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InvestMercados
16/09/2026
8 min

Fed deve subir juros, mas é Warsh quem deve mexer com o mercado, dizem especialistas

Fed chega à decisão nesta quarta-feira, 16, sob pressão de Trump, inflação ainda elevada e juros longos em alta

Fed deve subir juros, mas é Warsh quem deve mexer com o mercado, dizem especialistas

O Federal Reserve (Fed) deve entregar nesta quarta-feira, 16, a alta de juros que o mercado já colocou no preço. A expectativa marjoritária é de um aumento de 0,25 ponto percentual, que leva a taxa básica para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, em uma decisão que, por si só, tende a provocar pouco barulho nos mercados. O que pode mudar, contudo, o rumo dos ativos é o que vier junto com ela. Nesse caso, as novas projeções para a economia americana e, principalmente, a mensagem do presidente do Fed, Kevin Warsh, sobre os próximos passos da política monetária.

Na véspera da decisão, 15, o FedWatch, ferramenta da CME que estima a probabilidade de o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) alterar os juros nas próximas reuniões, apontava 94,5% de probabilidade de elevação das taxas em 0,25 ponto percentual, contra apenas 5,5% de manutenção na faixa atual de 3,50% a 3,75% ao ano.

Como quase todo mundo já espera o mesmo resultado, uma surpresa relevante dependeria mais da comunicação do Fed do que do número anunciado. E é aí que a terceira reunião de Warsh à frente do banco central americano ganha peso.

De acordo com especialistas, a autoridade monetária terá de equilibrar uma inflação que voltou a preocupar, com uma curva de juros que já incorporou uma postura mais dura do Fed e a pressão pública do presidente dos EUA, Donald Trump, por taxas menores.

Trump voltou a defender no fim de semana que os Estados Unidos deveriam ter "a taxa de juros mais baixa do mundo". Segundo o republicano, Warsh poderia estar de mãos atadas por um comitê "muito político". O diretor do Conselho Econômico, Kevin Hassett, também afirmou que o presidente não ficaria satisfeito com uma alta.

Warsh, por sua vez, vinha preparando o mercado para uma postura diferente. No simpósio de Jackson Hole, no fim de agosto, ochairman reforçou que o núcleo da inflação precisa caminhar de forma clara e suficientemente rápida para a meta de 2%. Caso contrário, deixou implícito que o Fed ainda terá trabalho pela frente.

Desde então, os dados de inflação de agosto e aalta do petróleo reforçaram a preocupação com os preços. O mercado passou a trabalhar com mais convicção com a possibilidade de uma alta nesta reunião, e instituições como Citi e Goldman Sachs também migraram para esse cenário.

Alta de 25 pontos-base está no preço

Por isso, o primeiro movimento desta quarta-feira tende a ser relativamente previsível.

"A expectativa é de alta de 25bps, levando a taxa para a faixa de 3,75% a 4,00%. A curva de juros precifica esse movimento. Nesse sentido as atenções estarão principalmente voltadas para o comunicado, para as projeções econômicas do colegiado do FOMC e na entrevista pós reunião do presidente Kevin Warsh", afirma Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset.

O ponto central é saber se o Fed tratará essa alta como um ajuste pontual diante da aceleração da inflação ou como o início de um ciclo mais prolongado de aperto, de acordo com a especialista. "Uma sinalização de mais altas à frente seria potencialmente mais relevante para os preços dos ativos financeiro do que o próprio aumento da taxa no dia de amanhã", diz.

Leonel Oliveira Mattos, analista de Inteligência de Mercados da StoneX, não espera que Warsh anuncie de imediato um ciclo prolongado de aperto monetário. Na visão de Mattos, as projeções econômicas devem continuar mostrandopressão maior sobre a inflação e possibilidade de novas altas, mas o presidente do Fed tende a evitar uma indicação muito precisa sobre a velocidade desse processo.

Isso é particularmente relevante porque Warsh já sinalizou que pretende abandonar o chamado "dot plot", mecanismo tradicional usado pelo Fed para apresentar as expectativas dos dirigentes para os juros. Sem essa referência, os investidores terão de extrair ainda mais informação das palavras do presidente e das demais projeções divulgadas pelo FOMC.

"Uma eventual manutenção da taxa de juros seria bastante surpreendente e provavelmente seria mal-recebida pelos operadores do mercado financeiro", afirma o nalista de Inteligência de Mercados da StoneX.

As projeções de inflação serão, portanto, uma das peças mais importantes da decisão. A última atualização, em junho, havia mostrado uma deterioração significativa da perspectiva de inflação em relação a março. Para o crescimento, a estimativa daquele encontro era de expansão de 2,2% da economia americana.

Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos, trabalha com a possibilidade de um tom mais hawkish do Fed, isto é, com foco prioritário no combate à inflação por meio de taxas de juros elevadas ou mantidas altas por mais tempo.

Em sua avaliação, o Fed pode precisar deixar aberta a porta para mais altas porque os mercados vêm pressionando os juros de longo prazo para cima antes mesmo de uma mudança oficial na taxa básica.

"O interessante para o Banco Central de qualquer país é ficar à frente da curva, sempre acima da expectativa do mercado em relação aos juros. E o que estamos vendo é o contrário, o mercado puxando os juros para cima, enquanto o Fed está atrás da curva", diz.

Nesta terça, o rendimento dostítulos do Tesouro americano de 10 anos, osTreasuries, superou 5% em setembro de 2026, atingindo o maior nível desde 2007. Segundo Viotto, isso significa que o mercado de títulos vem fazendo parte do trabalho que normalmente seria provocado pela comunicação do próprio banco central: exigindo uma remuneração maior para carregar dívida americana de longo prazo.

Impactos do novo patamar de juros

Se Warsh validar essa pressão com uma sinalização mais dura, a consequência tende a aparecer primeiro nos juros americanos e depois no câmbio. Isso porque rendimentos maiores nos Treasuries tornam os ativos em dólar mais atraentes e podem estimular a realocação de recursos para os Estados Unidos, reduzindo o apetite por mercados emergentes, de acordo com os espeialistas.

"A tendência geral é de que investidores apostem em mais altas de juros pelo Fed nos próximos meses e isso reforce a concentração dos fluxos de capitais globais para os EUA, diminuindo os fluxos para emergentes como o Brasil", afirma Mattos.

O real está entre as moedas que podem sentir esse movimento. O estrategista global da Avenue, Fernando Saad Benati, chama atenção para o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.

Se o Fed elevar sua taxa em 0,25 ponto percentual enquanto o Banco Central brasileiro reduzir a Selic na mesma proporção, levando a Selic para 13,75% ao ano também nesta quarta, a distância entre os juros dos dois países diminui. Para o investidor estrangeiro, parte da vantagem de manter recursos em reais desaparece.

Mas esse efeito não significa, necessariamente, uma disparada do dólar na quarta-feira.

"A decisão de elevar os juros em 25 pontos-base, por si só, não deve provocar uma grande oscilação na curva, porque esse movimento já está praticamente precificado. O dólar, inclusive, voltou a se valorizar depois das leituras do PPI e do CPI da semana passada, então uma boa parte da decisão já pode estar incorporada aos preços", afirma Benati.

"Em relação ao real, se as expectativas se confirmarem e a Selic cair 25 pontos-base enquanto o Fed Funds subir 25 pontos-base, o diferencial de juros pode, sim, jogar contra o real", acrescenta.

No cenário mais benigno, o Fed sobe os juros, mas Warsh evita sinalizar um ciclo acelerado de aperto. Nesse caso, a alta dos Treasuries pode ser limitada e o dólar tende a ter uma reação mais contida.

No cenário mais duro, segundo os agentes financeiros, o presidente do Fed sinaliza que a inflação ainda exige novas altas, os rendimentos dos títulos americanos avançam e o dólar ganha força. Para os emergentes, a combinação significa condições financeiras mais apertadas e maior dificuldade para atrair capital.

Brasil soma Fed, Selic e incerteza eleitoral

No Brasil, porém, o câmbio não dependerá apenas de Washington. A eleição presidencial já começa a disputar espaço com o cenário externo na formação dos preços dos ativos, o que pode se agravar diante dosdesdobramentos da crise provocada pelas investigações do caso Banco Master, que colocou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e André Mendonça em lados opostos e levou a decisões conflitantes dentro da própria Corte.

"A proximidade da eleição presidencial de outubro, o conturbado noticiário vindo de Brasília e o cenário de uma eleição acirrada e de difícil antecipação devem dar peso preponderante para os temas domésticos na movimentação do real pelas próximas semanas", diz o analista da StoneX.

Viotto trabalha com um cenário mais agressivo para o dólar caso os fatores se combinem: Fed mais duro, moeda americana fortalecida no exterior,aumento da incerteza eleitoral e continuidade do ciclo de cortes de juros no Brasil. "Eu acho que o dólar pode passar de R$ 5,25, R$ 5,30 tranquilamente ali nas próximas sessões", afirma o chefe de banking da EQi.

AutorClara Assunção
FonteExame
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