desaceleração da atividade já encomendada para o próximo ano", diz.

Benvenuto também avalia que, nesse primeiro momento, os fatores domésticos devem falar mais alto e fazer com que o Brasil se descole temporariamente do cenário externo.

"O mercado deve passar a avaliar as propostas do novo governo, especialmente a forma como a questão fiscal será conduzida. Esse será um dos principais desafios da próxima gestão: definir como o desequilíbrio fiscal brasileiro será enfrentado e quais medidas serão adotadas para lidar com as contas públicas. A percepção dos investidores sobre esses avanços ou retrocessos tende a influenciar diretamente o comportamento dos ativos locais", disse a coordenadora da Avenue.

Diferencial dos juros como ponto de atenção

A diferença entre as trajetórias monetárias dos dois países, porém, continua sendo um ponto de atenção. Enquanto o Fed mantém a possibilidade de novos aumentos no horizonte, o Brasil está em um ciclo de flexibilização monetária.

A perspectiva de redução dos juros brasileiros, combinada à manutenção de taxas elevadas nos Estados Unidos, pode diminuir a vantagem relativa dos investimentos no país. Atualmente,a taxa básica de juros brasileira, a Selic, está em 13,75% ao ano, após cinco cortes de 0,25 ponto percentual ao longo do ano.

Para Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, a manutenção dos juros americanos, acompanhada de um discurso mais duro sobre a inflação, pode prolongar a atratividade dos títulos públicos dos Estados Unidos.

"Quando uma economia de referência, como a dos Estados Unidos, mantém os juros elevados e sinaliza que eles devem permanecer nesse patamar por mais tempo, os títulos públicos americanos continuam oferecendo bons retornos. Isso reduz a atratividade relativa dos investimentos em países emergentes, como o Brasil, e diminui o diferencial de juros entre esses mercados", afirma.

Na prática, a redução dessa diferença pode intensificar a disputa entre países emergentes e economias desenvolvidas pelos recursos dos investidores internacionais. Em um ambiente de maior percepção de risco fiscal e institucional no Brasil, parte desses recursos pode migrar para mercados considerados mais previsíveis.

"Isso diminui a atrativa ali do diferencial de juros e aí o capital ele acaba concorrendo ali pelo mesmo pelos mesmos investimentos a níveis eh de Atividades semelhantes", diz Centeno.

A economista também avalia que o mercado deve acompanhar os sinais de acomodação do emprego nos Estados Unidos, em um contexto no qual a inflação permanece pressionada. Para ela, esse quadro favorece a manutenção dos juros, em vez de um novo aumento imediato.

Petróleo e inflação mantêm pressão sobre o Fed

Além dos dados econômicos americanos, os preços do petróleo e as tensões geopolíticas também influenciam as perspectivas para a política monetária. Na avaliação de Cavalcanti, o petróleo segue como um dos principais vetores de pressão inflacionária.

"O Brent chegou a US$ 116,6 na semana passada, máxima desde maio, pressionado pelos ataques houthis à Arábia Saudita, pelo risco de retomada de operações militares de EUA e Israel contra o Irã e pelas dúvidas sobre o Estreito de Ormuz. Há esforços diplomáticos em curso, mas nada resolvido. Enquanto o barril permanecer nesse patamar, a inflação americana segue pressionada e o Fed mantém o viés restritivo", afirma.

O gestor também aponta que o estresse recente nos ativos de tecnologia exige cautela da autoridade monetária. As dúvidas sobre o financiamento dos investimentos em inteligência artificial, especialmente o endividamento de empresas de data centers, podem aumentar a preocupação com as condições financeiras.

AutorClara Assunção
FonteExame
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